O resultado do primeiro turno na Colômbia não foi apenas um susto. Foi um terremoto político cujo epicentro está submerso.
Ivan Cepeda, apoiado por Gustavo Petro, liderou as pesquisas por meses, mas foi ultrapassado na reta final por Abelardo de la Espriella, da extrema-direita, que somado a Paloma Valencia alcançou 50,7% dos votos.
As pesquisas erraram. Mais uma vez. Como erraram com Milei na Argentina, com Kast no Chile, com Noboa no Equador.
O fenômeno se repete: um eleitor invisível, que não aparece nos números, não responde a pesquisadores e não vota com a razão, explode nas urnas movido por algo que a esquerda insiste em ignorar — a emoção.
Esse tsunami não nasce na superfície. Nasce abaixo da linha d’água, no descontentamento subterrâneo que a extrema-direita aprendeu a arregimentar.
Na Colômbia, na Argentina, no Chile, esse movimento já surpreendeu.
Agora, o alarme está soando para o Brasil.
Se não mudarmos a linguagem, a mensagem e a própria alma da comunicação política que empreendemos, o próximo tsunami pode levar embora não apenas uma eleição, mas a própria estabilidade institucional do país, porque não é apenas um governo que estamos protegendo contra o avanço insano da ultra-direita golpista. É a própria noção de democracia.
O problema não é apenas o bolsonarismo. É a sua capilaridade.
A extrema-direita, como lembrou recentemente Valério Arcary na Esquerda Online, conquistou uma implantação social incomparavelmente superior à da esquerda.
Não se resume às igrejas pentecostais.
Há uma militância difusa, resiliente, que se sente acolhida emocionalmente enquanto a esquerda, muitas vezes, ainda aposta em planilhas, dados macroeconômicos e defesas racionais do legado de governo.
Se houvesse alguma racionalidade nessa disputa, Flávio Bolsonaro, o mais corrupto membro de uma família de cleptocratas, estaria amargando índices residuais nas pesquisas de intenção de votos.
A folha corrida do candidato do PL não deixa sombra de dúvida de sua ligação com a máfia do Banco Master, com notórios quadros do crime organizado, com o Escritório do Crime carioca e com práticas de enriquecimento ilícito cujas provas tornariam inviável qualquer atividade pública se estivéssemos vivendo algum tipo de normalidade cognitiva.
Lula tem aprovação entre os mais pobres, mas o bolsonarismo domina a “classe remediada” — assalariados que ganham acima do salário médio e se sentem abandonados por um discurso progressista que, aos olhos deles, prioriza “outros” em vez de suas próprias angústias.
Não se trata de fato; trata-se de percepção. E percepção é território da emoção.
Uma linha exclusivamente defensiva do legado do governo Lula será insuficiente.
Por quê? Primeiro, porque a classe trabalhadora está dividida. Segundo, porque a classe dominante, sem qualquer compromisso republicano com a democracia, forma um bloco majoritário sólido contra qualquer candidatura minimamente transformadora — e arrastará a classe média acomodada.
Terceiro, porque os resultados positivos da gestão não atravessam a “muralha” ideológica construída pela extrema-direita.
Quem odeia Lula por razões culturais ou afetivas — nutridas pela rede ininterrupta de desqualificação moral empreendida pela extrema-direita — não mudará de voto porque o PIB cresceu 0,5% a mais.
Aqui reside o cerne da ameaça institucional. A estabilidade democrática não depende apenas das instâncias formais.
Depende de um tecido social mínimo de confiança no outro, no sistema, no futuro.
A extrema-direita neofascista, ao explorar o ressentimento como motriz política, rompe esse tecido.
E a esquerda, se responde apenas com razão técnica ou nostalgia do fomos ou fizemos, perde o combate no campo onde ele realmente se decide: o campo simbólico, afetivo, narrativo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário