SEBRAE

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domingo, 27 de dezembro de 2015

MEMÓRIAS DA VIDA NO HOSPITAL - 1ª PARTE

Desde que voltei do Recife, depois de um longo tratamento de saúde, pensava em escrever sobre algumas experiências que vivi, num momento de muita apreensão, ansiedade e sofrimento. O assunto, porém, não é dos mais fáceis de abordar e o relato ou relatos foram sendo adiados. Neste final de semana, após algumas reflexões e lembranças, o texto foi jorrando da minha cabeça, como as chuvas que caíram em Garanhuns e no Agreste nos últimos dias.

Não fiz anotações, mas consigo guardar bem os acontecimentos em algum recanto do cérebro. O que segue, então, é fruto das lembranças dos fatos recentes ocorridos em meados deste ano que está terminando.

REUNIÃO EM FAMÍLIA - Lembro que era o dia 31 de maio de 2015. Almoçamos todos num restaurante da cidade. Estavam presentes minha mãe, Maria das Neves; minha mulher, Tereza;  meus irmãos Júnior e Ana Cláudia, meus filhos Lulinha, Tiago, Vitória e Carolina; os sobrinhos Ana Carolina, Yasmin, Luís César, Gustavo e Nettinho, acompanhado de sua namorada Mayara; minha cunhada Naíse  e a neta Luana, uma mocinha linda que no próximo dia 18 de janeiro vai completar 15 anos.

Da primeira vez que adoeci um médico de renome disse a minha mãe, à época com 72 anos, que a cirurgia a ser realizada podia ser comparada com uma viagem à lua. “A gente só sabe que vai, mas não sabe se volta”. Foram mais ou menos estas as palavras do papa da neurocirurgia do Recife.

Soube que mamãe voltou para a sua casa, no interior, chorando durante toda a viagem. O renomado cirurgião tinha sido muito duro, deixando inteiramente arrasada a minha querida mãe.

Essa história só me foi contada depois, quando o susto, o medo e o trauma estavam mais ou menos superados.

Quem sabe ao reunir mãe, irmãos, sobrinhos, cunhadas, filhos e netos eu estava agindo com o subconsciente, que deve ter gravado aquela comparação do respeitado médico, vendo semelhanças entre a retirada de um tumor na cabeça e uma viagem à lua.

“A gente não sabe se volta”.

Tudo podia dar certo, mas a possibilidade de não retornar do indesejado “passeio a lua” era concreta, real.

Era um domingo e depois do almoço na companhia das pessoas que mais amo no mundo eu e Júnior pegamos a estrada que leva à capital.

Fui para o apartamento do meu outro irmão, Aurélio, que me acolheu na chegada, conversou, proporcionou a mim e Júnior um bom jantar, nos alojou em quartos para uma tranquila noite de sono e, na segunda-feira, logo cedo, me levou para o Hospital da Restauração, onde consegui me internar após algumas horas de espera.

Antes de viajar publiquei um texto em que contava sobre a minha doença e informava da operação delicada que ia fazer. “Nas mãos de Deus”, este foi o título da postagem que foi lida por muitas pessoas, tendo sido usada até para reflexão por religiosos e parece ter emocionado o prefeito de Lajedo, Dr. Rossine Blesmany, que ao me visitar um dia aqui em casa – depois da operação – relembrou o texto do final de maio e disse que eu tinha feito muitas pessoas chorarem.

Não pensei nisso quando escrevi todas aquelas palavras. Apenas digitei e joguei no computador sentimentos acumulados, tudo que dava voltas na minha cabeça ou estava alojado bem dentro do coração.

Foram quase 50 dias no Hospital da Restauração. Lá passei por todo tipo de exame, tiravam sangue do meu braço ou mãos a cada hora, enfiaram sondas pelo nariz e direto no estômago, fizeram uma pequena cirurgia para colocação de uma válvula na cabeça, fiquei sem comer por via oral, passei praticamente três dias sem nenhum tipo de alimentação, sentindo-me tão fraco que não sabia se aguentaria mais algumas horas...

Convivi com variados tipos de pessoas, todas da periferia do Grande Recife ou de uma cidade do interior. Gente simples, sofrida, sem recursos, de pouca informação, mas com um sentimento de solidariedade enorme, capaz de surpreender. Do sofrimento, no meio da luta pela sobrevivência surgiram amizades, foram aprendidas lições para toda vida.

Nos próximos textos, algumas das pessoas com quem convivi serão apresentadas, informarei de algumas situações de interesse coletivo, tentarei descrever como é viver por mais de um mês e meio entre as paredes do maior hospital de Pernambuco, que tem má fama, porém oferece recursos inimagináveis para salvar vidas.


O Restauração não é só o açougue humano que aparece nos jornais e programas policiais de rádio. É também uma unidade de saúde com equipamentos modernos, integrado por muitos médicos competentes e um batalhão de enfermeiras, auxiliares, estagiários, serventes e um verdadeiro exército de pessoas com um só objetivo: fazer com que os pacientes fiquem bem e ganhem mais um tempo do lado de cá, nesta dimensão em que estamos, nesta  passagem pelo planeta.

6 comentários:

  1. José Fernandes Costa27 de dezembro de 2015 18:19

    Roberto: - Você foi à lua e voltou são e salvo!! Para nossa alegria!! E, principalmente, para alegria dos seus familiares!! - 2. Do Hospital da Restauração, eu também posso falar de BEM. - Já levei pessoas pra lá, em situações muito traumáticas!! - E elas saíram de lá contando a história, como você ora conta!! E que você vai contar um pouco mais. - NÃO troco a medicina do Hospital da Restauração pela que é oferecida nos "grandes" hospitais, como o Hospital Português, o Santa Joana e os assemelhados!! - Até porque, os hospitais que têm nome na praça, trabalham como quaisquer comerciantes trabalham!! - Pura e simplesmente por dinheiro. - Humanidade é palavra estrangeira nesses hospitais ditos grandes!! - E para a grande maioria dos médicos que lá prestam serviços, igualmente!! - Podemos contar raras exceções, como ocorre em toda regra!! - Abraço fraterno e até breve!! /.

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  2. RODRIGO TENÓRIO - CAPOEIRAS28 de dezembro de 2015 00:02

    Roberto aqui também eu sou uma prova viva que tanto quanto você passei por momentos difíceis, mais aqui estou para contar a história, passe 27 dias internado da primeira vez e outraz vezes também vieram, Mais tudo terminou legal, quando você conta sua história eu também lembro da minha, foram situações diferentes, mais ambos tivemos uma passagem inesquecível por esse hospital, apesar de muito sofrimento, só tenho boas lembranças, pois foi lá que consegui um ingresso para que ficasse por mais alguns dias aqui na terra. As pessoas em sua maioria só gostam de olhar as coisas pelo seu lado negativo, pois é tão importante o reconhecimento, o elogio, a palavra amiga isso serve de suporte para nossa jornada. Hoje Sou grato a todos que cuidaram de minha saúde e é uma coisa que eu nunca esquecerei, escrevo isso chorando, pois só sabe do sofrimento aquele que está passando por ele. A alguns meses encontrei com um dos médicos que cuidaram de algumas cirurgias minhas, conversei com ele expliquei o caso, mais depois de passados 15 anos ele não conseguia mais lembrar de mim, mais eu nunca o esquecerei. Tanto eu quanto você Roberto tenho certeza que somos gratos a esses profissionais e peçamos juntos que Deus os ilumine para que possam salvar muitas e muitas vidas. e salve a restauração que a tanta gente acolhe.

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  3. Voce é um guerreiro!!! Saúde e Paz!

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  4. José Fernandes Costa28 de dezembro de 2015 11:07

    Complementando, para evitar dubiedades: - Eu escrevi no comentário das 8h19 de ontem: "... E para a grande maioria dos médicos que lá prestam serviços..." - Ali estava eu me referido aos médicos dos hospitais da rede privada. - Porquanto, os médicos e outros servidores da rede PÚBLICA trabalham em situações deploráveis, como todos nós já sabemos. - Os que laboram nos hospitais como Osvaldo Cruz, Imip (que se sustenta com dinheiro do SUS e com doações), Hospital das Clínicas, HR (Restauração) em referência etc., etc. etc. trabalham em condições subumanas. – Notem que os que vão para o Hospital da Restauração, chegam lá aos pedaços: acidentes graves; balas na cabeça ou na coluna vertebral; "foiçadas"; facadas no abdômen e por aí vai. – 2. Lembro-me de um caso muito grave, de um israelense, salvo engano, que estava entre a vida e a morte. – Levaram-no para o HR (Restauração). – Ele foi operado pelo Dr. João Veiga, um dos grandes cirurgiões de lá. – O israelense saiu daqui são, salvo e agradecido. – 3. Por fim, todos quantos prestam serviços nessa imensa rede pública, fazem muito mais do que podem. – Do mais humilde servidor terceirizado, à / ao mais graduada (o) na área de saúde. – Mais uma vez, ressalvem-se as exceções que a regra comporta. – É ISSO. /.

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  5. Deus fez um milagre na vida de vocês

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    Respostas
    1. Penso eu que Deus só faz milagre, quando as pessoas querem!! - Dizem que está na bíblia: - "Faz por ti que eu te ajudarei." - Portanto, é por aí, creio eu. /.

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