Tinha 45 anos quando um acidente de carro o levou, em 1991.
Deixou uma obra marcante na música popular brasileira, com músicas de sua autoria gravadas por intérpretes do quilate de Fagner, Maria Bethânia, Simone, Elis Regina e Beth Carvalho.
A meu ver a obra prima de Gonzaguinha é a canção " É Preciso", de um dos seus primeiros álbuns.
Tem versos antológicos e precisa ser feita uma leitura atenta da letra, pois muito do recado está nas entrelinhas.
É uma música autobiográfica, que lembra da mulher que o criou, do seu mundo na infância.
Mas reflete a luta de toda mulher do povo, na periferia das grandes cidades.
Minha mãe no tanque lavando roupa, minha mãe na cozinha lavando louça, lavando louça, lavando roupa... começa Gonzaga Júnior, ao cantar a lida de Dina.
E o compositor, numa sacada inteligente, continua:
Levando a luta, cantando um fado, alegrando a labuta, labutar é preciso menino, lutar é preciso menino, lutar é preciso.
Sim, para segurar a barra é preciso cantar, "alegrar a labuta", como crava Gonzaguinha ao falar do trabalho doméstico da mãe adotiva.
Labutar é preciso menino, Lutar é preciso menino. O compositor propositadamente repete palavras, faz trocadilhos, para ilustrar a luta de alguém que provavelmente nunca terá seu trabalho reconhecido.
Na sequência o autor de "É Preciso" descreve uma bola correndo nas pedras redondas da Rua São Carlos, que deságua no asfalto, com o menino atrás. "E o menino atrás, ói lá...".
Na parte mais significativa da música o compositor cita o nome da (sua) heroína. Ô Dina é preciso olhar essa vida além desse filme no Cine Colombo, saber dessa lama na festa do mangue.
A vida, claro, é muito mais do que a labuta no subúrbio, lavando roupa, lavando louça.
É muito mais que a ficção no cinema, que faz sonhar.
Depois de andar de bonde, de percorrer vielas e becos, o personagem volta pra casa cansado, arrasado. Violão cansado, calado.
E Gonzaguinha, terno e implacável:
Mas mãe não se zangue que as mãos eu não sujo,
Apenas eu quis conhecer a cidade,
Saber da alegria e da felicidade
Que vendem barato em qualquer quitanda,
Mas volto arrasado tá tudo fechado,
Talvez haja falta não há no mercado
E hoje ô Dina nem é feriado
E hoje ê Dina não é feriado
Vê mãe, labutar é preciso
Lutar é preciso
Ô mãe lutar é preciso
Labutar é preciso.
Insisto: é uma letra antológica. Vale por um livro, um tratado de sociologia.















