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sexta-feira, 29 de abril de 2011

GRANDES NOMES DA MPB - 61º

CHICO SCIENSE

O cantor e compositor pernambucano Lenine, que já teve o seu perfil traçado nesta série sobre a Música Popular Brasileiro, disse uma vez que “Chico Sciense é o nosso Bob Marley”. Gilberto Gil, o consagrado músico baiano, que já foi também vereador e ministro da Cultura do Brasil, considerou, à época do surgimento do Manguebeat, “Chico e Carlinhos Brow como os cantores mais importantes surgidos no país nos últimos 20 anos”.

Basta se ater a essas avaliações de Lenine e Gil para ter a dimensão do que Chico Sciense representou e representa no universo da MPB, apesar da sua trajetória curta, esmagada num acidente de automóvel no dia 2 de fevereiro de 1997, quando o artista trafegava entre Recife e Olinda.

Francisco de Assis França nasceu no dia 13 de março de 1966, quando seus pais, Luiz e Rita, moravam no bairro recifense de Santo Amaro. Moraram uns tempos em Paulista e depois em Rio Doce, em Olinda.

Desde criança que um dos principais responsáveis pelo movimento Manguetbeat (que poderia ser traduzido como Batida do Mangue ou Música do Mangue), gostava dos sons e convivia com a realidade dos mangues do litoral pernambucano. Menino, catava caranguejos no manguezal para vender nas feiras.

Luiz França, o pai de Chico, chegou a exercer um mandato de vereador em Olinda, nos anos 80, tendo o filho tido uma participação interessante na campanha. Ainda um garoto, pediu o caro do “velho” emprestado e saiu pelas ruas: “Povo de Rio Doce, vote com confiança, vote em Luiz de França”.

Por essa época, integrou a Legião Hip Hop, um grupo de dança de rua. Em 1988 fez parte da Banda Loustal e dois anos depois surgiu a Banda Chico Sciense e Nação Zumbi, que mudaria radicalmente a cena musical na Região Metropolitana do Recife, em Pernambuco e no Brasil.

Antes de se dedicar totalmente à vida artística, Francisco França chegou a trabalhar na área de Recursos Humanos, numa empresa da área de informática, no Recife. Com o Nação Zumbi, as primeiras apresentações, os dois discos, virou o Chico Sciense e a partir daí só música.

O primeiro disco foi “Da Lama ao Caos", lançado juntamente com o manifesto “Caranguejos com Cérebro," definindo as bases do Movimento Mangue. O segundo CD foi “Afrocibernélia”. Os dois trabalhos projetaram o pernambucano, que passou a fazer shows não somente em seu Estado, mas nas grandes cidades do Sul e Sudeste e também em outros países.

A ideia do cantor, desde o início, era mesclar soul, funk, hip hop e o som psicodélico dos anos 60. Chico Science pretendia também, com a Banda Nação Zumbi "resgatar os ritmos negros do Nordeste com uma visão mundial".

Chico e Nação Zumbi foram eleitos pela Associação de Críticos Musicais de São Paulo o melhor grupo musical brasileiro de 1996.

O jornalista e crítico musical José Teles, do Jornal do Commercio do Recife, escreveu há um tempo um artigo muito bom relembrando a trajetória do criador do Manguebeat. Lembrou sua caminhada desde os tempos em que saiu pelas ruas pedindo votos para o pai, até o dia em que, em pleno período de Carnaval, sofreu o acidente de carro que o levou precocemente.

Um trecho do que foi escrito por José Teles:

“Não sei se ele perseguia o mangue, ou era o mangue que perseguia ele”, filosofa o pai, hoje aposentado, mas ainda trabalhando como enfermeiro, lotado no Espaço Ciência, no Memorial Arcoverde.

“Coincidentemente, foi ali perto, próximo aos mangues, que Chico Science acidentou-se há 10 anos. Na enfermaria do parque onde dá expediente todos os dias, estão dois grandes pôsteres de Chico Science. Mas o que ele mais deseja é criar um espaço Science: “Chiquinho deixou escrito num caderno que futuramente iria criar um espaço cultural para amparar menores carentes. Eu já conversei com muitas autoridades, prefeitos, com a Chesf, mas nada foi feito até hoje”, revela seu França.

Ele também lamenta que não pôde cuidar do célebre Landau que pertenceu ao filho malungo: “Tentei também que as autoridades ajudassem a preservar o carro, mas não obtive nada. Hoje ele está enferrujando numa garagem lá na Imbiribeira”, lamenta.

“Num coração de mãe a dor da saudade é para sempre.” Dona Rita de França, mãe de Chico Science, fala resignada sobre os anos vividos sem o filho caçula, que ela e o marido seu Luiz França chamam de Chiquinho. As lembranças que ela guardou de Science são as melhores possíveis: “Ele me ligava todo dia, mesmo quando estava distante. Nosso relacionamento era uma maravilha. Quando ele morreu, fazia oito dias que a gente não se via, porque ele andava muito ocupado por ter chegado de uma viagem e estar se preparando para gravar outro disco. Mas não deixava de telefonar para pedir a bênção”, continua dona Rita, que na época morava em Olinda, e atualmente reside no bairro das Graças (Recife).

“O único fato destoante dessa infância tranqüila foram crises de asma, algumas pesadas, que o afligiram até os 8 anos: “Algumas vezes foi necessário levar Chiquinho para o hospital, mas crise grave mesmo ele só teve uma”, conta o pai sobre o caçula de seus quatro filhos. Embora cultue a memória do filho, conservando objetos que pertenceram a ele, dona Rita confessa que conhece pouco a música de Chico Science: “Não sei nenhuma decorada. As que eu gosto mais são A praieira e A cidade.

Em 2007 a Fiat foi condenada a pagar à família do cantor uma indenização de quase 10 milhões de reais, considerada uma das maiores já paga por uma empresa automobilística no Brasil. O músico teve uma homenagem da prefeitura de Recife, seu nome batizou uma grande avenida da cidade. E quando dos 10 anos de seu falecimento, o pai do cantor, o servidor Francisco França, colocou uma praca de bronze no Espaço Ciência, em Recife.

José Teles também escreveu um artigo intitulado “Que estariam fazendo hoje Chico Science e Jimi Hendrix? Neste texto, o jornalista especula:

“Assim como Bob Marley, Chico recuperou e reciclou ritmos autóctones, dando-lhe uma roupagem moderna. Não apenas moderna, mas inteligível em qualquer idioma. Ao longo da história da música pop/rock existiram poucos iguais a ele. Sempre se pergunta, que tipo de som estaria Jimi Hendrix fazendo hoje?

“Assim como Chico Science, o maior guitarrista dos anos 60, a partir do blues criou uma música nova, que continua atualíssima.

Chico foi buscar na infância e adolescência, pastoris, o acorda povo, maracatu, coco, ciranda, e revestiu-lhes de uma linguagem contemporânea, que acabou extemporânea.

“O disco mais novo da pop brasuca chama-se Afrocibederlia. Nada a ver com o tropicalismo, faz favor. Os músicos tropicalistas, não mais fizeram do que referendar o kitsch, o cafona e o mau gosto, como coisas nossas, muito nossas (o que aliás Noel Rosa já descobrira nos anos 30). Seus discos são centrados muito mais na linguagem escrita. A musical vem em segundo plano (com exceção de Os Mutantes, tropicalista por acaso). O tropicalismo foi um neo-modernismo. O manguebeat nasceu a anos-luzes do pop que se praticava no Brasil.

“Chico Science foi um visionário intuitivo, com um impressionante poder de assimilação do novo. Lembro de uma crítica numa dessas revistonas estrangeiras, em que o jornalista escrevia que Afrocibederlia era a música jungle, que os ingleses, autores do sub-gênero, jamais conseguiriam fazer.

“É lamentável que Chico tenha morrido tão cedo. Uns dois meses antes daquele acidente conversamos e ele me dizia que estava pensando em fazer frevos, em tentar unir o popular ao erudito (não exatamente de acordo com os cânones armoriais). Pois é, Jimi Hendrix e Chico Science, em 2001 qual seria o som desses dois astronautas libertados?”

A CIDADE – Uma das músicas mais representativas cantadas por Chico Sciense foi A Cidade (composição de de João Higino Filho) citada inclusive por sua mãe. Ao clicar na palavra que denomina a canção, toda em maiúsculo, você acessa um criativo clipe do cantor e do grupo Nação Zumbi interpretando a música em questão. A letra segue abaixo:

A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade se encontra
Prostituída
Por aqueles que a usaram
Em busca de uma saída
Ilusora de pessoas
De outros lugares,
A cidade e sua fama
Vai além dos mares
E no meio da esperteza
Internacional
A cidade até que não está tão mal
E a situação sempre mais ou menos
Sempre uns com mais e outros com menos
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
Eu vou fazer uma embolada,
Um samba, um maracatu
Tudo bem envenenado
Bom pra mim e bom pra tu
Pra gente sair da lama e enfrentar os urubus
Num dia de sol, recife acordou
Com a mesma fedentina do dia anterior.

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