quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

MEMÓRIAS DA VIDA NO HOSPITAL - 3ª PARTE

Logo no segundo ou terceiro dia no Hospital da Restauração, meu estado de saúde piorou muito. Comecei a ficar por demais enjoado e a vomitar sem parar. As enfermeiras ou atendentes vieram, os médicos foram avisados da situação delicada e imediatamente as medidas necessárias foram tomadas.

Fui colocado numa maca e conduzido ao bloco cirúrgico. Eu estava fraco, o enjoo não passava, nem ao menos a vontade de vomitar. Terezinha ao meu lado, todos os segundos, dava-me forçar para lutar, não desanimar e crer que ficaria bom.

Fiquei por 20 ou 30 minutos num determinado local, numa “fila de espera”, com outros doentes em volta, cada um em sua maca.

Até que fui conduzido a uma sala de cirurgia e lá me deram uma anestesia e apaguei.

Os médicos fizeram uma microcirurgia para colocação de uma válvula ou dreno na cabeça. Fizeram uma incisão na barriga e outra na cabeça para colocar a tal pecinha, que agora carrego comigo para o resto da vida, assim como a marca abaixo do tórax.

Com o dreno o líquido do tumor e do cisto, alojados ao lado do cérebro, iria escoar – não sei se essa é a expressão exata a ser usada, pois sou completamente leigo em medicina – por caminhos corretos, sem me causar tantos danos. Isso faria com que os enjoos e os vômitos diminuíssem ou parassem.

Quando voltei a si já estava novamente na minha cama na enfermaria 505. Por conta dos efeitos da anestesia, para evitar que eu fizesse alguma besteira enquanto me recuperava do procedimento adotado, amarraram as mãos e os pés nas grades levantadas em redor do leito.

Como não tinha sido avisado de nada do que ia acontecer estranhei ficar preso daquela maneira e o fato de não poder praticamente movimentar as mãos, os braços e as pernas me deixaram verdadeiramente desesperado.

Quanto mais ficava consciente maior a angústia e com pouco eu estava implorando a minha companheira Tereza que me desamarrasse. Ela, instruída pelos médicos a me deixar daquele modo explicava não poder fazer nada o que me levou a ficar revoltado com ela.

Lembro-me de ter dito, magoado: “Filhinha, tanto que nos amamos e você permite que eu fique assim, amarrado. Por amor de Deus me solte...”. Vi lágrimas rolando dos seus olhos azuis, certamente pelo meu sofrimento e pela sua impotência diante do caso.

Essa situação angustiante durou pelo menos dois dias, apelei também para as enfermeiras e atendentes, mas ninguém atendeu os meus pedidos e continuei preso às grades, vivendo alguns dos piores instantes da minha vida.

Acredito que todos reagem do mesmo jeito quando são presos daquela maneira, pois dias depois vi de perto outros pacientes serem amarrados ao leito e ficarem tão nervosos quanto eu fiquei.

Felizmente no terceiro dia eles me liberaram e foi uma felicidade ter os pés e as mãos livres novamente. Hoje eu entendo perfeitamente a atitude dos médicos e auxiliares, assim como da minha mulher. Todos estavam apenas preservando a vida do paciente, que não estava em condições de ficar solto enquanto não passasse totalmente o efeito da anestesia que tinham me dado.

Por sinal enquanto não fizeram a cirurgia para retirada do tumor e do cisto, com a doença avançando, fiquei muito instável durante a noite, a pressão aumentava e eu como que me descontrolava – às vezes até durante a madrugada. Terminei, em alguns momentos, sem consciência do que fazia, sendo grosseiro com Terezinha, Tiago e minha filha Roberta.

Disse coisas terríveis para eles que jamais falaria em condições normais. Algumas das besteiradas que fiz na madrugada do Recife só tomei conhecimento depois, porque minha mulher me contou os detalhes.

Uma ocasião, ela revelou, eu levantei da cama e saí correndo pelo corredor do hospital, tentei até escalar uma janela (felizmente não consegui, lembrando que estávamos no 5º andar) e Tereza desesperada tentando me devolver a razão, pedindo ajuda de alguém, porém todos estavam dormindo nessa hora.

No outro dia eu não lembrava absolutamente de nada.

Depois as coisas se normalizaram mais, nós íamos vivendo aquela vida “comunitária” dentro da enfermaria do Restauração, enquanto esperávamos o dia da bendita cirurgia para retirada do tumor e do cisto.

O ELETRICISTA - Um dos pacientes do hospital era Arlindo, um rapaz que morava no bairro dos Coelhos, no Recife, e que viu de perto o “trabalho” que eu estava dando a minha companheira e acompanhante. Ele ganhava ou ganha a vida como eletricista.

No dia seguinte a um “sermão” que dei em Terezinha, Arlindo me aconselhou a ficar mais calmo e tratar melhor a mulher. Disse que ela era uma grande companheira, que todo mundo via ali o amor que ela me dedicava e era injusto responsabilizá-la por qualquer sofrimento meu.

Fiquei envergonhado, é claro. Mas a verdade é que agi daquela maneira com uma mudança de comportamento ditada pela doença.

Esse rapaz, o Arlindo, parecia um sujeito calmo e nem parecia estar num hospital, com tanta serenidade que aparentava.

Ele teve alta antes de mim, porém depois teve de voltar. Vejam que situação: tinha também um tumor na cabeça, já tinha sido operado duas vezes e como os médicos, talvez por imperícia, não tinham conseguido retirar tudo iria passar por uma terceira cirurgia.

Arlindo estava triste e aborrecido com razão. Ninguém merece passar três vezes por uma situação daquelas, arriscando a vida, ainda mais quando se sabia que os médicos, se tivessem sido mais eficientes, poderiam ter resolvido o problema do rapaz desde a primeira vez.

Quando saí do HR e retornei 30 dias depois para a primeira revisão médica, Arlindo ainda estava na enfermaria esperando sua vez.

Não tive notícias mais dele. Peço ao bom Deus que proteja o eletricista recifense e que os médicos lhe tenham deixado curado de sua doença para sempre.


(Continua...)

Um comentário:

  1. Roberto....que bela série, parabéns mais uma vez, pelo grande cidadão que es, pela perseverança e paciência da família...tudo isto é amor!

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