domingo, 14 de abril de 2019

CHUVA NA PROCISSÃO


Por Junior Almeida

O poeta paraibano Chico Pedrosa tem em sua vasta obra um poema de nome “A Briga na Procissão”, onde narra com muito bom humor uma grande e imaginária confusão numa encenação da Via Crucis, em sua “Palmeira das Antas”. Segundo o enredo do causo, Jesus termina preso, porém, sem ser crucificado. A estória é uma das mais conhecidas do célebre guarabirense e, também foi gravada pelo Cordel do Fogo Encantado, famoso grupo de Arcoverde, Pernambuco, que se apresenta por todo Brasil e até em outros países, o que fez a arte de Pedrosa chegar muito mais longe. É impagável a interpretação de Lirinha, líder do Cordel, ao declamar a poesia.


Pois bem, antes mesmo de Chico Pedrosa compor essa maravilha da cultura nordestina, um episódio semelhante aconteceu nas terras de Capoeiras, e poderia muito bem resultar numa poesia desse tipo ou mesmo num causo. E não é que resultou?  Foi assim:


Capoeiras ainda era uma simples e atrasada vila que pertencia ao município de São Bento do Una. Suas poucas vias não eram pavimentadas, saneamento não existia e, ainda não possuía a chamada “luz de Paulo Afonso”, que consiste na energia elétrica regular tal qual conhecemos hoje. As poucas ruas da povoação eram iluminadas, naquela época, por um gerador chamado por todos de “motor”. O equipamento havia sido instalado por um sujeito de nome “João Virães” e a manutenção, bem como a incumbência de ligá-lo, quando começava escurecer, pouco antes das seis da tarde, e desligar por volta dez da noite, era de Luiz da empresa (de luz). Luiz tinha vindo de São Bento do Una e se casaria mais tarde com Celina de Pedro Lourenço, deixando seus descendentes por essas bandas. Todas as noites antes de desligar o gerador em definitivo ele dava um apagão de aviso, para que as pessoas na rua pudessem ir para suas casas ainda no claro.


Foi por esse tempo, provavelmente em 1961 ou 1962, que apareceu em Capoeiras dois frades, mandados à vila pelo Padre João Rodrigues, de São Bento. A missão da dupla, de acordo com seus superiores eclesiásticos, era de salvar almas e, para isso atos litúrgicos durante alguns dias da Quaresma daquele ano, segundo entendiam, seriam imprescindíveis. Missas, confissões, casamentos, batizados, palestras e até procissão da Via Sacra os dois religiosos realizaram. Como o lugarejo não tinha um padre fixo morando na comunidade, os dois frades foram bastante prestigiados em tudo que fizeram. Corria tudo dentro dos conformes, isso até o último dia que os “enviados de Deus” ficariam na vila. A despedida dos dois seria à noite, na procissão da Via Sacra, realizada na sexta, uma semana antes da sexta-feira maior. Assim foi feito. 


Aquele dia foi de tempo fechado, havendo muitas pancadas de chuva. Pela manhã e a tarde chovia e ventava forte cerca de cinco, dez minutos, e parava, ficando só os relâmpagos, ventos e trovões, anunciando que viria mais água do céu. Pouco tempo depois, tudo se repetia. O tempo instável e o consequente medo das pessoas por conta da chuva, fez com que pouca gente fosse no horário marcado para a igreja.  O clima chuvoso e a pouca quantidade de gente atrasou a procissão, que tinha saída em frente à Matriz de são José prevista para as 19 horas.


       -E o povo daqui é como bode, que tem medo d’água?! Perguntou um dos religiosos.


Era quase nove da noite quando um dos frades, o mais novo dos dois, barbudo e careca, achou que já tinha chegado gente suficiente e começou a rezar. A primeira estação da Via Dolorosa foi justamente na calçada da igreja. O outro religioso, que usava óculos e era mais alto e mais velho, com os cabelos já “alinhavados” de branco, não acompanhou a procissão. Ficou descansando das muitas atividades do dia dentro da matriz. Na terceira estação, quando, segundo a tradição, “Jesus cai pela primeira vez”, um vento forte e úmido apagou todas as velas das lamparinas improvisadas pelas beatas e também derrubou um franzino jovem que segurava o estandarte com a imagem de São José. Esse pé de vento anunciou o que estava por vir. A bandeira do santo diante da ventania funcionou como uma pipa, e o rapaz que segurava lascou-se no encharcado chão de terra batida, ficando todo sujo de lama. Quem pôde o acudiu.


Todos se entre olharam meio que assustados. Os trovões e relâmpagos fazia medo a todos, mas pela fé, e até mesmo para não demonstrar moleza, ninguém arredava o pé da rua. E a procissão seguiu. Já se aproximava das dez horas, pois as luzes piscaram. Era o aviso que o motor seria desligado e em pouco tempo ficaria tudo no escuro. Não demorou muito e uma chuva de vento começou, apagando novamente as velas que tinham sido acesas de novo.  Mesmo na penumbra, instintivamente as mulheres se preocupavam mais em segurar as saias, do que com as velas, pois o vento vinha de todas as direções. Um grande guarda-chuva foi providenciado para proteger o padre e os papéis das leituras, mas esse vez por outra, por conta do vento, ficava às avessas. No momento de ler, um homem auxiliava o leitor da Palavra acendendo seu isqueiro. E a chuva engrossando. Os pingos d’água chegavam a doer na pele. Era questão de honra e de fé terminarem a Via Sacra, dizia o religioso, tentando motivar os fiéis.


Mais à frente, numa rua descida, uma mulher também caiu.  Não foi por conta do vento, mas da lama. A senhora atarracada, vestindo um chamativo vestido verde limão, com um largo cinto de couro azul e um sapato alto vermelho, deslizou seus pés na lama e caiu de bunda no chão. Quase faz “um” arte. Por sorte não quebrou nada. Sua gordura deve ter amaciado a queda. Compadecidos, mais até do que com o jovem que caíra pouco antes, todos a socorreram. O padre tentava a todo custo incentivar o povo, e dizia:

      
-Vamos minha gente. Vamos mostrar que somos de fé. Mais fortes do que uma chuvinha e um ventinho à toa!


E tome reza. E tome cânticos. Era como se tal procedimento ajudasse a esquecer ou espantar a trovoada. No final da ladeira da rua a enxurrada corria atravessando a via como se fosse um riacho e, as pessoas teriam que passar por lá, pois era o roteiro da procissão. Dois homens colocaram umas pedras onde tinha mais água, fazendo uma espécie de passarela. O primeiro a passar foi o frade. Suspendeu sua molhada batina, pisou numa pedra, n’outra, e passou. O resto do povo fez o mesmo. Alguns homens, os que carregavam a grande cruz de madeira, por já estarem molhados e não se acharem seguros em pisar na passarela improvisada, passaram por dentro d’água mesmo. E o cortejo seguiu.


Já passava das vinte e duas horas, pois o motor já tinha sido desligado por Luiz da Empresa, apagando todas as luzes da vila. Ninguém se lembrou em pedir que ele deixasse o gerador ligado por mais tempo, pelo menos até a hora de terminar a procissão. Mas com um dia atípico como aquele, pudera. Ninguém se lembraria mesmo. Na Via Sacra as pessoas tentavam em vão, permanecer com as velas acesas. Quando começou a leitura da oitava estação, onde diz que “Jesus encontrou as mulheres de Jerusalém”, a chuva aumentou consideravelmente e relampeou tão claro, dando a impressão de que um “corisco” tinha caído bem perto, e deu um trovão tão forte que uma mulher chegou a desmaiar do medo que teve. O frade percebeu que aquele era o momento de encerrar as atividades. Pelo que entendia Deus não queria que continuassem e o prudente seria dispersar as pessoas.


-Meus irmãos e minhas irmãs. Como vocês estão percebendo, Deus não quer que continuemos. É melhor encerramos por aqui. Amanhã, nós continuaremos e terminamos a Via Sacra. Disse o religioso.


O sacristão respirou aliviado, pois estava doido pra correr dali. Ajuntou os objetos sacros e apressou o passo em voltar. Não deu outra: nas pedras do riacho, estatelou-se no chão. As pessoas mais atrás só ouviram a zoada da queda e o grito do cabra. Involuntariamente o frade caiu na risada, e gritou:


       -Tudo bem por aí?!


Ainda no chão, o sacristão gemeu, dizendo que tinha caído. Todos encharcados voltaram sob muita chuva, relâmpagos e trovões para igreja, onde o frade mais velho já os esperava. No templo todos foram contar os apuros que tinham passado. O frade molhado parecia prestar conta ao seu superior, dizendo inclusive das quedas das pessoas. O religioso que tinha ficado na igreja, lembrando-se que na sua juventude já tinha passado por algumas situações parecidas, sarcasticamente perguntou:


       Ué, e quem cai na Via Sacra, não é Jesus?


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