Roberto Carlos Braga, natural de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, se tornou o maior artista brasileiro de todos os tempos.
O cantor e compositor pode não ser genial, como Caetano Veloso ou Chico Buarque, mas certamente nasceu com o dom de cantar e fazer letras muito boas, na linha romântica, demonstrando preocupações com a ecologia ou expressando suas crenças religiosas.
Sua primeira apresentação foi ainda criança, na emissora de rádio da cidade natal, quando tinha apenas 9 anos de idade.
Ainda adolescente, já morando no Rio de Janeiro, ralou para conquistar seu espaço no meio artístico nacional, cantando em boates, fazendo apresentações em circo, gravando discos que não venderam quase nada, no início da carreira.
Chegou ao sucesso com menos de 25 anos, quando ainda tinha um lado rebelde e teve a ousadia da mandar tudo pra o inferno, numa época em que a ditadura comandava o país.
Católicos, que eram maioria absoluta no Brasil, em 1965, reagiram muito mal àquela heresia que desagradou até colegas do meio musical.
Mas foi "Quero Que Vá Tudo Pra o Inferno", composta por conta da saudade da namorada que estava longe, nos Estados Unidos, que Roberto Carlos ficou conhecido nacionalmente e chegou a outros países, da América Latina e até da Europa.
Embora digam que Roberto Carlos nunca mudou, se repetiu a vida toda, não é bem assim.
O cantor e compositor dos anos 60 é um, na década seguinte é outro, com algumas diferenças importantes.
Verdade que sempre falou de amor. Mas se nos primeiros anos cantava rock, gravava músicas inspiradas em histórias em quadrinhos, influenciava a maneira de vestir dos jovens, criava gírias, na década de 70 passou a investir nas baladas românticas, começou a fazer canções de fundo religioso, se preparou para, nos anos 80, se confessar um careta e compor músicas com preocupações ecológicas, com uma pitada de crítica à ciência.
Em mais de 60 anos de carreira, Roberto cantou os brotinhos (garotas muito jovens), a velocidade, os motoristas de táxi e caminhões, as mulheres maduras, homenageou os amigos e familiares e escancarou o gosto pelo sexo em baladas picantes que ecoaram nas residências e nos motéis.
Somente no início dos anos 2000, ele e o parceiro Erasmo fariam a primeira música se rendendo à ciência, celebrando desde o surgimento da luz elétrica, à invenção do avião e do computador.
Muitos que não ouvem o cantor ou não dão importância a sua música, não se deram conta ainda que o artista está para completar 81 anos.
Pensam que Roberto parou no tempo, quando eles é que estacionaram e só veem o cantor dos anos 60, ou 70, 80, 90 e das últimas décadas.
Está velho, sem nenhuma conotação negativa para a palavra. Chegar a essa idade é um privilégio, ainda mais lúcido, criativo, com voz suficiente ainda para encantar.
Para saber a importância do Roberto, é preciso ter conhecimento de sua obra, saber quanta gente importante já o gravou, no Brasil e exterior, ler o Paulo César Araújo, jornalista e escritor que mesmo perseguido pelo ídolo escreveu uma obra definitiva a respeito dele.
E Paulo César foi além, no primeiro volume de "Roberto Carlos Outra Vez", passeou pela Bossa Nova, o Tropicalismo, a MPB, os bregas, citou Beatles, Frank Sinatra, Elvis Presley e e Rolling Stones.
Muitos criticam Roberto pela sua omissão política, por ter cantado para militares e mais recentemente ter elogiado de público Sérgio Moro ou outras figuras igualmente nefastas.
Ora, o artista de Cachoeiro de Itapemirim sempre foi isso aí. Claramente é um homem que leu muito pouco na vida, além de não ter cursado universidade.
O que criou, só ou com seu parceiro, nasceu de um dom natural, de sua visão de mundo, do que ouviu e viu em suas viagens pelos mais diferentes países, que foram muitas.
Cantores e compositores como Fagner e Renato Teixeira, de uma vertente mais universitária, autores de músicas ligadas à realidade social do país, erraram muito mais do que Roberto, pois na eleição de 2018 se posicionaram publicamente a favor de Bolsonaro, um capitão com vocação de ditador que levou o Brasil a um retrocesso inimaginável alguns anos atrás.
Roberto Carlos, segundo Caetano Veloso, que tem autoridade de sobra para dizer isso "é a voz do Brasil".
Não aquela voz oficial do programa radiofônico e sim de um cara que expressa os sentimentos do homem do povo, das pessoas de classe média e dos pequenos burgueses preocupados com valores individuais.
Esse Roberto que muitos desdenham nos dias atuais, já vendeu mais de 140 milhões de discos e hoje continua presente, nas plataformas digitais.
Com sua arte, sua visão empresarial, se tornou um dos homens mais ricos do mundo.
Em 2019, portanto três anos atrás, tinha um patrimônio avaliado em 160 milhões de dólares, o que dá mais de R$ 660 milhões.
Roberto e Erasmo podem não ser intelectualizados como Chico, Caetano ou Gil, mas não há dúvida de que criaram uma obra que chegou a mais pessoas, atravessou décadas e daqui a muitos anos, através do olhar da história, poderá, quem sabe, ser até mesmo mais valorizada.
Por enquanto dentre os intelectuais parece que só Paulo César Araújo enxerga tão bem esse fenômeno da música popular do Brasil.

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