CRÔNICA - UM PASSEIO POR GARANHUNS E PELO AGRESTE MERIDIONAL

Uma vez eu estava ao lado da deputada federal Cristina Tavares em Calçado, um dos menores municípios de Pernambuco.
A cidade era tão calma, nos anos 70 e 80 que dava a impressão de desenhar a paz no ar, num ambiente surpreendentemente bonito.
"Um dia vou morar num lugar assim", falei para a política e jornalista garanhuense, que pareceu surpresa.
Na época eu morava no Recife e acho que Cristina não me levou muito a sério.
Mas terminei fazendo o que disse a minha velha amiga, que partiu já faz bastante tempo.
Em 1993 deixei para trás mais de 16 anos de vida na Veneza Brasileira e vim morar com meus pais, na Capoeiras da minha infância.
No começo a solidão doeu um pouco e me entreguei ao trabalho como um louco.
Nos finais de semana pegava o carro e fazia uma pequena viagem até Angelim, menor ainda que Capoeiras.  Nos anos 90, estava mais para Calçado do que minha terra natal.
Em Angelim, nos braços de Tereza, idolatrado por Daniela e Tiago, então pequenos (quando eles são menores nos veem como infalíveis), vivi uma felicidade doida, improvável.
Então, em 94, comprei a casinha da Cohab II, bairro de Garanhuns afastado do centro, que naquele tempo não tinha nem acesso asfaltado e praticamente todas as ruas eram na terra.
Ainda hoje estou aqui, criei três filhos (Daniela, Tiago e Carolina)  neste lugar que cresceu e hoje tem vida própria.
Colégios, supermercados, restaurantes, farmácias, lojas de móveis e roupas, sorveteria, pastelaria e a Igreja do Sagrado Coração do Jesus pra gente agradecer pelas bênçãos.
Descendo pela Avenida São Miguel, que os mais antigos chamavam de Rua do Corrente, se chega à Rua Dom José e logo após à Avenida Santo Antônio, o coração da cidade.
O imponente prédio da prefeitura, da década de 50, por conta dos Encantos do Natal está lindo, é uma verdadeira festa para os olhos, nas noites de Garanhuns.
Seguindo em frente, pela Dr. José Mariano, o passeio leva à Praça Souto Filho. Também ornamentada para o Natal, linda como no tempo da minha infância, quando ia pra lá tomar sorvete Maguary.
A Avenida Rui Barbosa, toda charmosa, já agora em novembro está com pequenos engarrafamentos (engarrafamentos grandes, enormes, estes ficam para o Recife e outras metrópoles).
Na Praça Tavares Correia, que tem o sobrenome de Cristina, citada no início do texto, o encantamento se faz completo e por isso tudo flui em sua direção.
Já estive em São Paulo mais de uma vez, passei pelo Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Brasília, Goiânia, Florianópolis, Salvador, Natal, Aracaju, Maceió, João Pessoa...
Se pudesse faria mais viagens, iria até a Argentina, ouvir um tango em Buenos Aires.
Quem sabe Portugal, Lisboa, Porto, e por que não sonhar com Paris?
Mas deixa pra lá. Como disse uma amiga de minha primeira esposa,  Judy, sendo levada na gozação pelas colegas de trabalho: "Vamos embora, a gente já gozou muito".
Pois é. Já vivi de grandes prazeres, passei por grandes centros.
Hoje estou por vontade própria na Cohab II, em Garanhuns. 
Tendo por perto Angelim, São João, Capoeiras, Caetés, Lajedo, São Bento do Una, Calçado, Correntes,  Jupi e povoados que parecem Bacurau,  do filme de Kleber Mendonça.
O mundo é grande, ninguém pode abarcar com as mãos. Lugares pequenos também têm alma e as ideias, nesse rincões, podem ser maiores do imagina a vã filosofia da capital.

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