UMA CRÔNICA PARA RECIFE CIDADE DE PONTES E POETAS


As lojas Viana Leal e Mesbla marcaram época no Recife.

As duas ficavam na Rua da Palma, no centro da capital pernambucana.

A Mesbla depois se instalou na Conde da Boa Vista, no coração da Veneza Brasileira.

No tempo dessas lojas na Rua da Palma não tinha shopping e a Viana Leal era uma das poucas casas comerciais do Recife com escada rolante.

Tinha gente que ia lá só pra subir e descer, imagine só.

O Recife é uma cidade bonita, quente, sufocante às vezes.

Lá tudo é caro e as distâncias incomodam. Da Várzea, um bairro bucólico, que já teve ares de interior, para Boa Viagem, na Zona Sul, é quase uma viagem.

Recife hoje está na tela grande, ficou mais conhecida nacionalmente graças ao cineasta Kleber Mendonça Filho.

A maioria dos filmes de Kleber são ambientados na capital pernambucana. Setúbal, Boa Viagem e o centro estão presentes em Aquarius, Retratos Fantasmas e O Agente Secreto, três dos longas do cineasta.

Kleber Mendonça olha para o passado e vê o presente: o centro tinha cinemas que marcaram a vida de muita gente.

Um deles, o Art Palácio, aos sábados pela manhã exibia a "Sessão de Arte".

Só grandes filmes, de diretores consagrados.

No final da década de 70, nessa sessão especial, foi exibido "O Grande Ditador", de Charlie Chaplin.

Uma das grandes obras de Chaplin, o filme tinha sido censurado no Brasil no período mais duro do regime militar.

Com o começo da "abertura" pôde ser visto no Recife.

O Art Palácio estava cheio, o filme é envolvente. Quando chegou o final, em que o personagem faz aquele discurso contra o nazismo e qualquer forma de tirania, o público aplaudiu de pé.

Era como se o discurso tivesse sido feito contra a ditadura brasileira, fosse direcionado ao general Ernesto Geisel.

Dos cinemas do centro do Recife só resta o São Luiz, que é preservado graças ao Estado.

Fecharam as portas o Trianon, o Art Palácio, o Ritz, o Astor, o Moderno, o Veneza e o Boa Vista.

Kleber mostra isso em Retratos Fantasma, uma obra prima, a meu ver.

Além do intenso calor, das distâncias e do custo de vida alto, incomoda no Recife o trânsito infernal.

Atravessar a Caxangá ou a Abdias de Carvalho, pegar a Agamenon Magalhães nos horários de pico, trafegar pela Avenida Recife ou Mascarenhas de Morais é quase sempre um suplício.

Não é diferente na Rosa e Silva, Avenida Norte ou Domingos Ferreira.

Bom no Recife é a praia, a sensação de liberdade, o fato de ninguém estar preocupado com aparências.

Os restaurantes são legais também, os teatros. As livrarias já foram point, na capital pernambucana, mas foram engolidas pela internet.

As classes médias e alta não vão mais ao centro, quando saem de casa é para algum shopping center.

São lugares frios, sem alma, onde se respira capitalismo, se come mal e se gasta muito.

Os clubes ainda estão lá, como no passado de glórias: O Internacional, o Português, o Náutico, o Sport, o Santa Cruz,  mais distante.

Xuxa, quando era a rainha dos baixinhos, se apresentou uma vez no Clube Português quando tinha 19 anos.

Uma visão. Era tão bonita que parecia de mentira. Hoje só é possível repeti-la usando inteligência artificial.

Mas a apresentadora era imatura, nos programas de TV era artificial. Hoje é mais centrada, a idade lhe fez bem.

Os clássicos entre Náutico, Sport e Santa Cruz atraiam grandes multidões. E sempre provocavam grandes emoções.

Ainda hoje é assim. O "Trio de Ferro", como é chamado, continua no coração do povo.

No Recife não tem essa de clubes paulistas ou cariocas tomarem o lugar dos times locais.

Jogos memoráveis no Arruda, Ilha do Retiro e Aflitos, com goleadas dos pernambucanos diante dos rivais do Sudeste.

Santa, Náutico e Sport já tiveram times de enfrentar de igual para igual Corinthians, Flamengo, Botafogo, Santos,  Palmeiras ou qualquer outra equipe do Sul/Sudeste.

Recife tem boas universidades. A UFPE fica um pouco distante, entre a Várzea e o Engenho do Meio.

Mas a faculdade de Direito, pela qual passaram tantos nomes que marcaram a política a história do Brasil fica no centro, perto do imponente Parque 13 de Maio.

Nos últimos anos, surgiram novos espaços de lazer, áreas verdes. Lá atrás teve o Parque da Jaqueira, na época de João Paulo foi construído o Parque Dona Lindu, em Boa Viagem.

O prefeito João Campos está construindo parques enormes, em áreas populares. Recentemente entregou a primeira etapa de um no bairro de Santo Amaro, outro entre Brasília Teimosa e o Pina.

Esses parques humanizam a cidade. Uma cidade grande não pode viver só de praia, restaurante e barzinho.

Outra maravilha do Recife é ter Olinda ao lado. Comer tapioca no Alto da Sé é o ato mais simples do mundo. Mas é tão bom quanto uma viagem a Paris.

Recife está em Kleber Mendonça. Mas também nas obras de Gilvan Lemos e Alceu Valença, ambos naturais de São Bento do Una.

Chico Sciense e Lenine são Recife.

Osman Lins, que nasceu em Vitória de Santo Antão.

Manuel Bandeira e João Cabral de Melo, esses sim nasceram no Recife.

Reginaldo Rossi.  Almir, que foi vocalista da banda The Fevers, nasceu no Recife.

Adilson Ramos nasceu no Rio de Janeiro, mas tornou-se um recifense de primeira.

"Por que não paras relógio...?"

E tem a Banda de Pau e Corda, que fez esses versos, grande sucesso no carnaval pernambucano até hoje:

Quem chega em Recife

Logo fica apaixonado

Beleza por todo o lado

Recife é linda demais

O frevo é quente

Alegria de toda essa gente

Contente

Com muito orgulho de lá

Praia de Boa Viagem

Capibaribe, pontes,

Históricos montes,

Guararapes

Igreja de São Pedro

Museus e monumentos

Olinda, e sua tradição

Conheça o Recife

E leve o Recife

Pra sempre no seu coração. 

*Imagem:https://feel.visitbrasil.com/tour-por-recife-e-suas-pontes/

Um comentário:

  1. Moro no Recife há 55 anos e nunca me acostumei com essa vida doida e calorenta. Meu sonho era morar em Garanhuns ou Gravatá, mas cicunstâncias alheias à minha vontade me impediram. Hoje, com 73 anos, acho difícl realizar esse meu sonho. Só me resta viver, então.

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