Ai que saudades que eu sinto das noites de São João, das noites tão brasileiras nas fogueiras sob o luar do sertão. Meninos brincando de roda, velhos soltando balão, moços em volta à fogueira brincando com o coração, eita, São João dos meus sonhos, Eita, saudoso sertão, ai, ai.
Uma letra tão simples, mas rica, que nos diz tantas coisas.
Dá para fazer a leitura de que as noites brasileiras são nordestinas, são do interior, do agreste e do sertão.
A canção tem um tom saudosista. Lembra como era "o São João de antigamente".
Talvez já aí uma preocupação com a descaraterização das festas juninas.
Mas, em meados da década de 50, certamente a situação era bem diferente dos tempos atuais.
Possivelmente Gonzaga e seu parceiro expressaram mais a saudade das festas de São João porque estavam na cidade grande, distante da roça e do interior.
Hoje é possível sentir saudade do verdadeiro São João até mesmo em Caruaru ou Campina Grande, porque transformaram as festas juninas em festivais comuns, às vezes com clima de vaquejada.
E aí dá saudade não apenas das fogueiras, dos balões, da chuvinha e do peido de veia, mas também do próprio Gonzaga, de Marinês, do Trio Nordestino e Dominguinhos, dos que faziam o verdadeiro forró.
E até dos herdeiros do Rei do Baião e da Rainha do Xaxado, a gente saudades, porque eles estão sendo trocados por cópias mal feitas dos artistas raiz, os autênticos representantes da cultura nordestina.
Sim, temos o Flávio José, o Petrúcio Amorim, o Flávio Leandro, Santanna, Jorge de Altinho, o Alcymar Monteiro.
Mas eles estão sendo jogados para a série C, enquanto na série A brilham os safadões da vida.
Mas o São João sobrevive, apesar de tudo.
Nunca vão destruir o legado de Gonzaga e Marinês.
No interior temos arraiás por todo canto, nas vilas, nos sítios, nas escolas.
Em Garanhuns, Jupi, Caetés ou Capoeiras ainda é possível ouvir o som da sanfona e jovens dançando quadrilha.
As mocinhas usam roupas com estampas coloridas, cheia de babados, e uma charmosa botinha nos pés.
Os homens de camisas quadriculadas, uns até inventam bigodes, "engomam" os cabelos, eternizando a figura do matuto, recordados como personagens positivos dos agrestes e sertões do Nordeste.
Chove, faz frio, mas a canjica, a pamonha e o quentão aquecem os corações e alegram as noites do Agreste, as noites do Nordeste, as noites tão brasileiras, de Gonzaga, Zé Dantas e de todos nós.
*Ilustração: YouTube

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