domingo, 18 de março de 2018

EVOLUÇÃO POLÍTICA E CULTURAL DE GARANHUNS


Por Michel Zaidan Filho* 
Para os propósitos dessa breve apresentação, iremos sintetizar a evolução político-cultural da Cidade de Garanhuns em cinco períodos – que correspondem grosso modo   à própria evolução política do País e particularmente, a evolução das relações entre a União e seus entes  subnacionais, em diversas conjunturas  críticas  da história nacional.
-Primeiro período, das origens até a hecatombe de 1917.
-Segundo período, da hecatombe de 1917 até o golpe do Estado Novo
-Terceiro período, do golpe do Estado Novo (e a chegada de Agamenon Magalhães ao poder) à redemocratização.
-Quarto período, da redemocratização até o Golpe de 1964
-Quinto período, da redemocratização até hoje, passando naturalmente pelo fim do regime militar, os prefeitos eleitos nessa época, a luta pela volta do estado de Direito etc.
                                                     I
 O que chamamos aqui de primeiro período é aquele que remonta às origens do povoado de Santo Antônio ou a vila de Cimbres, que deu início ao município de Garanhuns. Ou seja, o imenso latifúndio agropastoril que formava então os domínios territoriais de Simoa Gomes, a donatária destas terras. Inicialmente, Garanhuns (ou a vila de Cimbres) fazia parte da imensidão territorial  de uma casa de Fidalgos, os Garcia da Torre, que se estabeleceram  Penedo, às margens do rio São Francisco, e por doação da Coroa portuguesa, passaram à condição de donatários feudais, cujo domínio se estendia desde as terras da Bahia até a Paraíba. Nesta imensidão territorial é que se recortou o território que viria a ser Garanhuns, a partir do latifúndio de Simoa Gomes. Como região geográfica e climática de transição, essas terras correspondem à economia pastoril e algodoeira do nordeste brasileiro. Assim, o que caracteriza em seus inícios a atividade econômica do lugar é uma pecuária extensiva e culturas de subsistência voltadas para o abastecimento das fazendas e vilarejos circunvizinhos. O que se pode assinalar de culturalmente importante nesse período são as tradições, rituais e cerimônias de seus primeiros habitantes, os indígenas da etnia Cariri, cujo principal traço psicossocial era uma permanente tristeza ou melancolia, que se expressava nas atitudes, nas músicas e danças e rituais. Estes primeiros habitantes da região foram objeto de inúmeras caçadas e perseguições de bandeirantes e aventureiros, entre eles, se sobressaí a figuras de Domingos Jorge Velho, como grande predador dos nossos indígenas locais, depois da campanha movida contra o quilombo de Zumbi dos Palmares. Da parte dos colonos, é de se destacar a influência do Catolicismo patriarcal e familiar, que deixou suas marcas no assistencialismo e na filantropia de Simoa Gomes em relação à pobreza local. A origem mesma do município deve-se a uma ação caridosa dessa donatária rural, depois que essas terras foram expropriadas pelo saque e a escravidão das nações indígenas ali residentes. É de interesse notar que Garanhuns também foi reduto de quilombolas – escravos africanos que  fugiam das fazendas e engenhos da redondeza e construíam redutos nas terras da então vila de Cimbres, como é o caso do quilombo do castanhinho (até hoje existente). Neste ponto, é possível reconhecer uma rica e diferenciada herança multicultural, formada pela contribuição dos índios Cariris, em especial da mulher, dos escravos fugitivos e do colonizador português e seus descendentes.
                                                      II
 O segundo período dessa evolução vai até o trágico acontecimento chamado a “hecatombe de 1917”, que aliás já mereceu um estudo detalhado, a partir do processo judicial, do historiador garanhuense Mario Márcio de Almeida. Ele coincide com um momento de intensa urbanização do novo município. A “hecatombe” pode ser interpretada como um grande conflito social e político entre senhores de terra (os coronéis da antiga Guarda Nacional) que então mandavam na região e os novos senhores do comércio, dos serviços e atividades urbanas. Embora, muitos desses chefes políticos locais fossem também grandes comerciantes estabelecidos na praça ou núcleo urbano. 
A  luta de famílias – tão comum no interior do Brasil – não deve obscurecer o significado mais profundo desses  trágicos acontecimentos. Tratou-se de uma grande ruptura no padrão dominantemente agrário e rural da política local, rumo à hegemonia dos coronéis urbanos, assentados na cidade, grandes exportadores, beneficiadores de produtos agrários ou simplesmente comerciantes. Com a vitória destes últimos, a cidade ganhou um novo impulso urbanístico que coincide com a chegada de muitos imigrantes estrangeiros: holandeses,  sírio-libaneses, italianos, franceses etc; com a chegada da estrada de ferro (Great Western) e naturalmente com o estupendo crescimento e apogeu da cafeicultura na região,  em razão do clima temperado e do solo fértil. 
O auge desse período é o ano 1936, com uma multiplicidade de jornais, grupos dramáticos,  correntes políticas, teatros, orquestras e uma onda de modernização das atitudes, os comportamentos sociais, a fala, a roupa, o lazer, a ostentação de bens de consumo duráveis etc. (ver o Almanaque de Garanhuns, de 1936, com ricas ilustrações de Ruber Van Der Linden).  A figura ímpar desse momento de exuberância social, econômica e cultual da cidade foi o engenheiro e animador cultural Ruber Van Der Linden. Homem dotado de muitas qualidades intelectuais e de viva curiosidade foi ele o autor de inúmeras iniciativas importantes, como o parque ecológico, o grêmio cultural, os almanaques de Garanhuns, os primeiros esboços históricos da cidade e muito mais. Nunca mais experimentaria a nossa cidade um tal desenvolvimento cultural, a par do auge da cafeicultura e da influência modernizadora da infra-estrutura urbana que ela nos legou.
                                                       III   
Este último período se encerra com o Golpe do Estado Novo, em 1937, e a chegada em Pernambuco do “agamenonismo” – o interventor de Getúlio Vargas em nosso estado. Esse acontecimento provoca uma nova ruptura na história da cidade, pela inaudita centralização política trazida pelo interventor e pela rede de apoio dos coronéis interioranos a Agamenon Magalhães, que funda o PSD. É também o período das  interventorias municipais, com prefeitos indicados e nomeados em função das alianças locais e estaduais. Curiosamente, a cidade teve a sorte de contar com a ação de homens que foram verdadeiros empreendedores urbanos, embora a vida política e cultural tenha sido abafada pelo clima policial e arbitrário do novo regime. Nomes como Mário Lira, Celso Galvão Euclides Dourado  e outros contribuíram muito para o desenvolvimento urbanístico da cidade, com grandes obras públicas, melhoramentos urbanos, novos bairros, parques, logradouros e avenidas.
                                                            IV
 Essa fase se conclui com a redemocratização, em 1946. Abre-se então uma época marcada pela disputa  eleitoral e partidária e uma intensa ideologização da política, como aliás em todo o Brasil. É o período do nacional-desenvolvimentismo, com uma grande mobilização de massas; de estudantes, trabalhadores rurais, operários, profissionais liberais, trabalhadores urbanos e partidos políticos. Garanhuns foi sacudido pela tempestade política da época, com suas lideranças locais tomando posição a favor e contra os partidos nacionais e seus líderes. Aqui, é preciso fazer justiça a dois nomes, o alfaiate Amaro da Costa, corajoso líder comunista,  que muito sofreu com as inúmeras prisões, e o deputado José Cardoso, do PTB.  Outros renegaram suas antigas ideias e aderiram aos golpistas de 1964, para serem aceitos como pessoas de bem (e de bens) pela comunidade e receberam as benesses dos vários governadores indiretos ou nomeados. Estes dois valorosos políticos acima mencionados pagaram caro pela coerência ideológica e a firmeza de suas posições. Aliás, algumas lideranças sociais e políticas de hoje são originárias dessa época de agitação social, entre elas o ex-vice-prefeito da cidade, Marcio Quirino.
                                                        V
 Chegamos, assim, ao quinto período dessa síntese histórica, que corresponde à vigência da ditadura civil-militar no Brasil e a um momento de extrema centralização político-administrativa. É a fase do bipartidarismo oficial e ou das sublegendas partidárias – onde não foi possível organizar uma oposição legal. A multiplicidade de correntes ideológicas foi eliminada e substituída por uma camisa de força de dois partidos oficiais. A vida política e cultural da cidade sofreu um enorme esvaziamento em razão da censura, do autoritarismo, da falta de autonomia local, da prisão, do exílio e o absenteísmo de importantes lideranças. Os próprios  colégios, a imprensa local, os grêmios estudantis e as igrejas deixaram de ser fontes de animação cultural e política da cidade. A política passou a ser hegemonizada pelos novos coronéis urbanos, grandes comerciantes, latifundiários, exportadores e beneficiadores de produtos agrícolas e donos de grande parte da riqueza gerada na região. O caráter acanhado das lideranças econômicas se refletiu nas limitações culturais do munícipio, até a pouco tempo sem representação estadual ou federal. Forasteiros e aventureiros empolgaram a vida política da cidade, fazendo carreira, primeiro de empreendedores, depois de lideranças políticas. Para isso muito contribuiu, sem dúvida, a influência cosmopolita da formação dada  pelas instituições  escolares e o conservadorismo das igrejas, produzindo uma emigração de jovens talentos e lideranças em potencial.  Este período foi caracterizado pela hegemonia de um partido único em Garanhuns, a Arena; sendo sufocadas outras alternativas de participação. A única exceção foi o rápido e difícil governo de Souto Dourado, ligado ao MDB, advogado, vivendo fora da cidade há muito tempo, que fez uma administração voltada para a cultura, a recuperação urbanística da cidade, a moralidade administrativa e a valorização do serviço público, mas que – infelizmente – não foi compreendido nem valorizado pelos munícipes da região.
                                                          VI
Finalmente, chegamos aos dias de hoje. A  consideração de um modelo político-cultural adequado para uma cidade como  Garanhuns não pode prescindir, primeiro,  do processo de esvaziamento econômico da cidade, marcado  pela  extrema concentração de renda e o monopólio da atividade comercial do município. A acanhada estrutura econômica da cidade (que parece dar sinais de mudança) pesa naturalmente sobre a riqueza ou a pobreza da vida cultural. A opção por transformar a cidade numa estância hidromineral de vocação turística e comercial, com um calendário de eventos  musicais anual, financiado pelo governo do estado, no bojo de uma incapacidade fiscal e tributária dos municípios brasileiros, a falta de autonomia administrativa em que vivem grande parte das pequenas e médias cidades, faz de Garanhuns uma região de vida cultural induzida e artificial, ao contrário de outros municípios pernambucanos. É como se a nossa cidade não tivesse uma identidade cultural definida, bem demarcada, a despeito dos inúmeros valores humanos e intelectuais, das inúmeras faculdades, excelentes colégios confessionais, igrejas, clubes etc. A nossa cidade ainda é tributária de uma programação hegemonizada pela capital do estado e outras  cidades de porte médio de Pernambuco.
Essa fraqueza pode e deve ser combatida: primeiro por iniciativas da própria sociedade civil e suas organizações, seus intelectuais, seus artistas, seus professores, seus líderes comunitários, religiosos e econômicos. Ou seja, não se deve esperar do governo ou de outros essa valorização da autoestima da cidade. Mas isso só pode ser feito com o fim desse cosmopolitismo estéril, vazio, empobrecedor das elites que dominam a cidade. Este descompasso entre  este nefasto papel descivilizador  e descomprometido  das elites  e as nossas potencialidades locais é responsável por  uma cultura de alienação  e pouco respeito e reconhecimento dos nossos valores. A tarefa política e cultural de consertar tal desequilíbrio é de todos  quanto almejam o desenvolvimento urbano integrado local, com um viés distributivo, justo, inclusivo, mais voltado para a recuperação da autoestima dos cidadãos e cidadãs garanhuenses. Há muito que fazer neste terreno. É tarefa das faculdades, das escolas, das igrejas, dos clubes, das organizações não governamentais, dos líderes comunitários, dos partidos políticos, dos artistas e  intelectuais, dos animadores culturais, do povo de Garanhuns.
Historiografia - O primeiro livro escrito sobre a nossa história é o do professor João de Deus, da Universidade Rural de Pernambuco. Traz fotos das índias cariris e outras informações importantes. Mas não é obra de historiador. O segundo e de um diletante chamado Alfredo lLeite e tem uma importância documental muito grande. Mas está muito longe de ser uma história da cidade. O primeiro livro nesse gênero é o do historiador Mario Marcio e é sobre a hecatombe de 1917, não tem a abrangência necessária. Uma leitura dos almanaques, organizados por Ruber Van der Linden é importante. O vídeo feito sobre a hecatombe por Clóvis Manfredini é muito interessante.
*Michel Zaidan Filho, natural de Garanhuns, é professor da Universidade Federal de Pernambuco, no Recife.
*Imagem reproduzida do Blog de Anchieta Gueiros.

2 comentários:

  1. Isso não é uma apresentação, mas uma demonstração didática bastante detalhada de um tema político cultural apresentado por um intelectual que tem raízes e profundo conhecimento de causa da cidade onde nasceu. De A a Z, o professor Zaidan, discorre com muita leveza e precisão quando destrincha tim tim por tim tim nesse tratado ora apresentado que serve de consulta e de pesquisas para as gerações futuras.

    POIS BEM!!! No tocante à Hecatombe de Garanhuns, todos nós hão de convir que aquele acontecimento trágico foi nada mais nada menos do que a leitura sinistra do evangelho da truculência e da estupidez. Truculência esta, abarrotada de presunção e agressividade sem similares, aliás, só equivalente as barbaridades da Idade Média. Naquela circunstância, 1917, comparo o Capitão Sales Vila Nova como um Don Quixote numa Espanha caótica.

    A Hecatombe de Garanhuns refletiu como um badalar tristonho de sinos de finados nesta aldeia movida por ódio e vingança. A mulher de Júlio Brasileiro, Anna Duperon (que morreu aos 94 anos de idade) e o irmão de Júlio, Eutíquio brasileiro(que morreu aos 79 anos), foram os estopins daquele plano sinistro com severos requintes de perversidade.

    As canibalescas cenas daquela neurose coletiva, se deu por conta do poder político a partir do momento, donde, em nível de Estado, se duelava o ROSISMO versus DANTISMO. Ou seja, a derrota do Senador Rosa e Silva para o Governador eleito Dantas Barreto; em nível local, o JARDINISMO versus JULISMO, o duelo entre as famílias Jardim & Brasileiro.

    A Hecatombe transformou-se num espetáculo de tristeza saída das penumbras da desilusão que descambou numa verdadeira carnificina, levando um lado das mulheres garanhuenses a se vestirem ou cobrirem-se com o véu da viuvez. Na verdade, a Hecatombe de Garanhuns transmutou-se numa aldeia movida a ódio e sangue, ou seja, a HECATOMBE DE DEZESSETE foi um açougue de sangue humano...

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  2. RERRATIFICAÇÃO: - Leia-se NÓS HAVEMOS em vez de NÓS HÃO...

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