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domingo, 19 de setembro de 2010

GRANDES NOMES DA MPB XL



**Clicando no nome do artista, acima, todo em maiúsculo, você acessa um belo vídeo do youtube com Maria Betânia e Gonzaguinha cantando "Explode Coração", um dos grandes sucessos do cantor e compositor.

Em 1978, com apenas 21 anos de idade, tive o privilégio de assistir um show de Gonzaguinha, pela primeira vez, numa apresentação incrível, que ficou guardada para sempre na minha nem sempre eficiente memória. Quando as luzes do Teatro do Parque se apagaram, a casa cheia, o público formado principalmente por estudantes universitários, subiu ao palco uma figura magra, pálida, diria até estranha. Só ele e o violão, o artista soltou a voz: “Minha mãe no tanque, lavando roupa, minha mãe na cozinha, lavando louça...”. Senti um verdadeiro choque e fui conquistado de imediato pelo som e letra mostrados de maneira sensível, carismática, como se o compositor tivesse expondo sua alma para nós, naquele momento. Mais adiante, os versos cortantes: “Ô Dina é preciso, olhar essa vida, além desse filme, no Cine Colombo...”

“É Preciso”, a música cantada por Gonzaguinha na abertura do show feito 32 anos atrás, na velha capital pernambucana, é uma das mais bonitas do cantor e compositor, filho do grande Luiz Gonzaga, o rei do baião, do qual já tivemos oportunidade de falar, nesta série sobre a MPB. A canção deve ter sete ou oito minutos, é quase tão longa quanto a “Triste Partida”, poesia de Patativa de Assaré eternizada na voz de Gonzagão. Nesta última, antológica, a saga dos nordestinos obrigados a abandonar sua terra, para sofrer em São Paulo. Na primeira, a infância do artista nos morros cariocas. Dina, citada pelo cantor na letra, era sua madrinha, que o criou após a morte da mãe, quando ele tinha apenas dois anos de idade.

Luiz Gonzaga Nascimento Filho foi o fruto de um romance entre Gonzagão e Odiléia, uma dançarina do Rio de Janeiro, que a tuberculose levou aos 22 anos de idade. No Morro de São Carlos, no bairro do Estácio, Gonzaguinha conheceu de perto a miséria, a falta de estrutura e todas as dificuldades dos que vivem numa favela. Só aos 16 anos foi viver com o pai, para poder continuar estudando, mas o rapaz e a madrasta não se entenderam e ele terminou por ir estudar num colégio como interno.

Gonzaguinha superou os problemas surgidos na adolescência e chegou à faculdade, tendo cursado Economia na Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. Na sua passagem por essa escola de ensino superior, teve contatos com novos músicos, fazendo parte do Movimento Artístico Universitário. Conviveu nesta época com o garanhuense Dominguinhos, o compositor e futuro parceiro de João Bosco, Aldir Blanc e César Costa Filho, dentre outros.

O talento de Luiz Gonzaga, uma dos maiores artistas já surgidos neste país, tinha passado para o filho, resultado de uma relação fugaz. No final dos anos 60 e início dos anos 70, Gonzaguinha já se apresentava em festivais, se destacando pelas letras de forte conteúdo social. Chegava a ser provocativo e em algumas ocasiões tinha de usar de artifícios para driblar a censura da época. Em 73, numa apresentação na TV no programa de Flávio Cavalcanti, famoso comunicador daquele tempo, o artista surpreendeu pelo teor da sua música. Gonzaguinha era irônico, agressivo, chegava a ser amargo.

Os primeiros LPs de Luiz Gonzaga Jr., lançados em 1973 e 1974, refletem muito o inconformismo com a situação do Brasil, as desigualdades, as injustiças, o próprio sofrimento humano. “É preciso”, a música utilizada para abrir este texto, é de 74, num disco perfeito que traz ainda Uma Família Qualquer, Desesperadamente (depois gravada por Maria Betânia), Galope, É... e uma interpretação diferenciada de Assum Preto.

Essa linha seria mantida nos discos seguintes do artista, que chegou a ter desentendimentos com o pai por conta das visões diferentes na política e na música. Gonzaguinha era de esquerda, abominava a ditadura, fazia música engajada para o público universitário. Gonzagão tinha ligações com os governos da direita, cantava pra todo mundo, sabia ser popular. Em Vida de Viajante, que seria sucesso na voz dos dois quando já tinham superado as desavenças, o pai dá o recado ao filho: “Não esqueça do povão, meu filho, nunca esqueça do povão”.

Em 1976 Gonzaga Jr. Deixaria o tom excessivamente amargo e com a gravação do LP “Começaria Tudo Outra Vez” alcançaria o sucesso nacional. A partir daí passou a ser mais conhecido e gravado por grandes intérpretes, principalmente femininas como Elis Regina, Simone e Maria Betânia.

Embora sem o vozeirão do pai, Gonzaguinha tornou-se um cantor respeitado, um intérprete correto de suas próprias músicas e um compositor requisitado. Muitas canções suas, como Grito de Alerta, Chão Pó Poeira, Sangrando, Feliz, Lindo Lago do Amor, É e Espere por mim Morena caíram no gosto popular.

Quando estava de bem com a vida, em harmonia com seu pai, tendo assistido o fim do regime militar e com uma carreira consolidada, morreu num acidente na estrada que levava ao Paraná, em 1991. Curioso, o cantor Jessé, como mostramos nesta série, morreu da mesma forma, indo para o mesmo estado do Sul fazer um show.

Gonzaguinha partiu moço, com 46 anos, pouco tempo depois do celebrizado Gonzagão, que viveu bastante. O menino do Morro São Carlos, porém, deixou seu nome na Música Popular Brasileira. Muitos jamais esquecerão versos como estes, da canção Desesperadamente, que traz uma letra bem representativa da sensibilidade deste ótimo compositor:

Desesperadamente alegres
no derradeiro riso
boca contorcida num esforço vão
pelo sorriso aberto
desesperadamente calmos
no derradeiro gesto
perna presa meio passo
dança interrompida
no grito agudo em cada peito
do fim da corda do relógio
os pares lentamente param estancam o som da festa
silêncio na programação geral
até que um dedo no painel central
de novo aperte o botão
e os discos tocarão a vida no salão
desesperadamente animarão mais um carnaval.

Luiz Gonzaga Júnior: um nome da Música Popular Brasileira para a gente nunca esquecer.

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