PUREZA - Conto inédito de Roberto Almeida


Chovia na Ingazeira. O barreiro tomava água como há muito tempo não acontecia, os bichos buscavam um local pra se esconder, o frio viajava no vento,  e entrava pela janela.

Nesside sofria com os trovões e relâmpagos, lembrava de sustos do passado, das notícias tristes, como no dia em que Zé do Rádio morreu ouvindo a Difusora, fulminado por um raio atraído pela antena do equipamento.

Pelo menos era o  que diziam, as vizinhas.

As filhas pequenas, encolhidas na cozinha modesta, sem ter o que comer.

Era quase sempre assim.

Às vezes iam dormir com a barriga roncando, a menorzinha chorava e ela impotente.

Já tinha sido melhor, mas quando Hermínio se foi, tragado por um buraco de uma construção, ficou só, rodeada pelas meninas.

A caçula tinha apenas dois anos.

Teve que ser mulher, viúva, mãe, tia, avó e pai.

Muita coisa pra dar conta.

Trabalho duro na roça, nas plantações de café, feijão, milho, inhame, batata, tomate...

Nos poucos pés de manga, caju, laranja, limão, jaca;  bastava apanhar a fruta

As filhas tinham de ajudar, não havia como pagar trabalhadores.

Não foi pela labuta, no entanto, que não pensou mais em homem.

Era ainda relativamente conservada, apesar de ter parido oito filhos. Na verdade só um deles homem macho, os outros todos fêmeas, destinadas a uma vida semelhante à sua.

Sim, notou olhares, não era feia. Tinha carnes no corpo pequeno.

Não trairia a memória de Hermínio, porém. Um homem bom, do seu jeito,  calado.

Nunca bebera, dissera palavras grosseiras, tampouco batera nela.

Tomara que as filhas fizessem bons casamentos! Não se pegassem com brutos que exigiam demais e ofereciam de menos.

Conhecia casos. Como de Nailva, que apanhava todo dia. Tendo de lavar, passar, fazer o café, o almoço, a janta.

E à noite ser penetrada sem ouvir uma palavra, simples objeto para dar satisfação ao macho.

Seu marido nunca tinha sido assim. Embora a possuísse nos silêncios, depois de apagado o candeeiro, não a violentava, de alguma maneira percebia, adivinhava, o seu bem querer.

Jamais disse a alguém - não confessaria nem a si mesma -, mas na realidade com o tempo passou a ter satisfação naqueles momentos.

Casada no papel e na igreja, sabia não podia ser pecado. 

Deus consentia sim.

"Lá ia querer isso de novo, com desconhecido".

Nascera pra um homem só, se Deus tinha levado o seu cedo seria dele até morrer, quando pudesse reencontrá-lo no outro lado.

Quando podia botava pão na mesa, ou bolachas. No almoço nem sempre cozinhava feijão; com charque  e farinha,  então,  fazia o banquete.

E o café, plantado no terreiro de casa mesmo, batido no pilão, nunca faltava. Mesmo as meninas tomavam.

Preciso enganar a fome e fizeram isso anos e anos.

Então elas cresceram, quase sem se notar. Um dia a mais velha casou, foi morar com o marido, no Riachão.

As outras se animaram e todas passaram pelo padre, se arrancharam, saíram de debaixo de sua saia e com pouco lhe presentearam com muitos netos.

Ficou viúva aos 30, estava com 60, um pouco gorda, respirando com dificuldade.

Três décadas de castidade, pureza, sem pecar nenhuma vez, nem em pensamento.

Sozinha, cada menina na sua casa,  se deu ao luxo de morar na cidade, comprou uma televisão e passou a assistir novelas.

Deus estava dentro do seu coração, em sua cabeça; as filhas haviam vencido as provações, em melhores condições que ela.

Do que reclamar?

Governos eram abstrações, estavam longe, mais do que as filhas.

Estava em paz, diariamente fazia as orações, pedia pelas suas crias, as netas, sabia que um dia precisava fazer a viagem, sem medo, de consciência tranquila.

A caçula, a mais bonita, tinha casado com um doutor. Uma graça divina.

Esteve na sua casa apenas uma vez. Bastou um olhar pra ver que estava tudo em ordem, a casa bem mobiliada, ele educado, carinhoso com a filha. 

Tratou-a tão bem...

Foi um dos dias mais felizes de sua vida. Pensou (Deus me perdoe!) que ele, por ser de família rica, tratasse sua pequena com ar superior, fizesse dela uma empregada.

Viu com seus olhos que os dois se amavam, como nos romances.

Amores, assim, existiam mesmo, de verdade, não apenas nas novelas.

Nesside voltou pra casa com a sensação do dever cumprido. Nenhuma virara prostituta; seguiram seu exemplo de mulher direita, pura, só do seu homem até o fim dos dias.

Hermínio fora cedo, há mais 30 anos. Ficara na sua lembrança, mesmo sem estar presente fisicamente a ajudara a criar sete filhas e um filho. Devia estar orgulhoso de todos eles.

Sabia que não demoraria muito a revê-lo, contudo raramente pensava nisso. Ainda precisava ficar uns tempos,  rodeado pela filhas, mesmo sem trocar muitas palavras com nenhuma.

Bastava o brilho do olhar de uma das netas pra sua vida se encher de felicidade.

Viver, no fim das contas, era e  é bom demais.

Um comentário:

  1. Nesse tempo, aonde já quase não existem muitas bibliotecas, é bom ler esses contos né blog como o seu, ajuda a tirar aquele estresse dos dias da semana, 👏👏

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