ALEPE

ALEPE
ALEPE

sábado, 18 de dezembro de 2010

RAUL SEIXAS (GRANDES NOMES DA MPB - 50)


(Clicando no nome do artista, acima, você acessa um vídeo do yotube com uma apresentação de Raul na Band, cantando O Trem das Sete. Infelizmente, os vídeos pesquisados do cantor não têm boa qualidade técnica).

No início dos anos 70 os jovens estavam órfãos da Jovem Guarda. Nas capitais e principalmente nas cidades do interior se ouvia muito Roberto Carlos, que deixara de ser um mero cantor de iê-iê-iê - o nome que ser dera ao rock nacional nos anos 60 - passando a gravar algumas músicas românticas de bom gosto e outras de fundo religioso,  influenciadas pelo som gospel norte-americano. Na década que se iniciava apareceria o fenômeno Secos e Molhados, de duração efêmera, mas que possibilitaria o surgimento de um grande intérprete da boa música nacional, o cantor Ney Matogrosso, que está aí até hoje, em forma,  embora já tenha passado dos 60 há um bom tempo.

Um grupo que também sobreviveu ao fim da Jovem Guarda e fez muito sucesso entre 1969 e 1975 foi The Fevers. Se transformou em “Conjunto de Baile” e virou uma febre na periferia. Emplacou nas paradas músicas cultuadas por milhares de fãs em todo o País, a exemplo de Hey Girl, Mar de Rosas, Cândida, Deus, Vem me Ajudar, Ninguém Vive sem Amor e Marcas do que se foi.

Já tínhamos nomes consolidados na boa Música Popular Brasileira. Chico Buarque, Elis Regina, Maria Betânia, Gal Costa e Gilberto Gil já eram ícones, não só no Brasil, mas até em muitos países da América do Sul e Europa. Esses artistas, no entanto, como os cearenses no início, faziam música para um público mais exigente, universitários e setores intelectualizados, ficando à margem grande parte da população que não conseguia compreendê-los. Um som fácil era mesmo o de Roberto, de Fevers e de Luiz Gonzaga, que cantava as coisas do Nordeste, embora durante determinado período tenha sido valorizado só nas festas juninas e por amantes dos ritmos autenticamente nordestinos.

Raul Santos Seixas, nascido em Salvador, Bahia, no ano em que terminou a segunda grande guerra mundial (1945), teve infância e trajetória de vida que o levaram a ser artista reconhecido sem estar enquadrado em nenhum dos movimentos da música nacional. Sua grande influência mesmo foi o rock, era vidrado em Elvis Presley e chegou a fazer versões do cantor americano.Com apenas 14 anos fundou um fã clube do seu ídolo e alguns anos depois, quando a Bossa Nova surgia como um forte movimente no país, o baiano inventava um tal de “Relâmpagos do Rock”. Criou, depois, Os Panteras, com quem chegou a gravar um disco sem obter repercussão nem mesmo em sua cidade.

Filho do engenheiro Raul Varella Seixas e da dona de casa Maria Eugênia Filho, o menino apaixonado por rock foi um péssimo estudante. Conseguiu a proeza de repetir pelo menos três vezes a antiga série do segundo ginasial. Mau aluno, bom leitor de livros, logo cedo se interessou por filosofia e esoterismo. Havia já no adolescente uma queda pelo misticismo.

Antes de se tornar conhecido como cantor e compositor, Raul Seixas era o Raulzito. Com este nome, trabalhando na CBS, ele foi um produtor de artistas da Jovem Guarda, compondo músicas para Jerry Adriani, Odair José, Diana, a dupla Leno e Liliam, Ed Wilson e Renato e seus Blue Caps Doce Doce Amor, Ainda Queima a Esperança, Se Ainda Existe Amor (gravada pelo cantor de brega Balthazar) são algumas das músicas que nasceram da cabeça do baiano.

Em 1972 começa a nascer o Raul Seixas e a sumir o Raulzito. Incentivado pelo amigo Sérgio Sampaio, cantor e compositor criativo nascido no Espírito Santo (em Cachoeiro de Itapemirim, mesma cidade de Roberto Carlos), o produtor de discos de CBS participou do Festival Internacional da Canção, da TV Globo. Duas músicas de sua autoria, Let Me Sing Let Me Sing e Eu Sou Eu Nicuri Nicuri é o diabo foram classificadas.

Aproveitando esse bom momento, Seixas lança um dos melhores discos de sua carreira, por incrível que pareça desconhecido até mesmo por quem curte a sua obra. “Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock” foi lançado sem ao menos seu nome na capa. Anos depois chegaria novamente ao mercado com um rosto desenhado do artista e nos anos 90 integraria a coleção de CDs do Maluco Beleza exposta ao mercado.

O próprio Raul não se achava um bom cantor e brincava com isso. Em alguns trabalhos realmente ele derrapa feio. Mas no álbum ‘Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock”, ele está inspirado e interpreta com muito talento e charme clássicos como Bernardine, Diana, Marcianita, Rua Augusta, Pega Ladrão, Only You, Banho de Lua, Oh! Carol e The Great Pretender.

Parece que o Raul Seixas que hoje é cultuado como um Deus, mais de 20 anos depois de sua morte, só iria acontecer mesmo depois do encontro com o mago. Estamos nos referindo ao escritor Paulo Coelho, que embora seja detonado com freqüência pela crítica, é um dos sujeitos que mais vende livros no mundo. O primeiro contato do cantor nascido em Salvador com o seu futuro parceiro tudo indica se deu com a leitura de um artigo intitulado A Pomba, em que o autor de Brida versa sobre extraterrestres. Os dois se conheceram, ficaram amigos e começaram a compor juntos. Aí veio a explosão, a melhor fase de Raul Santos Seixas.

Em 1972,  Raul grava uma música estranha aos ouvidos nacionais, segundo algumas interpretações ironizando com a ditadura e o chamado milagre econômico dos militares. “Ouro de Tolo”, com influência do folk americano seria o maior sucesso do rádio brasileiro naquele ano e o autor dos aparentemente caóticos versos viraria uma celebridade.

"Eu devia estar contente por eu ter um emprego
Sou o dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês
E devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz porque
Eu consegui comprar um corcel 73
E devia estar alegre, satisfeito
Por morar em Ipanema depois de ter passado fome
Por dois anos, aqui, na cidade maravilhosa
Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto ou quanto perigosa
Eu devia estar contente por ter conseguido
Tudo o que eu quis, mas confesso
Abestalhado que eu estou decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto, e daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado".

Talvez só “Quero que vá tudo pra o Inferno”, em 1964, tenha tocado tanto nos rádios e atraído tanto a atenção da mídia nacional quanto a música composta por Raul Seixas. Ele passou a ser capa de tudo quanto é revista e jornal na época, sendo entrevistado até pelo pessoal do prestigiado semanário de esquerda O Pasquim.

Depois desse sucesso, ficou fácil gravar um LP que tivesse repercussão nacional. E foi com o grito de Tarzan, o herói das histórias em quadrinhos, que em 1973 o ex produtor Raulzito deu às caras num álbum completo e com uma bola seleção musical: Krig-Ha Bandolo! Traz hits como Al Capone, Cachorro Urubu (com uma boa versão futura de Zé Geraldo), As Minas do Rei Salomão, A Hora do Trem Passar, Metamorfose Ambulante e a já citada Ouro de Tolo.

Um ano depois Seixas e Coelho (parceiros no disco de 73) lançariam um viniel melhor ainda. Gitã (música título), baseado num longa poema sobre um Deus indiano, foi outro mega sucesso e o álbum traria ainda preciosidades como Trem das Sete, Medo da Chuva, S.O.SSuper Heróis, Sociedade Alternativa e Água Viva, esta última, lindíssima, um plágio descarado de um poema de São João da Cruz, um santo pouco conhecido da Igreja Católica.

A parceria com Paulo Coelho ainda renderia o disco Novo Aeon, tão bom quanto os dois anteriores, mas que venceu apenas 60 mil cópias, contra mais de 600 mil de Gitã..Especialmente fortes, neste trabalho, são a faixa título, Maçã, pregando o amor livre (regravada por Simone), A Verdade sobre a Nostalgia, Eu Sou Egoísta, Tu És o MDC da Minha Vida e Tente Outra Vez. Esta última canção se transformaria num verdadeiro hino, amada por diferente gerações graças a injeção de otimismo que procura dar nas pessoas.

Veja!
Não diga que a canção
Está perdida
Tenha em fé em Deus
Tenha fé na vida
Tente outra vez!...

Beba! (Beba!)
Pois a água viva
Ainda tá na fonte
(Tente outra vez!)
Você tem dois pés
Para cruzar a ponte
Nada acabou!
Não! Não! Não!...

Oh! Oh! Oh! Oh!
Tente!
Levante sua mão sedenta
E recomece a andar
Não pense
Que a cabeça agüenta
Se você parar
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!...

Há uma voz que canta
Uma voz que dança
Uma voz que gira
(Gira!)
Bailando no ar
Uh! Uh! Uh!...

Queira! (Queira!)
Basta ser sincero
E desejar profundo
Você será capaz
De sacudir o mundo
Vai!
Tente outra vez!
Humrum!...

Tente! (Tente!)
E não diga
Que a vitória está perdida
Se é de batalhas
Que se vive a vida
Han!
Tente outra vez!..

A partir a carreira do artista torna-se irregular. Os discos subseqüentes não tem a mesma densidade desses três da parceria com Paulo Coelho. Mesmo assim o disco Há 10 Mil Anos Atrás, de 1976, encobre o fiasco de Novo Aeon e vende muito bem. O Dia em que a Terra Parou (mesmo nome de um grande sucesso do cinema) também é um êxito comercial e traz a música “Maluco Beleza”, que virou um sinônimo e um símbolo de Raul Santos Seixas. Este ainda teve outros parceiros ao longo da vida, como Marcelo Nova e uma das mulheres Kika Seixas.

O consumo de drogas, inclusive relatado por Fernando Morais no livro O Mago (biografia de Paulo Coelho), o vício no álcool começam a destruir o ídolo. Nos anos 80 ele já estava decadente e chegou a fazer shows totalmente embriagado. Morreu moço, com apenas 45 anos, vítima de um infarto. O coração estava debilitado por conta do excesso de bebida alcoólica.

Depois de sua morte, qual um Cristo, parece ter ressuscitado, ficado mais vivo. Virou estrela, cult, visionário, filósofo, predestinado. Seus discos são vendidos como se ainda estivesse entre nós, as rádios ainda tocam as suas músicas, jovens de 18 anos, que nem estavam aqui quando ele partiu, se idenfificam com suas músicas como se tivessem convivido com ele. Biografias são publicadas, livros procuram analisar o fenômeno, artistas que explodiram depois, como Zé Ramalho e Zé Geraldo, fazem tributos a Raul. Até a Revista Caros Amigos, uma publicação de esquerda, engajada politicamente, lança um número especial sobre Seixas, quando dos 20 anos de sua morte.

Mesmo tendo tido uma produção irregular na maior parte de sua carreira, suas melhores criações, seu lado místico, seu lado libertário transformaram Raul numa lenda. E sua música, forte nos distantes anos 70, terminou por influenciar centenas de roqueiros, artistas pop e até a MPB como gênero musical. Raulzito não morreu, encantou-se, virou o grande mistério da Música Popular Brasileira. (Fontes de Consulta: Livro O Mago, de Fernando Morais, Especial da Revista Caros Amigos, Discografia do Artista, Site Biográfico do cantor na internet, enciclopédia google).

2 comentários:

  1. Blogueiro, estão faltando posts com histórias de Grupos Musicais como: THE FEVERS, RENATO E SEUS BLUE CAPS, PHOLHAS, TREPIDANTS, GOLDEN BOYS.

    Blogueiro, já pensasse, se tu conseguisse histórias sobre: SUPER OARA, OGÍRIO CAVALCANTI, ALCANO DO RECIFE, H0MENS DE OURO, OS INSEPARÁVEIS GARANHUNS, BANDA GLAUCIO COSTA, MARAJOARA DE SERTÂNIA.

    Vê se tu consegue rapaz?!?!?!?!?!?!?
    Vc tem muitos amigos.

    ResponderExcluir
  2. Muito bom o perfil do maluco beleza. Tem coisas do Raul que eu não sabia ainda, como de outros ídolos da música brasileira. Tente Outra Vez e Gitã são músicas que ficaram para sempre.

    ResponderExcluir