A letra da canção foi inspirada na literatura de cordel e o álbum trazia até um encarte no formato dos folhetos tão conhecidos nas feiras do Nordeste.
Pouca gente tomou conhecimento do álbum, ouviu falar no cantor.
Dois anos depois, em 1976, alguém teve a ideia, na TV Globo, de incluir uma das músicas do LP de Ednardo na novela "Saramandaia", escrita por Dias Gomes, comunista de carteirinha.
Foi um sucesso daqueles! "Pavão Misterioso", a canção do disco de 74, tocou mais de que música de Roberto Carlos e Luiz Gonzaga, dois ícones da década.
Os versos do cearense atravessaram fronteiras e, não se sabe bem como, chegaram até o Japão e vieram pagamentos por direitos autorais para o brasileiro até do país asiático.
Depois do êxito comercial desse primeiro álbum, mesmo com atraso, o engenheiro químico José Ednardo pôde lançar outros discos, todos muitos bons.
Ele é um artista completo.
Está com 81 anos, teve câncer na boca, que lhe afetou a voz, mas ainda é um artista consciente, na luta por um Brasil melhor, livre do fascismo e do atraso que a extrema-direita representa.
"Pavão Misterioso", muita gente não sabe, cantada com voz suave, e com uma letra aparentemente singela, é uma música política. é um libelo contra a ditadura que infelicitava o país nos anos 70.
O pássaro, a ave grande, formosa, foi criado como arma de combate ao regime de exceção.
Quando Ednardo diz "ai, se eu corresse assim, tantos céus assim, muita história eu tinha pra contar", está expressando o desejo de liberdade, quando esta era proibida no Brasil.
E o poeta é ainda mais claro no verso: "No escuro dessa noite me ajuda a cantar, derrama essas faíscas, despeja esse trovão, desmancha isso tudo que não é certo não".
Ednardo depois teve problemas com a censura, mas a driblou, num primeiro momento, ao desejar que um pássaro misterioso soltasse faíscas e trovões, desmanchando como que por mágica o regime de terror.
O compositor ainda fala de um "conde raivoso", que pode ter sido uma referência a Ernesto Geisel, o general que comandava o país quando a música Pavão Misterioso foi lançada.
Assim como Chico Buarque usou de uma alegoria para compor A Banda, nos anos 60, Ednardo usou a mesma figura de linguagem para criar sua canção mais conhecida.
Che Guevara, o médico argentino que ajudou a fazer a revolução cubana dizia que é preciso endurecer, mas sem perder a ternura.
Artistas como Chico Buarque e Ednardo fizeram mais ou menos isso: com as músicas citadas, que são ternas e duras, fustigaram o autoritarismo ao mesmo tempo que plantaram a esperança no coração do povo.

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