Um jornalista amigo, do Recife, leu o texto e gostou. E sugeriu que escrevesse sobre a juventude, quando fui "namorador".
Uma brincadeira, claro, não namorei tanto assim.
A adolescência foi boa também, entre Garanhuns e Capoeiras.
E passei a estudar no Diocesano, onde tinha feito o antigo curso primário.
Nos quatro anos do antigo ginasial é que estudei no Colégio Quinze.
Na adolescência tem uns grilos, todo mundo passa por algumas "encucações".
Surgem espinhas, a voz passa por mudanças, a timidez atinge um outro patamar.
Muitas garotas da minha idade entraram no meu "radar", mas a timidez e a incompetência para conquistar não me permitiu entre os 17 e 20 anos ter namoros duradouros.
As meninas, naquela época (começo dos anos 70) já queriam levar uns amassos.
O bestão não sabia disso e terminava sobrando.
As peladas no campinho do Quinze ficaram pra trás e passei a jogar no campo do Estádio Carlos Rios, em Capoeiras.
Esse estádio teve uma história de mais de 50 anos, recebeu equipes de Garanhuns, de todas as cidades da região e do Recife.
Até que no mandato de Dudu ele resolveu acabar com o campo, certamente pensando em construir outro, em local mais adequado, no futuro.
Mas a decisão mal pensada deu forte discurso à oposição, e a extinção do Carlos Rios foi um dos motivos do prefeito não conseguir a reeleição.
Na primeira metade da década de 70 o Cine Jardim ainda funcionava, imponente, com seus bancos de madeira e a tela enorme.
Muitos dos alunos do turno da noite do Diocesano marcavam mais presença nos filmes do que nas aulas.
Tinha a pensão de Eliete, na Melo Peixoto, onde a turma de Capoeiras tomava uma sopa de feijão, praticamente todas as noites.
Carlos da Prata, de Saloá, morou nesta pensão e era o mais brincalhão e extrovertido de todos, muito diferente do adulto de anos depois.
Deus já o levou, acredito que com menos anos de vida do que eu.
João era o galã e os cabelos a la Ronnie Von ajudavam-no a conquistar mulheres muito bonitas
Mora em Curitiba, é aposentado pela Polícia Federal.
Renan, irmão de João não era bonito como o irmão. Mas um trabalhador desde muito moço, foi escrivão de cartório.
Nos deixou cedo, com as filhas ainda pequenas.
E tinha Ricardo, o Cacau, filho de Alvinho, que foi prefeito de Capoeiras duas vezes.
Sempre foi uma pessoa maravilhosa, tenho a satisfação e alegria de ser amigo dele até hoje.
Embora more em Olinda, vez por outra está aqui em Garanhuns e nos encontramos, juntamente com o compadre Jorge.
Telma, mulher de Ricardo, e Marli, esposa de Jorge, sempre estão presentes.
Quando Terezinha pode me acompanha.
Garanhuns nos anos 70 não era tão diferente da cidade da década passada.
Os mesmos colégios tradicionais, os cinemas, S. Moraes e Ferreira Costa dominando o comércio, voçorocas fazendo estragos em alguns bairros.
Tinha a Lojas José Araújo, que marcou época em diversas cidades, inclusive na capital pernambucana.
Perto do Cine Jardim tinha um bar que todo mundo gostava, do Miraboa.
Era um homossexual gente fina num tempo em que poucos assumiam essa condição.
A cachacinha e os tira gostos do bar ainda hoje estão presentes nas lembranças.
Os parques Ruber van der Linden e Euclides Dourado, citados na crônica da semana anterior, continuaram a ser espaços privilegiados, colocando a gente em contato com a natureza.
O Mosteiro de São Bento, a catedral de Santo Antônio e o Seminário São José são relíquias religiosas da cidade.
As Cohabs foram criadas nos anos seguintes e Garanhuns foi ganhando novos bairros.
Manoel Camelo, Massaranduba, Parque Fênix, Mãe Rainha, Jardim Petrópolis, Brahma, Várzea, Novo Heliópolis, todas essas áreas se desenvolveram nas últimas décadas.
Até os anos 80 não havia o Festival de Inverno, que mudou muito a cidade, dando impulso à cultura, a economia, que fez o número de hotéis dobrar, triplicar, quadruplicar.
Nas cidades em volta, a moda eram os "assustados", que reuniam os jovens para dançar e namorar.
Não participei de tantos, a timidez não deixava.
Mas havia os grandes bailes, realizados em clubes, com orquestras muito boas, como Ogírio Cavalcanti e a Super Oara.
Desses participei mais. Em Capoeiras, São João, Pedra, Caetés, Angelim.
Até arranjei algumas namoradas nessas festas, romances juvenis, com muitos beijos e sem sexo.
Em 1970 o Brasil foi tricampeão do mundo, com uma seleção inesquecível.
Tinha apenas 13 anos, mas ainda recordo dos nomes da maioria dos jogadores. Um timaço.
Vai assim, sem consulta ao Google:
Félix (goleiro), Brito e Piazza (zagueiros), Carlos Alberto (lateral direito), Clodoaldo (volante), Gerson (meio campista de muita qualidade) e um ataque poderoso com Jairzinho (ponta direita), Rivelino (ponta esquerda), Pelé (chamavam na época de ponta de lança) e Tostão (centroavante).
Todos comemoramos a conquista no México, a gente lá sabia que havia uma ditadura e a tortura era praticada nos porões do regime, enquanto o povo se embriagava com futebol.
Quatro anos depois da Copa, no Diocesano, um professor em sala de aula negou a existência de uma ditadura no Brasil.
Um colega de classe, José Carlos, apelidado de "Bico Doce", levantou-se na sala e contestou.
Disse da maneira firme que o Brasil vivia uma ditadura sim. Completou afirmando que o país era submisso aos interesses dos americanos.
Corajoso o Zé Carlos. Devia ter uns 17 anos quando aconteceu isso.
A infância e a adolescência são preciosas quando se tem o básico, amigos, um pouco de diversão e a segurança de um lar, com o pai e a mãe orientando seus caminhos, garantindo a comida e a roupa.
Não tinha coragem para cantar as meninas, porém não faltava disposição para ler.
Conheci, entre os 14 e 15 anos autores do porte Érico Veríssimo, Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Dostoiévski, Hemingway, Camus e Zola.
Dentre os professores que alimentaram o gosto pela leitura merece menção especial Luzinette Laporte, uma mulher bonita, erudita e de uma simplicidade cativante.
Quando chegou o tempo de fazer vestibular o caminho foi o Recife, o cursinho Boa Vista, a UFPE e depois a Unicap.
A velhice é um lance completamente diferente. Vêm as doenças, os sustos, as limitações.
Mas digo sem titubear: viver é bom em qualquer tempo. Graças ao lá de cima ainda estou aqui.
*Foto: Facebook.


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