GENI E O ZEPELIM
Algumas músicas são antológicas, não podem ser esquecidas e merecem ser estudadas.
São muitas as canções memoráveis, mas para não escrever um tratado cansativo demais vamos nos limitar a cinco, de autoria de artistas bem diferentes.
Chico Buarque de Holanda tem muitas canções que merecem uma análise. "Construção" é uma delas, para uns a melhor composição da música popular brasileira até hoje.
A letra é mesmo perfeita, com construções linguísticas que só poderiam mesmo sair da mente de um cara genial como Chico.
Mas a minha relação começa com "Geni e o Zepelim", outra sacada inteligente do melhor compositor brasileiro de todos os tempos.
A música conta uma história tão interessante, aborda tantas questões, que vai inspirar um filme com o mesmo nome.
"Geni e o Zepelim" tem como principal personagem um travesti.
Ninguém dava valor a pobre criatura.
Um dia, porém, a cidade é invadida por uma enorme nave e seu ocupante poderoso deixa todos assustados.
Ele, no entanto, misteriosamente, promete poupar o lugar, desde que Geni lhe sirva por uma noite.
E então acontece um desfile das autoridades (os podres poderes) atrás da travesti, fazendo apelos para que ela salve a cidade.
"O prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos e o banqueiro com um milhão".
A letra da música é completa, os versos são embalados por uma melodia bonita e Chico Buarque, sem tantos recursos vocais, se saiu muito bem na interpretação dessa canção.
É PRECISO
Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha, morreu em 1991, num desastre de automóvel.
O artista, nos 45 anos que esteve conosco, compôs grandes canções.
Embora não seja a mais conhecida, não tenha tocado muito nos rádios (na época era o principal meio de divulgação de uma música) "É Preciso" é uma das canções mais significativas de Gonzaguinha.
É uma música autobiográfica, na qual o compositor relembra sua vida quando criança, num subúrbio do Rio de Janeiro.
Fala de Dina, da mulher que o criou, da labuta diária numa casa, dos sonhos de criança.
São quase 8 minutos de poesia e reflexão, num canto triste e bonito que entra pela alma,
"Ô Dina é preciso olhar essa vida, além desse filme no Cine Colombo, saber dessa lama na festa no mangue".
Luiz Gonzaga Júnior foi claro: A vida é muito mais do que a gente vê, está muito além dessas pedras, dessas ruas, lá fora tem um mundo a ser explorado, embora ele possa te decepcionar.
O DIVÃ
Na década de 60, quando Roberto Carlos consolidou sua carreira, muitos imaginavam que ele era apenas cantor.
O compositor, a cabeça por trás da grandes canções, seria Erasmo Carlos.
O próprio Erasmo, num programa de televisão, deixou prosperar essa versão, o que deixou Roberto chateado.
E os dois passaram um tempo afastados.
A verdade é muitas músicas da dupla, mesmo quando assinadas pelo dois, nasceram da cabeça de Roberto. É o caso de "Sentado à Beira do Caminho", "Amigo" e certamente "O Divã", uma das melhores canções do rei.
Claro que essa música tem muito mais de Roberto do que de Erasmo, pois é confessional, biográfica.
Pela primeira vez o artista, então com pouco mais de 30 anos, falou do acidente de trem que lhe esmagou uma perna, quando tinha apenas 6 anos de idade.
Lembra do pai, da mãe, dos irmãos, da casa modesta, em que estava seguro, "não temia trovoadas".
O arranjo de "O Divã" é um caso à parte e só o violão que sustenta a canção, do início ao fim, enriquece não apenas os versos de Roberto, mas toda a música popular brasileira.
TRISTE PARTIDA
Em 1964 Luiz Gonzaga musicou os versos de "A Triste Partida", poema do cearense Patativa de Assaré.
A música foi um grande sucesso e é uma das mais significativas do repertório do Rei do Baião.
É praticamente um tratado sobre o Nordeste, o drama das secas, a necessidade de famílias inteiras deixarem sua terra por conta da estiagem.
São quase 9 minutos de versos cortantes, narrando as necessidades na terra seca, a viagem, o que foi deixado para trás, a vida difícil na cidade grande.
"Faz pena o nortista, tão forte e tão bravo, viver como escravo no Norte e no Sul".
É assim que termina "A Triste Partida", num tom triste, mas como uma denúncia da situação social de uma parte importante do país.
PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES
Em 1968, ano em que a ditadura editou o AI-5 e suprimiu de vez as liberdades democráticas, Geraldo Vandré participou de um festival da canção com uma música que incendiou o país.
"Caminhando" (Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores) é nitroglicerina pura, um chamado à luta, com os versos mais duros já colocados numa música para falar do exército.
"Nos quartéis lhes ensinam antigas lições, de morrer pela pátria e viver sem razão".
A música de Vandré irritou os generais, foi censurada e virou hino de resistência.
Até hoje anima protestos estudantis.
Não é só um protesto. É uma canção inspirada, linda, um gesto de rebeldia impregnado de amor.


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