Na década seguinte esses e outros artistas consolidaram suas carreiras e surgiu o Pessoal do Ceará: Fagner, Ednardo, Belchior, Roger, Teti e Amelinha.
E tivemos, no início dos anos 70 dois grandes “fenômenos isolados”, que causaram uma verdadeira explosão na MPB: Raul Seixas, com a revolucionária "Ouro de Tolo" , e Secos e Molhados, um grupo totalmente inovador, desbocado, criativo, com um som que sacudiu o Brasil em plena vigência do regime militar.
Gravaram apenas dois discos, em 1973 e 1974, mas foi o bastante para projetar os rapazes, principalmente o vocalista de voz afeminada, por todo o Brasil.
As músicas Rosa de Hiroshima (criada em cima de um poema de Vinícius de Moraes), Sangue Latino, Patrão Nosso de Cada Dia e o Vira rapidamente se tornaram hits nas rádios e a banda se apresentou na época nos principais programas de televisão.
Quem teve a oportunidade de ver, pela primeira vez, o grupo Secos e Molhado na "Discoteca do Chacrinha", tomou um susto e se apaixonou.
A música de João Ricardo, Gerson Conrad e Ney Matogrosso era contagiante.
Desentendimentos entre o “cabeça” do grupo, João Ricardo, e o vocalista, Ney Matogrosso, levaram ao fim da banda.
Cada um seguiu carreira solo, porém só o cantor continuou a fazer sucesso.
Ney completa 85 anos no próximo dia 1º de agosto e a voz e performance nos palcos continuam as mesmas.
Ney de Sousa Pereira é do Mato Grosso do Sul, tendo nascido em Bela Vista, no dia primeiro de agosto de 1941.
O cantor de voz andrógina, imagine, é filho de um militar.
Ele mesmo tentaria seguir o caminho do pai, entrando para a Aeronáutica. Nada a ver. Terminou mesmo foi virando artista, vocação desenhada desde criança.
O menino solitário de uma cidadezinha distante dos grandes centros - na fronteira com o Paraguai -, dançava, pintava, cantava e questionava o mundo dos adultos.
A vida do cantor foi contada no filme "Homem com H", com direção de Esmir Filho, tendo o ator pernambucano Jesuíta Barbosa interpretado o artista.
O nome Ney Matogrosso foi adotado já no tempo dos Secos e Molhados.
Em 1975, já sem os companheiros da banda, lançou um disco ousado, trabalhado de forma inovadora a partir da capa.
O álbum “Água do Céu – Pássaro” trazia músicas de Milton Nascimento, João Bosco e Aldir Blanc, Sueli Costa e até um fado da portuguesa Amália Rodrigues.
Um trabalho muito bonito, mas que não foi bem compreendido pelo público da época.
O vinil obteve vendagem inexpressiva, ao contrário dos primeiros discos da banda que levaram, cada um, em torno de um milhão de pessoas às lojas.
O segundo vinil incluía ainda músicas de Rosinha Valença (Usina de Prata), Gilberto Gil (Gaivota) João da Silva e Caboclinho (o clássico “Pra não Morrer de Tristeza") e Chico Buarque (uma interpretação arrojada de Mulheres de Atenas).
A partir daí a carreira de Ney Matogrosso foi quase sempre ascendente e seu nome se firmou definitivamente como cantor e intérprete.
Gravou os melhores compositores brasileiros como Noel Rosa, Cartola, Lupicínio Rodrigues, Chico, João Bosco e Aldir Blanc, Sueli Costa, Gil, Caetano, Tom Jobim, Cazuza, Renato Russo e até Raul Seixas.
Deste regravou “Metamorfose Ambulante”, que fez sucesso também na sua voz.
Em 1990 gravou um dos melhores discos de sua carreira, À Flor da Pele, com o violinista Raphael Rabello.
Neste álbum fez uma seleção de grandes clássicos da música popular brasileira, resgatando Noel, Ary Barroso, Adelino Moreira, Cartola e Herivelto Martins.
Ainda nesta década faria uma homenagem a Ângela Maria, gravando um disco com canções conhecidas na voz da grande cantora nacional.
Na décadas seguintes Ney continuou se reinventando, gravando, em 2004, com um grupo formado por pessoas mais jovens.
"Mundo" é um dos destaques do encontro do ex-Secos e Molhados com “Pedro Luís e a Parede”.
Ney Matogrosso mais de uma vez no Festival de Inverno de Garanhuns.
Uma vez, numa entrevista, o cantor confessou o seguinte: “Quando chegar aos 50 vou começar a parar. Já estou com 60 e ainda me sinto com o mesmo pique, estou muito bem”.
Aos 85, praticamente, Ney ainda é um artista cheio de energia, bonito, de voz maravilhosa e com um repertório normalmente de extremo bom gosto.
Enquanto puder soltar sua voz privilegiada e pisar num palco estará contribuindo com a boa música popular brasileira.

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