Biografia não autorizada do cantor e compositor de Cachoeiro de Itapemirim fez sucesso de imediato.
Depressa entrou na lista dos livros mais vendidos do Brasil.
Paulo César, natural de Vitória da Conquista, na Bahia, não escreveu um livro crítico.
É mais uma obra de um fã, com páginas em que exalta o ídolo popular, rejeitado pelas elites intelectuais.
Apesar dos elogios, do reconhecimento do talento do artista, Roberto comprou uma verdadeira briga com o autor.
Foi à justiça, conseguiu tirar o livro de circulação e os exemplares apreendidos foram para uma fogueira, como nos tempos da inquisição.
Esse capítulo negro da história de música popular e da literatura brasileira teve tal impacto que a questão das biografias não autorizadas foi parar no STF.
E o Supremo Tribunal Federal proibiu que obras como "Roberto Carlos em Detalhes" fossem censuradas.
Paulo César, porém, não relançou seu livro. Preferiu escrever outro, intitulado "Roberto Carlos Outra Vez", que não repetiu o sucesso da obra censurada.
Tanto que um segundo volume previsto para o ano seguinte, 2022, ainda hoje não foi publicado.
Os tempos mudaram. Roberto envelheceu, perdeu um pouco (ou muito) do prestígio conquistado ao longo de décadas e não despertou o mesmo interesse de antes.
Mas o que desagradou tanto o artista e o levou a censurar um livro cheio de elogios a sua obra?
Roberto Carlos, como revela Paulo César em seu livros, é um cara cheio de manias, sem formação universitária, conservador e praticamente carola de igreja.
Algumas revelações do escritor baiano devem ter irritado o cantor, embora ele provavelmente não tenha lido o livro.
Mas aí entraram os bajuladores, que mais realistas de que o rei, fizeram a cabeça do Roberto.
Alguém pode ter dito que tinha muito fofoca, como a informação de que o artista já tinha para a cama com famosas como Sônia Braga, Maysa e Maria Stella Splendore (mulher do costureiro Dener).
Outros podem ter passado para o artista que Paulo César revelou muitos detalhes sobre os casamentos com Nice, Myriam Rios e Maria Rita.
Inclusive todo o sofrimento porque passou a última esposa do rei, até morrer, vítima de câncer, é narrado no livro proibido.
Paulo César Araújo tinha esse direito? Sim.
Roberto Carlos é uma figura pública, os fatos narrados são verdadeiros, alguns já eram de conhecimento da população, censurar a obra foi uma atitude burra e autoritária.
E o cantor só conseguiu vencer a batalha na justiça porque tem muito dinheiro e prestígio.
O juiz que julgou a questão foi totalmente parcial e chegou a pedir autógrafo a Roberto, durante uma das audiências.
Passados 20 anos é de se lamentar que esse livro tenha sido tirado de circulação, porque é uma das melhores biografias publicadas no Brasil nas últimas décadas e merece ser conhecida pelo maior número de pessoas possível.
Roberto, que se manteve no topo durante mais de seis décadas, perto de completar 85 anos começa a perder fôlego.
Perdeu o parceiro Erasmo, compõe cada vez menos, anda perdendo a paciência nos shows.
O certo seria parar, como fez Pelé, quando ainda é amado por milhões de pessoas.
É um cantor e compositor com uma obra riquíssima, com muitas canções que viraram clássicos e não pode correr o risco de ter um fim melancólico.
Uma ironia e tanto que o primeiro intelectual a dar o devido valor a Roberto, o escritor Paulo César Araújo, tenha sido vítima de um infeliz ato de censura.


Nenhum comentário:
Postar um comentário