A ESTUPIDEZ INTELIGENTE QUE RESISTIU AO TEMPO


Eu tinha 12 anos quando foi lançada a música "Sua Estupidez", uma composição assinada por Roberto e Erasmo Carlos.

Criança, não entendi direito as intenções dos artistas, acho que achei grosseira a letra da canção porque  o homem chamava a mulher de estúpida.

Só muitos anos depois, já na faixa de 60 anos, ao ler "Roberto Carlos Outra Vez", de Paulo César Farias, fui compreender bem o contexto da música.

O mais popular cantor brasileiro (pelo menos durante quatro décadas)  era casado nos anos 60 com Nice Rossi.

Ela tinha um temperamento forte, tinha um ciúme doentio do marido.

Ele começou a compor a canção inspirado na crise do casamento, por conta dos ciúmes da mulher.

"Meu bem, meu bem, você tem de acreditar em mim, ninguém pode destruir assim um grande amor".

Roberto é tão autobiográfico, em sua obra, que usou o meu bem, no começo da música porque era exatamente esse o tratamento que ele dava à companheira.

Mais na frente o artista pega mais pesado. "Meu bem, meu bem, use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só sem ter amor, e você vai ficar também sozinha e eu sei porque, sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo".

Paulo César não é só um biógrafo. Nos seus livros os capítulos também têm um tom de ensaio, contam histórias, às vezes o texto se assemelha à ficção de um conto.

O escritor registra que na música popular brasileira normalmente os compositores celebram o amor endeusando a mulher, como na canção "Rosa", de Pixinguinha.

Ou produzem músicas chorando pela amada, a típica "dor de cotovelo".

Segundo Paulo César Araújo, apenas "O Mundo é um Moinho", do genial Cartola, estaria próxima de "Sua Estupidez".

Na composição do artista carioca também é dado um "recado" à amada.

"Presta atenção, querida, embora eu saiba que estás resolvida, em cada esquina cai um pouco tua vida, em pouco tempo não serás mais o que és. Ouça-me bem, amor, Preste atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos, tão mesquinho,  vai reduzir as ilusões a pó".

Cartola é mais sofisticado, não resta dúvida, mas a canção de Roberto e Erasmo também é muito boa e resistiu ao tempo.

Lançada em 1969, "Sua Estupidez" foi sendo regravada ao longo do tempo por grandes intérpretes nacionais.

Somente Gal Costa produziu quatro versões diferentes.

Depois,  regravaram a velha canção do final da década de 60 Daniela Mercury, Alcione, Cássia Eller, o roqueiro Paulo Miklos e Ângela Maria em seu último trabalho.

Elisete Cardoso, que era chamada de "A Divina", quando brilhava na MPB, cantou "Sua Estupidez", em shows no Rio de Janeiro e outras capitais, merendo menção nos jornais por sua interpretação.

Por último a canção de Roberto, a partir de 2014, foi parar numa novela da Globo, interpretada pela atriz Sophie Charlotte, que embora não seja cantora mandou bem e recebeu elogios inclusive do coautor da música.

Nice, a musa (ou anti-musa) da música de Roberto, morreu em 1990.

"Sua Estupidez" tem 57 anos, mas ainda pode ser ouvida prazerosamente, tanto na voz de quem a compôs, quanto com Gal ou mesmo Sophie Charlotte.

Roberto não é tão bobo assim, tem muita intuição para compor e foi inteligente no recado para sua então esposa, embora ela não tenha mudado por conta dos versos da música e o casamento deles acabou depois de 10 anos.

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