Desde que se consolidou como principal emissora de TV do Brasil, a partir de 1969, a Globo evitou nas novelas e até nos programas musicais apresentar imagens de pessoas pobres ou miseráveis.
Nas telenovelas, nos anos 70 e 80, principalmente, os personagens nunca retratavam o país real.
Pobres, nos folhetins, moravam em boas casas, com móveis bons, telefone (um luxo nas décadas passadas) e até carro.
Os desdentados, os trabalhadores que sofrem nos ônibus lotados das grandes cidades não apareciam na telinha.
Nos musicais os artistas de origem humilde não tinham vez, não eram escalados nem nas trilhas sonoras das novelas.
Embora não vendessem muito disco, não tivessem grande público, cantores da MPB eram privilegiados, em detrimento de "cafonas" como Agnaldo Timóeto, Nélson Ned, Paulo Sérgio ou Odair José.
Até o comunicador Abelardo Barbosa, o Chacrinha, teve problemas com esse projeto de "higienização" da Globo.
O Velho Guerreiro foi interessante para a TV Globo quando a emissora precisou se consolidar, porque dava audiência, mas começou a ser descartado quando o canal já detinha o monopólio nas comunicações.
Em 1972, quando entrevistava o humorista Juca Chaves, Chacrinha foi cortado abruptamente por ordem de Boni, o então todo poderoso diretor da emissora.
Já estamos em 2026 e o padrão Globo não mudou muito, no jornalismo ou nos musicais.
Artistas medíocres, principalmente os chamados sertanejos, que destruíram a tradição da autêntica música caipira, agora têm vez, talvez porque pasteurizam e escondem a pobreza que existe nas periferias das grandes cidades ou nos grotões.
Os bons nomes da MPB que envelheceram raramente aparecem. Os novos cantores e compositores que têm qualidade simplesmente são ignorados.
A nova MPB ou qualquer outro som que fuja à mesmice só consegue furar a bolha, nos tempos atuais, se obtiver êxito no YouTube ou Instagram.
Uma cantora e compositora do porte de Flávia Wenceslau, que está há anos na estrada, é desconhecida pela imensa maioria dos brasileiros, mesmo alguns conhecedores da MPB.
Muita gente já ouviu uma canção intitulada "Eu Te Desejo", na voz do padre Fábio de Melo , que nem cantor de verdade é.
O que poucos sabem é que essa canção é da autoria da paraibana Flávia, que aliás na interpretação da música dá de 10 x 0 no sacerdote.
É isso aí: a Globo esconde a miséria, seleciona quem é corrupto ou não, elege e derruba presidentes, apoia golpes e indica os artistas que devem cair no gosto do público.
Manipulação, a gente vê por aí.
Logicamente não é só a empresa da família Marinho que contribui com a higienização e alienação do povo. Toda a grande mídia tem posição semelhante.