Como era seu costume, o Monsenhor Geraldo Batista de Lima dirigiu-se ao Seminário Diocesano São José para a reunião mensal.
O ambiente, geralmente de fraternização, iniciou-se com a solenidade das Laudes, rezadas em conjunto por todos os padres — um momento de união espiritual antes dos trabalhos.
Após a oração, o Monsenhor subiu para a sala de reuniões. Contudo, ao entrar no recinto, seus olhos pousaram sobre uma frase escrita no quadro, por um padre, uma ofensa velada e cortante: "Chegou o urubu de Batina".
Carregada de malícia, a frase atingiu-o profundamente. O Monsenhor Geraldo, conhecido por sua postura digna e por não demonstrar facilmente suas emoções, sentiu o peso daquele desrespeito.
Em um gesto de extrema serenidade e sabedoria, ele se aproximou do quadro e, com o giz, escreveu logo abaixo da injúria: "Sou urubu, porém não como carniça".
Sem proferir uma única palavra, sem buscar confrontos ou explicações, ele pegou seu chapéu e sua pasta e deixou o seminário.
A dignidade de sua resposta e a quietude de sua partida ecoaram mais alto do que qualquer discussão.
Dom Irineu, o bispo da época, notou a ausência do Monsenhor durante a reunião, mas, por não saber do ocorrido, não compreendeu a gravidade da situação naquele momento.
De volta à sua casa, a tristeza tomou conta do Monsenhor Geraldo. Embora sua natureza fosse de discrição, o incidente o feriu profundamente.
Em sua solidão, ele buscou refúgio na fé. Rezou incessantemente a Nossa Senhora, pedindo forças para superar a mágoa e a injustiça.
A partir daquele dia, ele permaneceu quase dois anos sem participar das reuniões do clero, em um período de recolhimento e cura interior.
A ausência de um membro tão respeitado preocupou Dom Irineu, que decidiu ir pessoalmente a Capoeiras para entender o que estava acontecendo.
Ao ser indagado pelo bispo, o Monsenhor Geraldo, com a voz embargada e um nó na garganta, finalmente revelou a verdade: "O senhor não sabe o que aconteceu".
Ele narrou o episódio do quadro e a dor que carregou em silêncio. Dom Irineu ficou profundamente sentido com o relato.
A amizade entre os dois era sólida, e o bispo, com sensibilidade, conversou longamente com o Monsenhor, convencendo-o a retornar ao convívio dos irmãos do clero.
A volta do Monsenhor Geraldo foi um testemunho da força da oração e do perdão. Ele, que sempre confiou sua vida a Deus e à Santíssima Virgem, encontrou na fé o caminho para transformar uma ofensa em uma lição de dignidade e santidade.
*Foto com o uso de Inteligência Artificial.
Texto do Ir. Edvan Mirosmar Souza Ferreira Silva.
*Reproduzido do Facebook de Severina Silva.

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