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domingo, 25 de dezembro de 2011

GRITOS E SUSSURROS - FILMES INESQUECÍVEIS - 72º


Ao escrever ou falar sobre cinema, como vimos fazendo neste blog, a cada final de semana, não poderíamos ignorar o nome de um dos maiores cineastas da história da sétima arte. Ingmar Bergman, que teve uma infância difícil, sofrendo até maus tratos do pai, quando se tornou adulto, homem de teatro, televisão e cinema, procurou através da arte “exorcizar seus demônios”.

O diretor viveu 89 anos, tendo nos deixado em 2007, com um legado de mais de 50 obras para o teatro, a TV e o cinema. Bergman se considerava homem de teatro, seus filmes refletem esse amor pelos palcos, porém foi através do cinema que ganhou projeção, fama e respeito.

Muitos de seus trabalhos viraram clássicos, tornaram-se cult, são relembrados em sessões de arte e estudados nas faculdades, nos livros e através da crítica cinematográfica.

Só para se ter um exemplo da importância de Ingmar Bergman, Woody Allen, o intelectualizado e reconhecido diretor de cinema americano é confesso admirador do sueco. Sofreu muita influência do europeu, tanto que alguns dos seus trabalhos, como “A Última Noite de Boris Grushenko” e “Interiores” são claramente inspirados no trabalho do sueco.

Da longa filmografia de Begman podemos citar “Morangos Silvestres”, um filme poético de 1957; O Sétimo Selo (56), Cenas de um Casamento (73), A Flauta Mágica (74), Face a Face (75), O Ovo da Serpente (77) e Fanny e Alexander, de 83, que ele considerou sua obra prima.

Na maioria dos seus filmes o diretor procurou perscrutar a alma humana. Ia fundo na investigação psicológica do ser humano, abordando questões essenciais como o sentido da vida, o amor, o sexo, a solidão, o angústia, o sofrimento, a morte.

“Gritos e Sussurros”, de 1972, é um dos seus trabalhos mais intrigantes e apaixonantes. Denso, difícil, possibilitando diferentes leituras; é uma obra que pode ser vista muitas vezes, para melhor compreensão e deleite.

Neste longa o universo feminino está em primeiro plano. São três irmãs: Agnes, que está muito doente; Karin, que parece perturbada e reprimida; e Maria aparentemente mais leve, talvez um pouco fútil em relação ao demais componentes da trama. Esta última é interpretada pela atriz Liv Ullmann, uma das preferidas do cineasta, que foi também uma das suas companheiras de vida.

Um personagem forte – e fica evidente a simpatia do diretor por ela – é Anna, a criada. Ela cuida de Agnes com muita dedicação durante 12 anos. Claramente fascina tanto a doente quanto as outras duas irmãs. Em alguns momentos o diretor sugere, através de imagens ou gestos, desejo sexual de Maria, Karin e mesmo Agnes por Anna. Tudo de uma forma sutil, sem evidências, mas o expectador não pode deixar de imaginar que as personagens querem se envolver mais fisicamente.

Gritos e Sussurros carrega nos tons vermelhos dos cenários, os personagens usam roupas brancas enquanto Agnes está viva e quando esta morre todas vestem preto. Bergman foca muito os rostos, as expressões de cada um, sempre colocando em primeiro plano as mulheres. Os maridos, o médico, os homens que aparecem nas cenas são anexos descartáveis, fazem apenas sombra, não influindo muito na história.

O filme causou profundo impacto no início dos anos 70 e tem uma cena que na época foi muito comentada. É quando Karin usa um pedaço de vidro, de um copo quebrado por ela mesmo quando estava à mesa com o marido, e introduz o objeto na vagina, como se estivesse se masturbando e sentindo prazer com o ato inusitado e um tanto selvagem.

Depois, quando está na cama e o esposo chega, ela está toda ensangüentada, tinha se cortado durante o desabafo ou protesto silencioso realizado longe do olhar do companheiro.

Esta obra de Bergman se passa a maior parte em ambientes fechados. Há algumas tomadas externas, paisagens bonitas vistas por apenas instantes e música clássica a embelezar determinados momentos. Predomina, no entanto, o drama, o desconforto, os traumas ou encucações das irmãs, as três infelizes e sem conseguir o entendimento.

Anna, a empregada dedicada e praticamente descartada no final, parece a mais sóbria e menos infeliz do universo feminino mostrado no filme.

“Gritos e Sussurros” não é um filme fácil. Não é para qualquer um. É cinema de arte. Produto que só vai agradar aos cinéfilos exigentes, dispostos a pensar, a rever, a ler alguma coisa a respeito do longa depois da sessão. Não diria coisa de intelectual – embora também seja -, e sim de pessoas sensíveis capazes de sair da mesmice, dispostas a acompanhar o estudo da alma humana, compreendendo que o mundo é cheio de surpresas, porque os homens e mulheres (principalmente estas) não são somente o que aparentam.

Existe muito mais. E isso só se descobre quando se vai a fundo e se dá um jeito de se ler a mente das pessoas. Isso Ingmar Bergman fez como ninguém em toda sua obra.

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