Por Altamir Pinheiro
O
excepcional ator Charlton Heston que faleceu em 2008 aos 85 anos de idade mais
uma vez é o representante final da espécie humana. Como fora em O PLANETA
DOS MACACOS (1968) e depois em NO MUNDO DE 2020 (1973). O grande
pesquisador e estudioso de cinema, Paulo Telles, nos faz um levantamento
de um filme do ano de 1971 intitulado A ÚLTIMA ESPERANÇA DA TERRA. Mais uma
vez Heston no papel do cientista militar - Dr. Robert Neville –
acredita ser o único sobrevivente de uma guerra bacteriológica entre a União
Soviética e a China em 1975. Encontramos o Dr. Neville em 1977 numa Los Angeles
deserta, vivendo em seu apartamento de cobertura, cercado de luxo e de um
verdadeiro arsenal. As armas tem função de desafiar os mutantes que
sobreviveram à fúria nuclear e agem como vampiros, que sofrem de FOTOFOBIA e
saem pela escuridão da noite para queimar tudo que restou da cultura humana e
fazer guerra contra a herança tecnológica representada pela presença de
Neville. Todas as noites, os mutantes reaparecem para queimar
livros, destruir pinacotecas e vestígios de progresso, numa verdadeira orgia de
encenação medieval contra tudo que significou o apogeu da ciência e do
progresso.
Costumamos
acreditar que filmes de outras épocas não possuem os mesmos males dos filmes
atuais. O "Eu Sou a Lenda" era um filme de marketing, numa época que
o Will Smith era utilizado como o grande astro de Hollywood do momento, e o
título, embora seja o mesmo do livro, é muito sugestivo. "A Última
Esperança da Terra" é um "filme de Charlton Heston", segue a
mesma premissa do romance. e das outras duas produções com Vincent Price
e Will Smith, mas desvia bastante para entregar tudo o que um "filme de
Charlton Heston" tem: referências religiosas e mutantes albinos encarnando
uma mistura de dr. Zaius do "Planeta dos Macacos" com os mutantes que
adoram a bomba do "Além do Planeta dos Macacos", inclusive nos
discursos. O filme é bem localizado em sua época, critica a proliferação de
armas de destruição em massa, criticam os religiosos radicais e sua religião
como dona da verdade, tem referência ao Woodstock, tem black power, tem até
dança tocando nas cenas de ação. É divertido, pelo lixo, pela nostalgia, principalmente
se assistir dublado.
Mais
um papel heroico de Charlton Heston nesse filmaço de ficção científica com um
ótimo roteiro que prioriza a ação e o suspense em detrimento de efeitos
especiais. Outro destaque são as cenas da cidade abandonada. Um clássico dos
anos 70. Os monólogos de Heston são o ponto alto do filme, afinal, isolamento e
desesperança são aspectos que tornam a caracterização do personagem mais
atrativa. Porém, com a inserção de outros personagens, a narrativa perde
fôlego. O filme nos mostra que, ao invés de simples zumbis animalescos, mudos e
sedentes de sangue, temos uma seita fanática com toda uma retórica e ideologia
(ainda que absurda e doentia) e isso acrescenta MUITO ao filme. Como já
foi dito, na adaptação dos filmes: Mortos que Matam, Última Esperança
da Terra e o filme Eu Sou a Lenda de 2007 São baseados no Livro (Eu Sou a Lenda
do escritor Richard Matherson) o livro foi escrito em 1954.
O interessante no filme é que os mutantes/vampiros
(conhecidos como “A Família”) desaparecem nas horas do dia, enquanto Neville
busca seus meios de subsistência nas lojas semidestruídas de alimentos, nas
farmácias e nas butiques de elegância masculina, isto é, o cientista tem tudo a
sua disposição quando bem quer, desde as lojas, os hotéis, e até mesmo as salas
de cinema, onde ele mesmo próprio projeta os filmes que assiste. São nessas
ocasiões em que ele procura descobrir o esconderijo do líder dos mutantes,
Matthias (Anthony Zerbe), cujos seguidores reaparecem à noite para tentar
atacar Neville e tudo que sobrou da ciência. Outro fato importante do filme é
que o cientista tem tudo registrado em seu gravador portátil e anota em seu
diário todos os movimentos dos mutantes.
Em suas pesquisas, Paulo Telles nos relata um fato curioso em que o cineasta e os roteiristas não se aprofundaram bem
no comportamento de Neville – o Homem Ômega do título original, começo e fim,
que ao se fazer uma alusão a Jesus, acaba “crucificado” doando seu sangue não
contaminado para a salvação da humanidade. O resultado é um filme com elementos atrativos, mas
não muito convincente, apesar dos esforços do diretor e dos cuidados da
produção. Charlton Heston, desempenhando mais uma vez o herói que se sacrifica
pela humanidade, está ótimo como o Dr. Robert Neville, o Omega Man.
A talentosa atriz Rosalind Cash perfeita como Lisa, mas quem mesmo rouba as
cenas é o fantástico Anthony Zerbe como Matthias, o fanático mutante convencido
de sua missão carismática. Sem dúvida, A ÚLTIMA ESPERANÇA DA TERRA é
um verdadeiro clássico da década de 1970.

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