A GABRIELA DO RIO GRANDE DO NORTE


Em 1975, ano em que fui morar no Recife, estava no ar a novela "Gabriela, Cravo e Canela", baseada no livro de Jorge Amado.

Fui fazer cursinho no Boa Vista, para me preparar para o vestibular.

Na minha classe, no colégio da Avenida Conde da Boa Vista, tinha uma morena linda, de olhos esverdeados.

Era cor de canela, como a personagem do romance e da novela global.

Logo todos passaram a chamá-la de Gabriela,  de modo que o nome dela de batismo foi como que apagado, pelo menos para os seus  colegas do cursinho.

Aos 18 anos, já tinha lido muitos dos romances de Jorge Amado, de Érico Veríssimo, e alguma coisa de José Alencar, José Lins do Rego,  Machado de Assis e Graciliano Ramos.

Com pouco tempo notei que embora de uma cidade pequena, tinha mais conhecimento literário de que os rapazes e moças da capital.

Nesse tempo já ouvia Chico Buarque, Gonzaguinha, Elis Regina, Caetano, Gil, Gal, Bethânia, Simone e outros cantores da MPB.

Também ia com frequência aos cinemas, que nos anos 70 era baratinho, de maneira que um estudante com pouco dinheiro podia se dar a esse luxo ou prazer.

No Boa Vista nem todos os alunos tinham esse hábito. Havia uns muito alienados, lembro bem, o que acontece ainda hoje, infelizmente.

Não sei se foi por conta desses conhecimentos, dessa "bagagem cultural", que Gabriela ficou muito minha amiga.

Havia na classe alguns rapazes de olho nela, verdadeiramente encantados com sua beleza exótica.

Mas foi o jovem de Capoeiras, leitor de Jorge Amado, quem ganhou seu coração.

Um dia, depois da saída do colégio, em plena Avenida Conde da Boa Vista, dei um beijo em Gabriela que ficou na memória até hoje.

Cinquenta anos depois, nem os amores passageiros ou verdadeiros, namoros, casamentos, filhos, netos e duas mexidas sérias na cabeça, pelos cirurgiões, apagaram da memória aquele beijo adolescente.

Minha musa morava em Candeias, na casa de uma irmã casada.

O dia a dia, as conversas, a proximidade e aquele beijo fizeram nascer uma forte paixão entre o pernambucano e a jovem potiguar.

Sim, ela era do Rio Grande do Norte, de Parnamirim, que fica na Região Metropolitana de Natal.

Um dia, não sei o que lhe deu na cabeça (os jovens são impetuosos), Gabriela sumiu, largou o curso, voltou para a casa da família.

Dois dias depois do seu sumiço peguei um ônibus e fui parar em Parnamirim.

Conversamos, nos olhamos com carinho, mas voltei para o Recife e seguimos em frente.

É igualmente fácil se apaixonar e desapaixonar, quando se tem 18 anos.

Casei, fui pai, divorciei, casei novamente, botei mais filhos no mundo e estou aqui, de cabelos brancos, contando  essa história.

Tereza, minha companheira há mais de 30 anos, também tem a cor de canela e olhos verdes.

Não lembra a Gabriela potiguar, porém, pois é pequena e da roça. A outra era mais magra e de boa estatura, além de ter cabeça de moça da capital.

Depois de sua partida só a revi uma vez, no bairro da Torre, no Recife, quando já estava casado e com dois filhos.

Nos despedimos sem beijos ou abraços. Não havia mais nada entre nós. Ambos tínhamos mudado, no espaço de oito anos.

Ficou só a lembrança mesmo, que resolvi assim, do nada, colocar no papel.

Deve ser só para preencher o tempo neste início de semana. 

Mas quem sabe alguns leitores vão ter interesse nessas reminiscências.  

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