QUANDO NÃO HAVIA INTERNET E O SURGIMENTO DO MUNDO LÍQUIDO


Nas grandes e pequenas cidades, até o final dos anos 80 as pessoas se informavam através dos jornais impressos, das revistas semanais, do rádio e das emissoras da TV.

O Jornal Nacional da TV Globo, até a década de 90 chegava a ter 80% da audiência do horário.

No Recife, em 78/79 era comum o cidadão acordar e comprar o exemplar do Diario de Pernambuco, para saber as notícias do dia anterior e da semana.

A Rádio Clube tinha uma audiência espetacular, principalmente no horário de "O Mundo Em Suas Mãos", nas vozes potentes de Edilson Torres e Gilberto Carvalho.

Em Garanhuns forte era a Difusora, Aluízio Alves fez história com a "Ronda Policial", jornais e revistas eram procurados na Banca Avenida, localizada na Santo Antônio, no centro da cidade.

"Belos tempos, belos dias...", como está na música.

Hoje os domingos são de doces recordações.

Os jornais e revistas impressos desapareceram, o rádio perdeu ouvintes e a TV aberta sente a concorrência dos streamings e das redes sociais.

Vivemos numa "velocidade estonteante" e não conseguimos acompanhar tudo que acontece.

E a aldeia tornou-se global, como previu um teórico da comunicação.

Famosos entram nas nossas casas, diariamente, fazendo revelações, tecendo ou rebatendo críticas. 

Estrelas da dramaturgia publicam fotos de biquíni, em poses  sensuais, algumas fazendo questão de exibir o corpo bonito aos 40 ou aos 50 anos.

Vivemos o admirável mundo novo, em que o presente está literalmente fundindo as cucas e o futuro foi antecipado.

Essa nova realidade não permite estabilidade. Ninguém consegue ficar no pedestal da fama por muito tempo.

Basta um vídeo para se tornar conhecido, por um dia ou com sorte uma semana.

Uma live pode destruir reputações.

Um polonês, Zygmunt Bauman, estabeleceu nos anos 2000 o conceito de mundo líquido ou modernidade líquida.

Ele viu a sociedade contemporânea caracterizada pela fluidez, volatilidade, incerteza e pela dissolução de laços sociais, identidades e instituições, que perderam sua rigidez e estabilidade.

Segundo a teoria de Bauman as relações se tornaram efêmeras.

O amor líquido trouxe o desapego, provisoriedade e facilidade de romper vínculos (amizades, casamentos e empregos), valorizando conexões passageiras em vez de compromissos duradouros.

Na sociedade de consumo estudada por esse polonês, os indivíduos são vistos como consumidores constantes em busca de satisfações rápidas e eufóricas, que logo se esgotam e exigem novas aquisições, gerando insatisfação crônica.

As pessoas, de acordo com Bauman,  enfrentam um paradoxo: ganham mais liberdade de escolha, mas também sofrem com a profunda insegurança e a falta de garantias coletivas.

Creio que muito desse "mundo líquido", descrito pelo filósofo e sociólogo foi formado ou se solidificou graças à internet,  que se popularizou exatamente quando ele formulou a sua teoria.

Todos viviam sem as tais redes sociais. Hoje em dia é impossível dormir sem YouTube, acordar sem Instagram, atravessar o dia sem Whatsapp e estabelecer diálogos sem o celular na mão.

Sem as publicações impressas, com o velho e bom livro perdendo prestígio, a superficialidade dá as cartas.

Um imbecil qualquer pensa que entende de política e física nuclear.

Os idiotas avançam, como previu Nelson Rodrigues, o mundo líquido fez com que a alegria, a felicidade, se tornassem meras representações.

*Ilustração: Fronteiras do Pensamento.

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