O AGENTE SECRETO NA VÉSPERA DA CERIMÔNIA DO OSCAR


Por Roberto Almeida

Em novembro de 2025, quando assisti o filme "O Agente Secreto",  no Cine Eldorado Garanhuns, o longa de Kleber Mendonça Filho tinha sido visto por 300 mil expectadores.

No dia 7 de março, quando a produção estreou na Netflix, tinha atingido a marca, nos cinemas brasileiros, de 2 milhões e meio de pessoas.

Embora não se tenha ainda a informação de quantos viram o filme no streaming, já está entre os mais assistidos na plataforma.

"O Agente Secreto" pode ser considerado um fenômeno. É sucesso não apenas no Brasil, mas em diversos países.

Recebeu mais de 60 prêmios internacionais e chega à cerimônia do Oscar, neste domingo, concorrendo em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Seleção de Elenco (Gabriel Domingues).

Kleber Mendonça tem realizado bons filmes, como O Som ao Redor, Aquarius, Bacurau, Retratos Fantasmas e O Agente Secreto.

O mais badalado deles, embora os outros também sejam bons, é este último.

Por que tantas reportagens nas emissoras de TV e nos sites de notícias? Por que tantos elogios e prêmios?

Em primeiro lugar o filme é bom mesmo. E não é difícil, embora uns poucos tenham tido dificuldades em entender todas as nuances do trabalho de Kleber.

Isabela Boscov, que já citei em texto anterior, é uma das pessoas que mais entende de cinema no Brasil.

Ela se rendeu completamente ao filme  do pernambucano, enchendo Kleber Mendonça Filho e toda equipe do cineasta de elogios.

Mas o que é "O Agente Secreto"?

É uma mescla de suspense, drama, thriller policial e filme político.

A ditadura está onipresente na tela, embora de maneira acovardada não mostre a cara.

O cineasta mais uma vez faz declaração de amor ao Recife e a Pernambuco.

A direção e o roteiro são impecáveis.

Wagner Moura está excepcional em seu trabalho.

Primeiro é Marcelo (Armando), um pesquisador de uma universidade de Pernambuco, perseguido por matadores a serviço da repressão.

Depois é Fernando, filho de Marcelo, que aparece já perto do final.

O ator parece outra pessoa, quando retorna como o filho, médico.

A impressão que se tem é que Fernando é alienado, não sabe o que aconteceu no Brasil, nos "anos de chumbo", não tem a consciência política do pai.

Um dos pontos altos do filme é a apresentação do Recife como era em 1977. Reconstrução impecável, com os fuscas dominando o centro da cidade.

Outro ponto importante é a menção à ricaça responsável responsável pela morte do filho da empregada.

Um recado à sociedade e à justiça, pelo que aconteceu fora da ficção com o pequeno Miguel, vítima de Sari Corte Real, ex-primeira dama de Tamandaré.

A atriz Maria Fernanda Cândido não participa de tantos momentos do filme, mas é uma presença forte, que enriquece o drama.

Tânia Maria, que interpreta a Dona Sebastiana, rouba as cenas quando aparece na tela.

Atriz norte-rio-grandense começou a fazer cinema aos 78 anos e caiu no gosto do público.

"O Agente Secreto" não trata só de política. É um filme sobre memórias, do Recife e do Brasil.

Relembra o Diario de Pernambuco dos tempos áureos, quando era o principal veículo de comunicação do Estado.

Lembra radialistas que marcaram época, como Luís Cavalcanti, "o comentarista da palavra abalizada". 

Dá uma palhinha sobre o carnaval de rua da capital pernambucana.

Recorda lendas urbanas, como a da perna cabeluda, com citação ao icônico Parque 13 de Maio, onde pessoas do povo iam namorar à noite, mesmo correndo riscos.

Kleber volta a mencionar os cinemas, com citações ao antigo Boa Vista e uma atenção especial ao histórico São Luiz, na Rua da Aurora.

Enfim, é cinema de qualidade, é história, é Pernambuco, é Brasil.

Se ganhar duas estatuetas será ótimo. Até mesmo uma está de bom tamanho pela importância do Oscar.

Caso não conquiste nenhuma das quatro indicações não muda nada, pela quantidade de prêmios que já recebeu.

Sucesso de público e de crítica, "O Agente Secreto" já fez história, independente do que pensam os integrantes  da Academia de Hollywood.

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