Nas suas composições há referências a Dante, Castro Alves, Lorca, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, e outros escritores nacionais ou estrangeiros.
Mas o cantor cearense, que chegou a estudar para padre e cursou quatro anos de medicina, não tinha só a literatura na cabeça.
Era um homem também com os pés no chão, atento à realidade.
A maioria das suas grandes canções reflete a origem nordestina e interiorana, o choque com a cidade grande, os anseios da pequena burguesia, a opressão do país governado por militares, a necessidade de romper com o passado em busca do novo, da mudança.
Através da música, de belas canções, Antônio Carlos Belchior fez uma leitura do Brasil, do seu tempo, refletiu os sonhos das gerações dos anos 70, 80 e início dos anos 90.
"Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada, ali em frente, tome um refrigerante, coma um cachorro-quente. Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem, tem essa pressa de viver...".
Em "Coração Selvagem", uma canção de amor, a reflexão sobre a vida, a estrada, a necessidade de viver o aqui e agora.
"Tudo Outra Vez" foi lançada em 1979, ano da anistia. Reflete a saudade de quem esteve no exílio forçado, como foi a vida fora do Brasil, a saudade do país, do seu lugar.
"Até parece que foi ontem, minha mocidade, com diploma de sofrer de outra universidade, minha fala nordestina quer esquecer o francês".
Acredito que essa estrofe dispensa explicações.
"Há perigo na esquina, eles venceram e o sinal está fechado para nós, que somos jovens".
Elis Regina, com sua voz potente, popularizou os versos de "Como Nossos Pais", quase um hino da geração que viveu sufocada pela ditadura.
"Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos, e vivemos como os nossos pais".
Com um olhar para o preto, o pobre, "uma mulher sozinha, os humilhados do parque com os seus jornais".
Com "Apena Um Rapaz Latino-Americano" Bel contesta Caetano, quando cantou que tudo é divino e maravilhoso.
E se define apenas como um latino, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindos do interior.
Quantos se identificaram com essa música na época em que foi lançada e ainda hoje se veem nos seus versos?
Na música "Dandy" o cearense ironiza a rebeldia dos jovens consumistas, sonhadores, os que têm um carrão. E estes veículos podem lhes ajudar a fazer mais rápido a "revolução".
"Galos, Noites e Quintais", a música tão bem elaborada que provocou boa inveja em Chico Anysio, evoca tempos passados.
O bagaço da cana de engenho, as fileiras de milho verde, quando se podia ser alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais.
Quando havia galos, noites e quintais. Antes de vir um tempo negro que fez "o que a força sempre faz".
Com referências a Dante e Castro Alves, "Divina Comédia Humana" é mais filosófica, faz referências ao amor e o sexo, como se os dois tornassem mais fácil viver em meio às angústias de quem precisa de psicanalista para sobreviver a dureza da vida.
"Fotografia 3 x 4" descreve novamente o choque na chegada à cidade grande. O preconceito contra os nordestinos (atualmente mais explícito), a violência de São Paulo e o Rio de Janeiro que vende ilusões.
O tema se repete em "Notícia de Terra Civilizada", com o sonho da cidade grande virando pesadelo, terminando na delegacia, como acontece com o personagem Fabiano, do romance "Vidas Secas".
Na homenagem a John Lennon, feita um ano antes da morte do Beatle, me parece que há também uma referência a João Batista Figueiredo, presidente escolhido por Geisel para dar fim ao ciclo do regime militar.
"Eu prefiro andar sozinho, deixem que eu decido a minha vida".
Claro que é um recado para governantes que censuravam, prendiam, torturavam, matavam, decidiam tudo por nós.
Elis Regina também gravou "Velha Roupa Colorida", que da mesma maneira de "Como Nossos Pais" fala da importância do novo, de rejuvenescer.
Mais adiante Belchior compôs "Arte Final", em que renega a nostalgia, protesta contra os preconceitos e no fim faz quase um discurso crítico em relação aos estudantes, aos aventureiros, os artistas os que ele chama de "rebeldes experimentadores".
Antes de Elis Regina popularizar Belchior, o compositor cearense foi gravado por Vanusa, então uma artista de prestígio.
"Paralelas" traz citações ao Rio de Janeiro e mostra como a solidão urbana, a necessidade de ganhar dinheiro, provoca o afastamento das pessoas, rouba o afeto.
Bel nunca gravou "Princesa do Meu Lugar", uma canção lindíssima em que homenageia Sobral, a cidade do Ceará que o trouxe ao mundo.
"Se me der vontade de ir embora, vida adentro, mundo a fora, meu amor, não vá chorar. Ao ver que o cajueiro anda florando saiba que estarei voltando, princesa do meu lugar".
Só por essa estrofe dá para ver a beleza dessa canção, que o artista cantou um dia no programa Som Brasil, mas nunca registrou a música em estúdio.
"Pequeno Mapa do Tempo" é praticamente uma síntese da obra de Antônio Carlos Belchior.
Fala dos seus medos, como em outras músicas e faz referências diretas as principais capitais brasileiras.
Eu tenho medo que Belo Horizonte
Eu tenho medo de Minas Gerais
Eu tenho medo que Natal, Vitória
Eu tenho medo Goiânia - Goiás
Eu tenho medo Salvador - Bahia
Eu tenho medo Belém, Belém do Pará
Eu tenho medo Pai, Filho, Espírito Santo, São Paulo
Eu tenho medo eu tenho C eu digo A
Eu tenho medo um Rio, um Porto Alegre, um Recife
Eu tenho medo Paraíba, medo Paranapá
Eu tenho medo estrela do norte, paixão, morte é certeza
Medo Fortaleza, medo Ceará.
Como está no título deste pequeno ensaio: Belchior faz uma leitura do Brasil, através de sua obra musical.










