A CRÔNICA DO REBELDE BELCHIOR E O PODER DAS ARTES

Belchior podia ter vivido alguns anos mais. Perdê-lo aos 70 anos doeu, principalmente pelo enigma dos seus últimos dias, meses, entre nós.

O cearense foi cantor, compositor, filósofo, poeta, cronista antenado com o sentimento das ruas.

Uma das frases marcantes do Belchior martela as cabeças pensantes, nesta manhã de domingo.

"A solidão das pessoas nessas capitais", cravou o compositor em Alucinação, uma das suas grandes canções.

Quem viveu a cidade grande sabe o que o artista quis dizer.

A solidão nas capitais, nas metrópoles,  é gigante, imensa como os arranha-céus que sufocam as formigas que trafegam sem porquê

Na mesma música Antônio Carlos Belchior confessa que não está interessado em nenhuma teoria, nem nessas coisas do oriente, romances astrais.

"A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais", expressou, implacável, o poeta, o cronista.

E ele ainda se preocupou com o preto, o pobre, um estudante, uma mulher sozinha...

Crônica pura da nossa realidade, do dia a dia do cidadão comum, dos trabalhadores e das pessoas de classe média.

O cearense fazia sociologia na música, nos ajudava a pensar, a refletir a realidade de um país de muitas contradições e desigualdades.

Não precisava ser político no sentido partidário para expressar o inconformismo, a rebeldia, esse sentimento ainda mais evidente na música "Dandy", outra bela sacada, com aquele toque filosófico que lhe era característico.

"Mamãe quando eu crescer eu quero ser artista, sucesso, grana e fama são o meu tesão".

Muito atual essa ironia do início de "Dandy", uma fusão de rock e blues.

Belchior não viveu o suficiente para ver o fascismo no poder no Brasil.

Mas os seus versos ecoam até os dias atuais e nos ajudam a suportar a mediocridade, a burrice, a hipocrisia e a maldade desses que usam Deus para acobertar seus crimes.

Na solidão menor de uma cidade de porte médio apenas observo, e me renovo a cada dia, fico mais velho e rejuvenesço.

A ministra Carmen Lúcia disse outro dia: "a arte salva". Érico Veríssimo no seu livro de memórias já defendia essa ideia.

Precisamos da poesia, dos romances, dos repentes, da música, da crônica inteligente, do teatro, das artes plásticas,  dos que estão mais preocupados com a felicidade, o amor em sua amplitude do que com o dinheiro.

Chico Buarque, Gonzaguinha, Ruben Braga, Rubem Alves, Machado de Assis, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Fernanda Montenegro, Marieta Severo, William Shakespeare. Fiódor Dostoiévski, Ernest Hemingway... o Belchior também, é claro.

Todos eles, mesmo os que se foram estão eternizados pelo que escreveram, pela poesia e pelo olhar atento de cronista que reflete o momento, o antes, o depois, a caminhada de homens e mulheres num mundo caduco, às vezes nem tanto.

*Ilustração:  Reproduzida de página do Facebook com o título A Arte Salva.

2 comentários:

  1. Eu nunca teria muros na arquitetura na linha casa, na frente. Nunca, jamais. E você? Teria? Blogueiro... e você está a favor dos muros? Sejam sincerXs🤫🤫🤫 Cumprimentaram seus vizinhXs quando? Os muros retratam as fraquezas kkkkk Já passei por isso.

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  2. Esse era gênio.Uma voz dissonante, junto a Chico, Caetano, Gozaguinha, Aldir Blanc, João Bosco, Taiguara e tantos outros, ná década obscura de 1990, quando a reboque dos desgovernos de Collor e FHC, surgiram o tal do pagode-brega, o axé, o sertanejo-brega, o eterno mestre da dor de corno, Roberto Carlos e outras aberrações musicais. Viva Belchior!

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