Governo do Estado

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domingo, 18 de setembro de 2016

O SUSPIRO DA CRIATURA OPRIMIDA


Por Michel Zaidan Filho*

A modernidade não tratou com benevolência as religiões. Sigmund Freud se referiu a elas como uma espécie de neurose, fuga ou escape diante da dura realidade de cada um. E chegou a prevê sua extinção, com o avanço da ciência e do pensamento esclarecido. Marx foi mais longe, chamou-as de “ópio do povo”, recriminando as classes que precisavam se apegar a uma ilusão para viver. Os autores contemporâneos – adotando uma postura agnóstica e pragmática – predispuseram-se a aceitar o fenômeno religioso como um fato sociológico, funcional para a sobrevivência da humanidade.

Mas, para mim, o pensador que soube exprimir como ninguém a essência do fenômeno religioso foi o alemão Ludwig Feuerbach, em sua obra “A essência do Cristianismo”, publicada no Brasil com o prefácio de Rubem Alves. Segundo Feuerbach, podemos ler e traduzir o fenômeno religioso como uma alegoria do sofrimento humano na terra e sua busca de redenção. Daí a busca de um Deus, um céu, uma família, um mundo melhor, muito melhor do que o que vivemos. Diz o filósofo alemão, somos religiosos porque não nos conformamos com a miserável a infeliz vida mundana que levamos. Porque queremos uma vida melhor do que essa, para viver. As imagens do nosso mundo religioso querem dizer que é este (o mundo da religião) o mundo que queremos e não o que vivemos.

Muitas críticas advieram a essa formulação feuerbachiana. Sobretudo, porque ela tratava as religiões históricas como formas de alienação e convite ao conformismo social e político, ao transferir para uma esfera transcendental as utopias de uma vida melhor nesse mundo imperfeito e lacunoso. Seu principal discípulo Karl Marx, radicalizou a crítica, propondo o fim do Estado, o fim da política e das religiões, como forma de emancipação humana, ao dizer que os homens interpretaram o mundo de diversas maneiras, mas urgia transformá-lo.
 A pós-modernidade, com sua descrença na razão, foi mais generosa com as religiões. Houve uma espécie de reencantamento da mundo e da sociedade. E uma desesperança nas utopias profanas que prometiam o milênio na terra. E é preciso dizer que vários religiosos e crentes passaram a tomar parte nos esforços para a construção de um mundo mais humano e justo. Fiz parte, na condição de ateu e socialista, desses movimentos, entendendo que era um amplo convite “aos homens de boa vontade” para mudar o mundo e fazê-lo melhor, sem distinção de credo, ideologia, raça, gênero ou orientação sexual. Não me arrependo. Encontrei valorosos amigos e camaradas.

Mas, hoje, tenho de constatar com tristeza e desolação que a religião vem sendo usada, sem o menor escrúpulo, por pessoas cujo o único interesse é de natureza eleitoral ou eleitoreira. Gente que se vale da sua condição de ministro religioso ou missionário ou crente nas escrituras sagradas, para arrancar voto dos ingênuos, incautos, pessoas crédulas, de boa-fé. Neste caso, não há como se enganar: se trata de meros mistificadores, pescadores de águas turvas, mercadejadores da fé, em busca de cargos, mandatos, tráfego de influência etc.
Em relação a esses últimos, não há como se iludir ou ter condescendência. Trata-se de lobos em pele de cordeiro, cujo o único objetivo é engazopar os ingênuos, propondo a salvação da alma em troca do voto e de ajuda material para suas igrejas ou obras “missionárias”. É uma nova cruzada bíblica, animada dos piores propósitos:  atentarem contra a precária laicidade do Estado brasileiro e colocarem em risco os direitos das minorias. Fariseus e sepulcros caiados, como disse a pregação do messias.


*Michel Zaidan Filho é natural de Garanhuns, professor da UFPE, escritor e cientista política.

3 comentários:

  1. José Fernandes Costa18 de setembro de 2016 20:18

    Ao ler as palavras do professor Michel Zaidan, resta-me CONCORDAR com o seu ponto de vista. - Deixando de lado os extremistas que existem em todos os segmentos sociais, não podemos esquecer o óbvio: "Que há essa cruzada bíblica, animada dos piores propósitos." - Vou registrar só um fato bem recente: - O salafrário Eduardo Cunha, que foi enxotado, a muito custo, da Câmara Federal, tem uma empresa no exterior com o "sugestivo" nome: "Jesus.com" - Essa "Jesus.com" foi criada para abrigar bens adquiridos ilicitamente. - Isto é, Jesus.com é pra lavar dinheiro sujo oriundo da desonestidade desse patife desavergonhado, que se diz "evangélico". – Entre outros torpes fins. /.

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    1. O asno acima nem comenta o LULADRÃO se comparando a JESUS, o problema dele é com Eduardo Cunha que passo o Cunhão na sua santa Jumenta Falante.
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      A demais recuso-me a aceitar bovinamente como verdade, as palavras de alguém que se põe a analisar fenômenos que ele não tem a menor ideia do porquê acontecerem, e usa mão de palavras vagas e superficiais para descreve-las, alguém que se coloca em uma posição externa ao mundo para explicar as coisas, como se estivesse acima da humanidade, como se estivesse no lugar do próprio Deus, pois é essa intenção aparentada na própria forma de escrever destes senhores, eles se dão ao luxo de simular estarem observando a humanidade, de fora da humanidade. Inclusive esta é a forma de escrever inaugurada por Karl Marx que achava poder MOLDAR o passado a adivinhar o futuro. Quem não vê que isso é coisa de gente com sérios problemas mentais? É por essas e outras que o Marxismo já vem sendo comparado ao satanismo, uma vez que o próprio Demônio trata-se de um ser caído que queria ser Deus!

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    2. Eita que o flanelinha frustrado ataca novamente. Não sabe fazer uma retórica sequer sem xingamentos. Além de não ter educação, não tem conhecimento histórico ou sociológico. É por isso que defende as mudanças no nosso ensino médio, não aprendeu nada e agora não quer que os futuros adultos também aprendam. Para de assistir a Globo e ler a veja.

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