UM CAPOEIRENSE ARRETADO VIVE A ROTINA DE SÃO PAULO

Expedito no Dia do Nordestino


Expedito Leandro da Silva é das terras de Capoeiras, como eu.

Às seis horas da manhã deste domingo, 19 de outubro, estava me deliciando com o texto do conterrâneo.

Professor universitário em São Paulo, escritor, pesquisador. Eu não consultei Expedito, mas como no final de sua crônica ele pede para compartilhar, atendi o seu pedido.

Leia que vale a pena:

Desde de Fevereiro troquei o carro pelo Transporte Publico.

O Purgatório de Rodas e o Grito Engasgado.

O busão, depois o metrô. Uma coreografia mecânica e sufocante, a rotina que nos tritura e nos cospe de volta, diariamente, no mesmo ponto de partida: a resignação. Minha jornada rumo à estação Tietê é o preâmbulo de um espetáculo dantesco, onde a precariedade se expõe sem pudor no palco minúsculo do vagão.

Ali, no aperto úmido, a fauna da sobrevivência trava sua batalha desarmada. Vendedores ambulantes com suas mercadorias mirabolantes, artistas populares que vendem a arte como migalha e evangélicos que prometem o céu para quem mal consegue pagar a passagem – todos são parasitas e hospedeiros de um mesmo corpo social doente, disputando migalhas de ar e espaço, vigiados de perto pelos algozes fardados que a qualquer instante podem executar a expulsão, o banimento sumário daquela miséria móvel.

A Estação Santa Cruz é a antessala da alucinação capitalista. As escadas rolantes não levam a lugar nenhum senão à próxima etapa da labuta. São correias transportadoras de formigas humanas, rostos distorcidos pelo cansaço e a pressa, fugindo de quê? Da dívida? Da demissão? Ou correndo em busca da miragem da estabilidade, do objeto de consumo que a vitrine, essa deusa fria e sedutora, lhes impôs como meta de vida?

O destino final, Capão Redondo, antes Capão Pecado, sintetiza a hipocrisia de um sistema que concentra a riqueza e exporta a violência para a periferia. O vagão, agora, é o útero de onde ressurge a massa exausta: jovens, adultos, anciãos, todos marcados pela jornada que começou antes do sol e que os devolve à "quebrada" com o peso da exploração estampado na testa.

E é aqui que o nó se aperta na garganta da minha consciência sociológica. Observo esses semblantes, essa multidão de explorados, e a pergunta explode na minha massa cefálica: Por que não quebram tudo? Por que não transformam essa indignação invisível em fúria tangível? Por que não estilhaçam as vitrines que os encantam e, ao mesmo tempo, os acorrentam a essa máquina capitalista nojenta e perversa?

A consciência, a famigerada consciência de classe, onde se escondeu? Não se escondeu. Foi soterrada. Soterrada pelo medo, pela exaustão e, principalmente, pela brutal eficácia do sistema em nos convencer de que a luta é individual, que a revolta é loucura. Eu, o professor acadêmico, o intelectual "crítico", sou o maior exemplo dessa paralisia. Meu desejo de sublevação é abortado pelo cálculo frio da consequência: a prisão, a camisa de força, o hospício como destino para quem ousa sair do roteiro. A minha revolta é teórica, confinada à segurança do meu crânio.

É somente no púlpito da universidade que o meu grito engasgado encontra um escape "pedagogicamente socializante". Transformo a dor e a náusea em matéria de aula, em desabafo solidário aos meus "companheiros de lida". Mas até isso é um alívio burguês, uma catarse controlada. Alguns alunos, ainda frescos no idealismo, se comovem e compartilham a indignação. Outros, já domesticados pela rotina, pelo cinismo da sobrevivência, apenas acham graça. A minha revolta é o exótico, o risível. Eles já se habituaram à vida animalesca – não no sentido da força vital, mas no sentido filosófico da submissão acrítica, da renúncia à humanidade plena em troca da mera subsistência.

Saio do trem, mas o trem não sai de mim. Sigo com a alma em frangalhos, sabendo que a minha crítica, por mais ácida que seja, é apenas um lamento impotente de quem, no fundo, também tem medo de quebrar as vitrines. E essa covardia compartilhada é a fundação inquebrável deste nosso Purgatório de Rodas. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário