A governadora Raquel Lyra (PSD), candidata à reeleição, se mantém neutra na disputa para presidente da República.
Repete o que fez em 2022 e está dando certo, pelo menos até agora.
Raquel fez (faz) um governo de resultados. Massificou a ideia de que o PSB destruiu Pernambuco e que ela está reconstruindo o estado.
Quem lê, acompanha os fatos, tem memória, sabe que não é bem assim.
Essa versão é tão falsa que esconde o fato da atual governadora ter sido deputada e secretária estadual filiada ao PSB.
Se foram 16 anos (às vezes falam em 20) de governos do Partido Socialista, ela e o pai, João Lyra, fizeram parte desse período.
Essa neutralidade, a meu ver, faz parte da negação da política.
E isso sempre foi perigoso. Foi o que deu em Fernando Collor e Jair Bolsonaro, os dois piores presidentes da história do Brasil.
Quando está em jogo a democracia versus fascismo os eleitores, principalmente os governantes, não podem se omitir.
Tem de ter peito como Arraes, em 1964, que preferiu ser deposto e preso do que compactuar com os golpistas.
Há quatros anos, como agora, se luta pela democracia, pela manutenção de programas que beneficiam os mais pobres, pela soberania nacional, por um salário mínimo digno, por mais empregos, liberdade, respeito aos poderes e a Constituição.
Até uma criança sabe que Lula representa os valores democráticos e seu principal adversário é um político carreirista com projeto pessoal, que atende a interesses escusos, inclusive dos Estados Unidos.
Ser neutro em relação a esse confronto é não ter compromisso com a democracia, é privilegiar seu próprio projeto de poder.
E Raquel, ainda mais este ano, não é tão neutra assim.
Caso contrário não teria ao seu lado companhias como as de Mendonça Filho, Gilson Machado, Clarissa Tércio, Eduardo Moura, Eduardo da Fonte, Miguel Coelho e a própria vice, Priscila Krause.
Alguns democratas reclamam de João Campos por não ser tão de esquerda quanto Arraes.
E não perdoam o PSB pela participação decisiva no impeachment de Dilma.
Ora, o Partido Socialista, especialmente em Pernambuco, já pagou pelo seu erro.
A candidatura de Danilo Cabral em 2022 foi um fiasco sobretudo pelo seu voto entusiasmado, em 2016, pelo impeachment.
Lula, que é sábio, não faz política como se fizesse parte de diretório estudantil, tanto perdoou os socialistas pelo posicionamento equivocado, no passado, que tem como vice Geraldo Alckmin, filiado ao PSB e que vem sendo correto com ele.
João Campos, em 2016, devia estar com 22 anos, ainda nem tinha estreado na vida pública.
Não dá para culpá-lo pelo erro de Danilo Cabral ou Paulo Câmara.
Aliás Paulo, que apoiou o processo contra Dilma, hoje faz parte do governo Lula.
Nesse contexto que estamos examinando, a "neutra" Raquel está à direita, cercada pela velha e nova direita pernambucana, praticando a antiguíssima política do toma lá da cá, cooptando prefeitos, deputados e jornalistas como nunca se fez no estado.
João, que trabalhou muito no Recife, com uma capacidade de entregas maior do que a da governadora, está aliado com o PT, está com Lula, está contra as forças do atraso e isso precisa ser levado em consideração na escolha de quem vai governar Pernambuco.
Se Raquel vence continuará mais do mesmo. Se João Campos ganha há uma perspectiva de avanços e poderemos ter novos hospitais, mais investimento na educação, além de mais respeito aos municípios que não podem ser discriminados simplesmente porque o prefeito é da oposição, como acontece com Garanhuns, cidade esquecida até quando da nomeação de policiais militares.
A neutralidade faz parte de um teatro. Ela na verdade não existe.
O que existe mesmo é um projeto de poder nos moldes do praticado pela velha Arena, PDS, PFL, ideário político que sobrevive com nova roupagem.