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terça-feira, 29 de abril de 2014

DOMINGUINHOS E GARANHUNS

Sem dúvida o artigo escrito por Paulo Camelo e publicado neste blog causou polêmica na cidade. O socialista, no texto em questão, foge um pouco ao seu estilo essencialmente político e tenta filosofar a respeito da relação entre Dominguinhos e a população de Garanhuns.

Chega a defender que o músico não amava a cidade onde nasceu e acredita também que a população não tinha amor pelo sanfoneiro.

Na verdade a relação entre pessoas que saíram da pobreza ou de uma vida modesta num lugar pequeno para o sucesso e a riqueza na metrópole nem sempre é fácil.

Carlos Drummond de Andrade, o mais bem sucedido poeta brasileiro de todas as épocas nasceu numa cidade do interior mineiro chamada Itabira. Depois morou na capital do seu Estado e maior parte de sua vida o escritor passou no Rio de Janeiro.

Em um dos seus poemas mais conhecidos ele escreveu o verso que diz: “Itabira é apenas uma fotografia na parede, mas como dói”. A frase não pode ser interpretada, na primeira leitura, ou fora do contexto do poema inteiro, propriamente como um elogio à cidadezinha. Drummond parece querer dizer que as lembranças do lugar em que nasceu são dolorosas, não lhe fazem bem.

Teríamos muitos outros exemplos de escritores, cantores e famosos em geral que não morriam de amores pela terra natal. Roberto Carlos pode até gostar de Cachoeiro do Itapemirim (ES), mas as lembranças da cidade podem não ser tão boas em sua cabeça. Lá ele foi pobre e na infância um trem quase lhe tira a vida. O futuro astro teve de usar uma perna mecânica desde os 15 anos de idade. O artista, no início dos anos 70, quando já estava consagrado como o cantor mais popular do país, relutou muito em gravar a música “Meu Pequeno Cachoeiro”, de Raul Sampaio.

A canção ficou bonita na voz de Roberto e foi um grande sucesso. Raul e a população da cidade ficaram na torcida anos para que a música fosse gravada. E o Rei, como ainda hoje é chamado, nunca explicou porque demorou a atender o anseio do compositor e dos seus conterrâneos gravando a linda “Meu Pequeno Cachoeiro”.

Será que o cantor não amava a sua cidade? Provavelmente amava e ama, mas Cachoeiro lhe doía em algum lugar, como Itabira incomodou Drummond a vida toda.

Só mais um exemplo: Luís Jardim, que foi grande escritor e ilustrador, saiu de Garanhuns ainda rapaz e morou quase toda sua vida no Rio. Saiu da terra natal por conta da Hecatombe, um episódio triste da história do município em que perdeu várias pessoas da família, inclusive seu pai.

O escritor não tinha motivos para amar Garanhuns. A cidade devia provocar dores em sua consciência, no corpo e na alma.


DOMINGUINHOS – Dominguinhos foi menino pobre em Garanhuns. Tocava nas feiras para ganhar o pão, como ele mesmo revela em uma de suas canções. Logicamente os moradores da cidade, principalmente os burgueses de nariz empinado de tempos passados não davam o menor valor aquele sanfoneiro.

O artista saiu do município, como outras pessoas, para melhorar de vida. E foi no Sul-Sudeste Maravilha que ficou famoso, ganhou dinheiro e pode esquecer os tempos difíceis vividos na terra natal.

Dominguinhos famoso voltou muitas vezes a Garanhuns. Foi homenageado no centenário da cidade, foi a principal atração do I Festival de Inverno e voltou a se apresentar na segunda edição do FIG. Esteve no evento ainda duas ou três vezes, recebeu diversas homenagens, a última delas no CDL local.

Com o reconhecimento do povo de sua terra, provavelmente o músico superou as lembranças difíceis da infância e adolescência. Gostava de se hospedar no Hotel Tavares Correia, fez amizade na Suíça Pernambucana com algumas pessoas que não foram de sua época e sempre as visitava quando estava por aqui.

Uma das demonstrações de amor de Dominguinhos a terra natal foi a música “Meu Garanhuns”, que tocou muito nas rádios locais e por todo o Nordeste. Nesta canção o artista saúda o clima da “terra da garoa”, lembra do Pau Pombo e do Relógio de Flores, que na música aparece como “relógio solar”.

Ora, se Garanhuns não lhe tocasse o coração jamais ele teria feito tal composição. Dominguinhos, à época um artista reconhecido no Brasil e exterior poderia ter dado "uma banana" para o município que não lhe deu valor quando era menino. Em vez disso ele dedicou à cidade uma canção, projetando-a nacionalmente.

Para completar, o cantor, compositor e sanfoneiro revelou em mais de uma entrevista que após sua morte gostaria de ser sepultado em Garanhuns. O radialista Geraldo Freire teve a felicidade de gravar uma dessas entrevistas, que pode ter sido decisiva para que seu desejo fosse atendido.

Se o artista fez esse pedido de repousar para sempre em Garanhuns, quando poderia escolher o Rio de Janeiro ou Recife, é por que a Terra da Garoa corria nas suas veias. Foi um gesto de amor com a cidade que o trouxe ao mundo.

Inicialmente foi enterrado em Paulista, por desentendimentos na família. Mas graças à luta do prefeito Izaías Régis, a viúva e os filhos chegaram ao consenso e trouxeram os restos mortais de Domingos de Moraes para Garanhuns.

Está lá, no cemitério de São Miguel.

Recebeu homenagens em vida, logo após a morte e continua sendo celebrado, como nesse bom Festival criado em torno de sua música, a autêntica música nordestina.

Se Domingos Moraes tinha alguma bronca com Garanhuns isso é passado. Se a cidade tinha uma dívida com o artista já a pagou com juros e correção monetária.

Não existe mais – se algum tempo existiu – uma relação de amor e ódio ou dor. Agora deve haver respeito, compreensão, sensatez.

José Domingos de Moraes foi um excepcional artista que saiu daqui para ganhar o mundo. Venceu e finda a batalha retornou por vontade própria. Está eternizado em suas músicas, no túmulo de São Miguel, na Praça que leva o seu nome e na estátua do artesão garanhuense José Veríssimo.

Criticar José Domingos de Moraes neste momento porque não deu mais atenção a Garanhuns ou reclamar de seus posicionamentos políticos à direita, depois do homem morto, sem poder se defender ou explicar é até covardia.

Neste momento, creio, deve ficar na memória sobretudo o talento do sanfoneiro, a voz mansa e carinhosa e versos que foram cantados em todo o Brasil por Gilberto Gil, Elba Ramalho, Nando Cordel, Fagner e outros cantores de gabarito.

Meu Garanhuns, Eu Só Quero um Xodó, Gostoso Demais, De Volta pro Meu Aconchego e muitas outras músicas desse porte são com certeza o grande legado de Dominguinhos, que queiram ou não é de Garanhuns, está entre nós e aqui permanecerá até o final dos tempos.

6 comentários:

  1. não vamos mais ouvir ele cantando com aquela voz doce que so ele tinha ficaram so eternas saudades........

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  2. Nada do que se faz agrada a este atrasado. Tudo que dá certo ele tem um defeito pra botar. Ele não é nada nem faz nada que se aproveite. Se alguém sabe de alguma coisa boa, de concreto, que ele fez por nossa cidade me diga. Saber criticar é muito bom porque falar é fácil. Deixa de ser inútil e vai fazer algo de bom. Em vez de ficar falando besteira

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  3. A minha mamãe,Iracema Carvalho da Luz, brincou e se divertiu muitas vezes com seus seis e sete anos no povoado de Barra do Brejo com as piruetas de Dominguinhos. Cantava e pegara numa sanfona para tocar e deixar todo mundo pasmado e feliz . Hoje com seus 83 anos de vida e ainda bastante lúcida relembra das velhas amizades mantidas com os seus pais e irmãos lá em Barra do Brejo em Bom Conselho-PE.

    Um belo texto escrito com conhecimento de causa e efeito.Parabéns! O DOMINGUINHOS É MERECEDOR DE TODAS AS HOMENAGENS! E você Roberto Almeida também por retratar o homem imortal!

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  4. Dominguinhos compôs três músicas para Garanhuns: Saudades de Minha Terra,Garanhuns (1964) e Meu Garanhuns ( 1992). Ele amava muito a nossa terra e temos que retribuir.

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  5. Na cidade de Garanhuns parece que não se tem mesmo do que falar, pelo menos alguma coisa importante para o bem-estar do povo da cidade.

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  6. PAULO CAMELO, COMENTA:

    Em primeiro lugar quero parabenizar o brilhante texto escrito pelo jornalista e conterrâneo Roberto Almeida.
    Em segundo lugar quero que fique bem claro que as minhas letras não tinham a função de detonar quem quer que seja e muito menos o Mestre Dominguinhos (in memoriam). Mas, dizer que existia uma separação entre Dominguinhos e a nossa cidade, por mim denominado de AMOR PLATÔNICO, com saudades e lágrimas. E dizer a verdade e que que essa verdade sirva de alerta para novas gerações de artistas, a exemplo de Ándrea Amorim.
    Em terceiro lugar quero dizer aos críticos que responderei a altura, na condição de que haja identificação e sem mudança de assunto. O bom Debate se dar sem fugir do tema.
    TENHO DITO

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