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domingo, 24 de fevereiro de 2019

A FARSA DA AJUDA HUMANITÁRIA


Imagem reproduzida da Revista Fórum

Por Homero Fonseca

Como 99% dos leitores brasileiros, faltam-me informações profundas e confiáveis sobre o país vizinho. A mídia brasuca, engajada ideologicamente, só noticia um lado. Pretendo, com minha frágil lanterna, jogar um pouco de luz sobre a explosiva situação em nossas fronteiras, com base em fatos atuais e históricos.

Não venho fazer aqui a defesa de Nicolas Maduro. Certamente ele cometeu seus erros. Problema do povo venezuelano, de acordo com a noção universal de soberania das nações.
Questionável é o interesse do Império do Norte com a democracia e o bem-estar da população venezuelana. Em sua política externa, os EUA jamais se preocuparam com Democracia. Apoiaram e apoiam qualquer ditadura alinhada aos seus interesses geo-políticos-econômicos: Brasil/1964, Chile/1973 (ingerência fartamente documentada), Arábia Saudita e Filipinas, atualmente, entre tantos outros exemplos. Na própria Venezuela, deram suporte à tentativa de golpe contra Hugo Chávez, em 11 de abril de 2002. Agora, questionam a legitimidade da eleição de Maduro e apoiam o autoproclamado Juan Guaidó, que não teve um só voto para presidente. Ou seja, a narrativa americana de arauto da Democracia é falsa.
O que está por trás de tudo

Como qualquer pessoa medianamente informada e com mais de dois neurônios está careca de saber (o meu caso), os países não têm amizades nem veleidades abstratas em suas relações internacionais: são movidos por seus próprios interesses, econômicos e estratégicos. Chama-se a isso geopolítica.
Historicamente, o Império Americano é a potência que mais intervém militarmente em outros países para impor sua geopolítica. A lista é imensa, desde o século 19: Cuba, Panamá, Granada, República Dominicana, Coréia, Vietnam (vejam no Google). Hoje, o foco é o petróleo: e aí estão as invasões à Líbia, ao Iraque e à Síria, países arrasados pelos bombardeios americanos. A Venezuela tem as maiores reservas petrolíferas do mundo, capite?
Guerra econômica e miséria

Às vezes, antes da ação armada, o Império do Norte usa a guerra econômica para desestabilizar os adversários (precedida de intensa propaganda política). Donald Trump vem esgrimindo essa arma poderosíssima, com o objetivo de estrangular a Venezuela (sem a menor piedade para com a população venezuelana). Desde que assumiu decretou um violento bloqueio financeiro, que transformou numa catástrofe a crise econômica provocada pela queda do preço do petróleo e os eventuais equívocos do governo de Caracas. A imprensa tupiniquim omite os fatos e principalmente as devastadoras consequências das manobras econômicas para a população venezuelana.
Assim, socorro-me de outras fontes. A BBC Brasil em agosto de 2017 informou o drástico bloqueio das transações da petrolífera estatal PDVSA e comentou: “O cerco financeiro contra o governo da Venezuela está se fechando e isso pode trazer graves consequências para a economia do país e para a crise política.”[1] A renda do petróleo significa 96% da economia da Venezuela (o chavismo falhou em não diversificá-la) e o país depende das importações de alimentos, remédios, equipamentos e tudo o mais.
Em março de 2018, como o governo Maduro tentava driblar o cerco lançando moedas digitais, Trump ordenou a proibição de operações com a chamada bitcoin da Venezuela, fechando totalmente essa saída.[2]
Achando pouco, como o preço do petróleo apresentava ligeira melhora (US$ 74,63 por barril, contra cerca de US$ 40,00 em 2009)[3], Trump determinou o fechamento das contas e suspensão das transações de empresas privadas venezuelanas importadoras de bens de primeira necessidade, como informou a agência France Press em outubro de 2018.[4]
Em resumo, uma brutal retaliação econômica que, agravando a crise, aprofundou a fome, a inflação, o êxodo em massa de venezuelanos. As medidas empurraram ainda mais o povo venezuelano para o abismo da miséria. Alguma compaixão com a grande vítima desse arrocho letal? Zero.
Esmola e responsabilidade

Trump e o sistema petrolífero-armamentista dos EUA estão se lixando para a miséria alheia. Têm pena dos mexicanos e centro-americanos que tentam ingressar em território ianque em busca de emprego? Para eles, é muro, prisão e separação de pais e filhos. Pode haver maior exemplo de desumanidade?
Agora, oferece aos venezuelanos que tanto sofrem com o cerco econômico uma esmola com o nome fantasia de “ajuda humanitária”. Seus reais objetivos são cristalinos: criar um impasse político, reforçar a propaganda contra o adversário, provocar incidentes diplomáticos e militares e justificar, eventualmente, o envio de marines, envolvendo na louca aventura o Brasil, a Colômbia e outros governos títeres.
Maduro tem seus pecados, mas não está ameaçando ninguém.
Aconteça o que acontecer nas próximas horas ou dias nas fronteiras com nosso vizinho, a responsabilidade é toda de Tio Sam e seus aliados ideológicos.

Fontes:

[1]BBC Brasil, 26 agosto de 2017:
[2] InfoMoney, 19 de março de 2018:
[3] NexoJornal, 17 de abril de 2016:

*Homero Fonseca é jornalista, blogueiro e escritor. Foi editor da revista Continente (2000–2008). Autor do romance "Roliúde" (Record, 2007), entre outros livros.

3 comentários:

  1. Que divertido saber que ainda existe dinossauros na terra. Digo melhor, na Venezuela...

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  2. Excesso de cachaça faz com que as pessoas acreditem em dinossauros.

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  3. Quem discordar de Homero Fonseca, neste assunto exposto, ou é analfabeto político ou é eleitor passional... Age por violenta paixão... Desprezando o uso da razão. 2. Homero reconhece os erros de Nicolás Maduro... E qual o governo que não tem erros?! – Qual pessoa não comete erros?! – 3. Agora, defender os interesses dos EUA, é ser muito IDIOTA MESMO... E mal-intencionado! – 3. Basta isso por hoje!

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