NA SOLIDÃO DO SHOPPING - Conto inédito de Roberto Almeida

Aos 76 anos, aposentado há uma década, Dr. Eriberto via pouco futuro pela frente e o passado percorrendo uma longa estrada nos seus olhos, como num filme.

Uma tarde de domingo, vendo o formigar de jovens entediados pelos corredores de um shopping qualquer, fez uma observação:

- Esses meninos e meninas, 24 horas por dia com o celular na mão, não têm ideia de como era a vida antes, no tempo dos seus pais.

Ou dos avós, talvez.

Eriberto nascera num lugar pequeno, um povoado, pouco mais de 100 casas.

Tinha a rua do comércio, duas ou três em volta e acabou-se.

Graças à labuta do pai e da mãe estudou em colégio particular e fez o curso de direito na capital.

Pôde ter uma vida melhor do que a dos pais e oferecer aos filhos todo conforto possível.

Mas lembra da mãe rezando à luz do candeeiro,  o motor, e enfim a chegada da energia elétrica gerada na usina de Paulo Afonso.

São Bento tinha cinema e era a única diversão.

Demais os homens jogavam baralho, sinuca e futebol.

As mulheres em casa, lavando roupas, panelas, cuidando das crias, nenhuma delas trabalhava fora.

A primeira que fez isso, Daice, nos correios, provocou um escândalo, virou alvo das fofocas, as próprias mulheres criticando.

Pode até ser saudosismo, pensa Dr. Eriberto, mas acredito que as crianças e os adolescentes eram mais felizes do que hoje.

Não precisavam entrar na escola com pouco mais de dois anos, ficar longe dos pais, saber o mesmo dos adultos,  em tenra idade,  cedo começar as sessões com uma psicóloga.

Berto ou Bertinho, como carinhosamente lhe chamavam uma tias, jogou bola de gude, pião, empinou pipa e correu em meio à chuva,  sem medo de pegar uma pneumonia.

Acompanhou os pais em casamentos pelos sítios, viajando de rural.

As estradas eram de terra, trepidavam e mesmo assim se a volta fosse à noite terminava dormindo no carro mesmo.

Nada melhor que a casa dos avós. Não havia nem televisão, imagine internet, essa febre de hoje, que deixa todo mundo doido,  como se em cada um baixasse o espírito de Einstein. 

Os velhinhos não brigavam, eram ainda mais carinhosos que os pais, ofereciam doces e surpreendentemente recitavam versos de Camões.

O doutor só foi saber quem era o autor de Os Lusíadas quando estava na faculdade.

E agora, com os cabelos ralos e brancos, lembrava dessas coisas, porém não tinha olhos somente para o passado.

O futuro era pouco, como dito, no entanto tinha os pés no presente.

Via o crescimento das cidades, o aumento da violência, a população aplaudindo a truculência das polícias.

Numa mesa, sozinho, observava o movimento no centro comercial.

Pediu um café descafeinado, com um pouco de leite e tomou o líquido devagar, acompanhado de biscoitos.

Quando saiu do Espírito Santo para São Bento viveu o tempo das bolachas.

Uma padaria do centro fabricava as melhores, vinha gente até de Pesqueira e Belo Jardim comprar dos produtos famosos.

Agora são biscoitos, pizzas, sanduíches na McDonald's, almoços finos em restaurantes italianos, portugueses, chineses, franceses e japoneses

Dr. Eriberto não era razinza, sabia apreciar o lado bom da cidade grande.

Com a farta aposentadoria aproveitava o que a capital oferecia.

Não só os restaurantes, também os teatros, as apresentações de orquestra sinfônica, a praia de Boa Viagem, ou Piedade, Candeias, Janga ou outra mais distante, quando vinha um feriado prolongado.

Essa moçada pensa, provavelmente, que sempre teve tudo isso: ajuda do governo pra comer, estudar, fardamento de graça, ônibus pra todo canto, médico até nas comunidade quilombolas, distantes.

Essa internet está presente também nos grotões.

Todos ficam no ponto de ônibus, às 18 horas, ligados na telinha.

Conversam com os colegas que estão no outro lado da cidade, veem as redes sociais, opinam, destilam veneno, discutem pesado sem necessidade de trocar socos.

Só palavras duras mesmo, muitas vezes inconvenientes.

Levantou disposto a voltar ao apartamento. Gostava mais de morar em casas, mas na metrópole era difícil, por motivo de segurança.

A mulher, companheira de lida há 40 anos estaria lhe esperando, perguntaria como foi no shopping, responderia de pronto, sem os entusiasmos dos tempos da juventude.

Pegaria a toalha, no quarto,  depois passaria no mínimo 30 minutos debaixo do chuveiro de modo a aliviar o calor do mês de novembro.

Apesar de tudo não tinha ressentimentos, frustrações, reconhecia que fora um vencedor, tivera bons momentos, era um privilegiado num país de tantos desvalidos.

E estava consciente de que ainda não acabou. A esposa amada, os filhos, os netos, alguns amigos, as leituras; esse conjunto lhe permitia satisfações, prazeres, gozos, alegrias, doses homeopáticas de felicidade.

- Quem dera esses meninos, essa mocinhas, possam viver tudo isso que vivi. Olhar para o passado do mesmo jeito, encarar o presente com coragem e promover o bem.

Dr. Eriberto tinha olhar crítico.  Porém se recusava ao pessimismo de outros de sua geração.

*Ilustração: Imagem meramente ilustrativa captada na internet. 

Um comentário:

  1. Ôxi Roberto, eu de Serrinha, também já comprei produtos saborosos daquela Padaria no centro de São Bento do Una. Se eu for lá, tenho que trazer pacotes e mais pacotes com bolachas. Daí vou presenteando Mãe, filhos...
    Uma farra, visse. Parece que o nome da famosa padaria, é SERTANEJA, ou SERTANENSE.

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