KLEBER MENDONÇA FILHO COMO CONTADOR DE HISTÓRIAS

Kleber Mendonça Filho
Antigo Cine Moderno


O escritor Érico Veríssimo, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira, era um intelectual modesto.

Apesar de ter escrito dezenas de livros, com obras marcantes como "O Tempo e o Vento" e "Incidente em Antares", se considerava simplesmente um contador de histórias.

Cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho também é um contador de histórias.

Claro, como Érico, é mais do que isso. Vai além e produz obras de artes.

Em cada filme Kleber se supera e faz um trabalho melhor do que o anterior.

"Bacurau" é melhor do que "Aquarius", que ganha de "O Som ao Redor".

E o "Agente Secreto", até pelo amplo reconhecimento nacional e internacional, está acima dos filmes anteriores, representa a consagração de um diretor que ainda tem muito a nos oferecer.

Sim, tem "Retratos Fantasmas", que muitos consideraram apenas um documentário, mas que a meu ver vai além dessa classificação.

Acho que caberia mais avaliar "Retratos" como um filme em tom documental.

Mas, como nos trabalhos de ficção, Kleber também nesse "documentário" conta uma história, ou várias histórias.

Começa por Setúbal, bairro da zona sul do Recife, e vem em direção ao centro, para mostrar o processo de degradação da Conde da Boa Vista, Avenida Guararapes e outras vias da área central da capital pernambucana.

E conta a história dos cinemas que foram morrendo aos poucos, assim outros segmentos do centro do Recife.

"O dinheiro foi para outro lugar", explica Kleber e mais na frente revela que o poder financeiro mudou para Boa Viagem.

Um dos personagens mais simpáticos de "Retratos Fantasmas" é Alexandre Moura, projecionista do Cine Art Palácio.

Ao destacar esse cinema, que funcionou na Rua do Sol, ao lado do Trianon, o cineasta pernambucano faz uma revelação política.

O Art Palácio surgiu como um projeto alemão, que pretendia espalhar as ideias nazistas pelo mundo.

Até mesmo o projeto arquitetônico do Art Palácio, no Recife e em São Paulo foi formulado pelos discípulos de Hitler.

Felizmente, o ditador alemão foi derrotado e os cinemas brasileiros inspirados nas ideias nazistas não cumpriram sua função de difundir a cultura totalitária.

Apesar do tom documental de "Retratos Fantasmas", este longa de Kleber Mendonça tem pontos em comum com "O Agente Secreto", uma ficção pautada na realidade dos anos 70.

O centro do Recife e o Cine São Luiz têm presença forte tanto no filme de 2023, quanto no de 2025, este que tem chances de nos dar mais um Oscar, talvez até mais.

Não é preciso ter morado na capital para entender e apreciar os trabalhos do cineasta recifense.

Os dois filmes citados neste texto são também nacionais, uma vez que o processo de degradação do centro da Veneza Brasileira se repetiu em Salvador, em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.

Da mesma maneira, a ditadura perseguiu e matou em todas as grandes cidades, em municípios menores e na zona rural.

As histórias que Kleber conta ligam o passado ao presente e nos apontam, talvez,  os rumos que devemos dar ao futuro.

Muito mais gente viu "O Agente Secreto" do que "Retratos Fantasmas", mas o segundo é tão necessário quanto o primeiro.

Acredito até que sem  trabalho de 2023 o mais recente não teria nascido.

É como se "O Agente" fosse filho ou resultado de "Retratos".

O filme vencedor do Globo de Ouro ainda não está nos streamings. Mas quase toda filmografia de Kleber Mendonça Filho está na Netflix, inclusive o ótimo "Retratos Fantasmas", que vale a pena conferir.

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