GARANHUNS NOS TEMPOS DE ROSINHA E MATÉRIA

Matéria

           *Não conseguimos uma foto de Rosinha

Recebi uma ligação hoje de Aline Lima, da assessoria da Secretaria Municipal de Direitos Humanos.

Ela buscava fotos de Rosinha e Matéria, dois gays que marcaram época em Garanhuns, assumindo sua sexualidade numa época bem conservadora, ainda mais quando o Brasil vivia uma ditadura militar. Ou seja, repressão em todos os sentidos.

Eu não tinha o que me foi solicitado e fiz uma sugestão, que ela procurasse o professor Cláudio Gonçalves, escritor que sempre está atento à história de Garanhuns.

Fato é que por conta da jovem Aline e do amigo Cláudio,  me chegou às mãos um material muito valioso. Do ponto de vista jornalístico e histórico.

Em 2012, pouco mais de 10 anos atrás, os professores Cláudio Gonçalves, Antônio Vilela e Eudes Belo fizeram uma entrevista com Matéria. Um depoimento interessantíssimo, que dá uma ideia de como era a Garanhuns do passado.

No final, o entrevistado (a) fez uma revelação: eles não eram os únicos gays da cidade. Havia muitos enrustidos naquele tempo. "Gente grande", disse aos seus entrevistadores.

Segundo Cláudio, esse material só foi divulgado uma década atrás num jornal que Vilela escrevia. O professor não soube dizer o nome do periódico. Eudes utilizou o material no TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), então através dele somente chegou aos meios acadêmicos.

Agora pela primeira vez a entrevista é divulgada num blog, com direito a chamadas no Facebook e Instagram.

Eis a entrevista, que nos foi passada por Cláudio, na íntegra (Roberto Almeida):

ENTREVISTADOR - Você pode dizer seu nome completo?

MATÉRIA  - Sou Luiz Gonzaga de Lima, mais conhecido como Matéria.

E - Em que ano você nasceu?

M - Nasci em 1931, mas sou registrado como de 1930.

E - Nasceu em que lugar?

M - Nasci em Garanhuns. Passei pouco tempo fora, depois voltei pra terrinha.

E - Como se chamavam  seus pais?

M - Minha mãe se chamava Quitéria Almeida Leitão e meu pai Rosendo Ferreira de Lima.

E - E quando você assumiu sua opção sexual, numa época tão conservadora? Sofreu discriminação, como as pessoas o viam?

M - Sofri algumas discriminações. Mas a maioria das pessoas de Garanhuns sempre me tratou bem. Fui costureiro por 25 anos, tendo começado na profissão aos 14. Deixei de costurar quando tinha 39. No carnaval eu fazia muita fantasia. Naquela época era um escândalo um pederasta - como éramos chamados - se apresentar. Então eu viajava para Caruaru e Recife, que já eram centros mais adiantados. Aqui eu sempre tive respeito aos meus pais e não demonstrava. Ainda hoje não demonstro. Quando eu saía no carnaval era bem aplaudida, juntamente com Rosinha e Otávio, que trabalhava no jornal O Monitor.

E - Como surgiu o apelido de Matéria?

M - Armação de estudantes, pois eu era muito magrinho. Isso foi no tempo em que apareceu a matéria plástica, então eles começaram a me chamar de Matéria.

E - Sua amizade com Rosinha,  quando surgiu?

M - Ficamos amigos desde crianças, ele era muito ligado a minha família.

E - Sempre moraram juntos?

M - Rosa era mais velha do que eu. Ela morava na Rua Nova, pra os lados da Matança, da Julião Cavalcanti. Foi ali que ela nasceu. Então criamos uma forte amizade por conta da minha avó, Mãe Custódia, que era parteira. Ela que pegou Rosa quando nasceu. Minha avó tinha muita leitura e era comunista.

E - Rosinha era bonita?

M - Era. E tinha muita amizade. Era marceneiro dos bons.

E - Nestor (amigo de Rosinha e Matéria) também participava dos carnavais de Garanhuns. Como foi a relação de amizade de vocês?

M - Ah, foi um grande amigo que tive, ele era conhecido da minha família, especialmente de minha avó, que pegou ele quando nasceu. Fiz amizade com Nestor através de Messias.

E - Nestor trabalhava em quê?

M - Ele era pintor de carro, lanterneiro. Trabalhou na agência Ford muitos anos. Lembro-me que no Carnaval ele saía fantasiado de Luís XV. Ele trabalhava o ano inteiro. Juntava dinheiro para sair no seu bloco, Vassourinhas.

E - Quais as escolas de samba que existiam na época?

M - A primeira escola de samba quem fundou foi o Sargento Miguel. Eu até esqueço o nome dessa escola. Quando criança alcancei muitas escolas de samba e clubes de carnaval: "Vassourinha", "Pão da Tarde", na Dantas Barreto; "Pás Dourada", na Boa Vista; V8, que era dos motoristas, no Arraial; e as "Macaíbas" e "Maria Lúcia", na Rua Melo Peixoto. Eu já nasci brincando carnaval, porque meu pai tinha um bloco, chamado Primavera. Ficava na Sete de Setembro, mais conhecida como Rua da Bosta. Na Alves Tororó tinha outro bloco, de um compadre do meu irmão, quando ele morreu eu era pequeno. Meu pai trabalhava na Anderson Clayton (SANBRA).

E -  Como se chamava esse clube da Alves Tororó?

M - Era "A Cigana". Hoje o pessoal da Alves Tororó não gosta que chame a via de Rua da Bosta. A Melo Peixoto era chamada de Rua do Jatobá. A Severiano Peixoto era conhecida como Rua do Cajueiro, a Dr. Manoel Jardim era chamada de Poço da Folha. Meu amigo eu nasci, eu me criei aqui. A Julião Cavalcanti era aquela do antigo matadouro; a Matança se localizava na Pascoal Lopes. Essa Matança hoje é onde fica o grupo escolar João Pessoa, minha mãe me explicou tudo. Meu padrinho me dava chineladas para sair de perto dela. Eu era muito curioso.

E - Você lembra do ano que Rosinha morreu?

M - Ele morreu em 1973.

Atualmente você se sente mais acolhido pelo povo de Garanhuns?

M - Me tratam muito bem. Sou muito querido aqui em Garanhuns. Sou uma pessoa que respeito e sou respeitada. Costurei para vários ricos da cidade.

No final da entrevista, Matéria revelou que havia muitos "enrustidos" na cidade. "Gente grande", disse.

De acordo com o professor Cláudio, Matéria morreu quatro ou cinco anos depois dessa entrevista.

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