sábado, 28 de dezembro de 2019

O DIREITO DE NASCER - UM DRAMALHÃO CUBANO QUE FEZ O BRASIL VIRAR O PAIS DAS TELENOVELAS - Por Altamir Pinheiro


Há quem diga que o Brasil é o país das novelas por culpa de um cubano. Tudo começou, indiretamente, há 73 anos, em 1946, quando Félix Caignet escreveu a radionovela O DIREITO DE NASCER, um grande sucesso, exibida em vários países e com diversas reedições ao longo das décadas. O especialista em novelas  Thell de Castro nos confirma que a primeira versão da história foi transmitida pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro no início dos anos 1950. Mas, a partir de 5 de dezembro de 1964, quando a TV Tupi de São Paulo passou a exibir O Direito de Nascer diariamente às 21h30, o Brasil parou para assistir à telenovela, rotina que se repetiria inúmeras vezes nas décadas seguintes...

Nas longínquas décadas de 50 e 60, o tabu existente de então na sociedade era a separação entre marido e mulher, gravidez fora do casamento e aborto. Três temas que, hoje, são recorrentes nas novelas da Globo. Essas proibições sagradas, naquela época, mexeram com o público. Esse tema proibido, aqui no Brasil,  só veio a ser quebrado com a escritora e novelista Janet Clair na década de 80.  A novela O Direito de Nascer era baseada em uma história original de Cuba que se passava em 1946. A trama narra a história de Maria Helena de Juncal, filha de um poderoso empresário de Havana, mas que engravida de Alfredo Martins, filho de dom Ramiro Martins, inimigo da família. A única pessoa que fica sabendo da gravidez no início é a empregada Dolores.


Em 1951, foi ao ar pela Rádio Nacional o maior fenômeno de audiência em radionovelas em toda a América Latina: era O Direito de Nascer. Texto original de Félix Caignet, com tradução e adaptação de Eurico Silva. O original possuía 314 capítulos, o que correspondia a quase três anos de irradiação. No elenco estavam Nélio Pinheiro, Paulo Gracindo, Talita de Miranda, Dulce Martins e Iara Sales, entre outros. O Direito de Nascer surpreendeu a todos os críticos e a todas as previsões que afirmavam que o rádio teatro era um gênero em decadência e que o público brasileiro não se interessava por longas tramas.  Através do sucesso atingido por esse dramalhão cubando, o sonho de consumo, no Brasil,  tornou-se tão avassalador que,  pela primeira vez, ainda segundo o site Teledramaturgia, houve uma explosão de consumo devido a um item utilizado por uma personagem. Tratava-se do vestido de chita de Dolores, que virou objeto preferido das donas de casa.

Lembrando aqui,  uma das passagens pitorescas de algumas cenas ou capítulos que empolgava a todos os ouvintes ou telespectadores, em certo momento, há um episódio em que,  Dom Rafael sofre um acidente grave precisando de transfusão de sangue. Albertinho, já médico formado, ouve a notícia no rádio, se oferece como doador e salva a vida do homem, sem saber que ele é seu avô. Grato, Dom Rafael permite que Albertinho namore sua neta Isabel Cristina, sem desconfiar que ele é, na verdade, o neto que um dia renegou. O enredo era tão apaixonante e fez tanto sucesso que fizeram até uma marchinha para o carnaval de 1966: Ah Dom Rafael/ Eu vi ali na esquina / O Albertinho Limonta / Beijando a Isabel Cristina / Mas mamãe Dolores falou / Albertinho não me faça sofrer / Dom Rafael vai dar a bronca / E vai ser contra o direito de nascer...

A socióloga cearense Marineusa nos faz viajar nos saudosíssimos anos 60/70 quando afirma que nas cidadezinhas do interior  o divórcio, o desquite, a separação faziam pouquíssimas vítimas, pois era um arregalar de olhos quando tal fato acontecia. Para a sociedade daquelas décadas passadas, a Lei Áurea era:  “O QUE DEUS UNIU O HOMEM NÃO SEPARA”. Na verdade, principalmente no que diz respeito a ala feminina, quantas ocorrências marcantes em âmbito municipal, estadual, nacional e por que não universal? E na nossa vidinha? Na nossa adolescência?  Quantas descobertas, quantas alegrias, quantas decepções!!! Qual mocinha daquela época não lembra, por exemplo, da novela “O Direito de Nascer”, quando elas sorriam ou choravam de acordo com as emoções que o capítulo fazia brotar nelas? 

Tudo isso faz parte da vida; são os elementos que a compõem.
Esta foi a década dos nossos primeiros sonhos com o príncipe encantado ou das gatinhas de anáguas rendadas, dos nossos primeiros bailes e das primeiras decepções amorosas. Foi a década em que, principalmente as   meninas, sonhavam ao pé do rádio de pilhas ou de bateria, com os galãs das novelas. Como elas se deleitavam ao  ouvir as vozes sensuais e imaginar a beleza dos personagens. Era uma novidade. E o que dizer  das benditas revistinhas muitas vezes proibidas por nossas famílias. Quem se debruçou no dia a dia  da novela O Direito de Nascer deve  se lembra muito bem dos vestidinhos de “Mamãe Dolores” e da música: oh! Dom Rafael, eu vi ali na esquina, o Albertinho Limonta beijando a Isabel Cristina...?

O amor romântico não estava apenas nas novelas e nos romances; ele estava vivo, palpitante nos corações dos jovens das nossas cidadezinhas interioranas. Era lindo o amor e a fidelidade existentes nos casaizinhos de namorados que durante as férias estavam sempre juntos e que no período letivo se mantinham unidos através das cartas perfumadas com talco Gessy, Palmolive ou Eucalol. O amor tinha realmente a conotação certa. Havia entre os namorados afetividade, companheirismo, sensualidade, e, sobretudo, o respeito mútuo. O namoro perdurava anos a fio enquanto cada um dos enamorados cursava o ensino médio, a faculdade e finalmente colavam grau no ensino superior. Só depois de encaminhados profissionalmente constituíam famílias, edificadas no amor verdadeiro.

Certamente, o grande sucesso, que definitivamente marca o hábito do brasileiro de acompanhar a telenovela, acontece com a produção, pela TV Tupi SP, de “O Direito de Nascer”.  Durante meses, o público se emocionou com a história de Albertinho Limonta (Amilton Fernandes) e Mamãe Dolores (Isaura Bruno). O sucesso foi tão arrebatador que a telenovela passou a ser o carro-chefe de várias emissoras. Se, em 1964, a TV brasileira exibiu 25 títulos, em 1965 esse número subiu para 48, com produções da Excelsior, Tupi SP, Record, Paulista, Globo e Cultura, conforme aponta a pesquisa de Ramos e Borelli  em seu livro do ano de 1991, página 62. Tudo isso turbinado pela propaganda massificada  e patrocinada pela  Colgate-Palmolive... LEMBRAM-SE?!?!?!


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