Por Agassiz Almeida*
Por que arrastar o ser humano a tamanho
martirológio? Mentes distorcidas produziram excrescente e desumano protocolo
(normas expedidas pela OMS para o atendimento de enfermos com COVID-19 nos
hospitais), documento através do qual se preceitua arrancar do enfermo as suas
mais puras ternuras, e o faz um animal lançado nas câmaras frigorificadas das
UTIs.
Que sentimentos empedrados ditaram uma
carta protocolar, verdadeira cartilha da dor, cujas regras transformam os
hospitais em templos do horror, e, dos condenados pandêmicos, mártires de um
calvário, até então desconhecido nos anais dos séculos.
Diante deste drama existencial, no qual
se entrechocam e se comungam dores, angústias e esperanças, sob o mesmo teto
hospitalar, operadores da saúde e temerosos do juízo final, salta-me à memória
esta passagem da obra, “Divina Comédia“, de Dante Alighieri, quando Virgílio,
ao conduzir o poeta florentino pelos labirintos da eternidade, neste mundo de
eterna escuridão, chega às portas do inferno, e, estarrecidos, param. No
pórtico, se lê esta inscrição: “Aqui, todas as esperanças sucumbem”, não se
ouve um único soluço dos entes amados, nem o olhar infinitamente puro de uma
mãe, ou um abraço filial da despedida.
Não há velório; lança-se o morto na vala comum de uma enorme sepultura, onde desaparece a identidade. Atemorizado, Dante perguntaria: Por que tanta desumanidade? E responderia o poeta da Eneida: São os condenados ao fogo eterno, os sentenciados pelas pragas pandêmicas. Atemorizados, abraçam-se, entre soluços e lágrimas. Petrificados pelo terror, olham, sob intenso êxtase, o infinito espaço sideral. Despedem-se, e no gesto do adeus, assim falaria Virgílio: A vida se realiza num constante entrelaçamento de fatos, seres pensantes e suas circunstâncias, numa imutável sucessão de gerações. Olhem sempre este circunstancial e o que ele oculta, sob pena de se perder a visão do mundo.
Setecentos anos nos distanciam dessa
grandeza de ideias entre épicos da literatura universal e o Eterno, e, hoje, o
que assistimos neste infortunado Brasil? A mediocridade, a boçalidade e um
populismo balofo, transvestidos num presidente da República a se esparramar
neste diálogo de compadrio, com o fanatismo cego, o militarismo caolho, o
filhotismo cevado nas tetas do poder, e, finalmente, com delinquentes
devastadores da Floresta Amazônica.
Eis algumas peças deste besteirol:
Indagado acerca de setenta mil mortes causadas pelo coronavírus, respondeu: “E,
daí? Eu não sou coveiro“. Informado do aumento de oitenta por cento nas
queimadas e desmatamento em relação ao ano anterior, esbravejou: “Isto é coisa
de ONGs”. E demite o presidente do INPE.
Pressionado pelas mais de 118 mil
mortes, furioso, disparou: “Eles se tivessem tomado hidroxicloroquina, como eu,
não teriam morrido”.
Paremos e reflitamos.
Pesa sobre este vulto, que tem em suas
mãos o bastão de governar o país, o fardo de maior causador pela expansão
pandêmica que recai sobre o povo brasileiro.
Por suas ações homicidas e políticas
públicas de devastação das nossas reservas florestais e matança de indígenas, a
justiça, decerto, arrastá-lo-á ao banco dos réus do Tribunal Penal
Internacional e o condenará como um genocida.
Como descrevê-lo? Exterminador de
vidas, por suas decisões nefastas, olhar esquizofrênico, mente pervertida,
inquietude de um sociopata, ele estarrece o mundo e o nosso país, com a
enormidade da calamidade pandêmica, maior do que a última guerra no Vietnam.
Neste caldeirão, como identificar os
seus fanáticos seguidores? Idiotões da classe média, inebriados com os
afortunados, sonâmbulos de um mundo em que aspiram o luxo, odeiam os que
defendem os direitos humanos e sociais.
Paremos um pouco e reflitamos.
Milhares de vidas humanas que a
tragédia pandêmica e a delinquência bolsonarista silenciaram, não falam, mas
deixam estas lições às gerações de hoje e às do amanhã. Desventurada a nação
cujo destino a lançou nas mãos de um destes desastrados tipos: Idi Amin Dada,
Papa Doc, Mussolini, Bolsonaro, Franco, Alexander LuKashenko, Pinochet e
Videla.
*Agassiz Almeida
foi constituinte em 88 e um dos principais artífices do fortalecimento
do Ministério Público na Constituição. Recebeu a máxima comenda da Associação
Nacional do Ministério Público pelos relevantes serviços prestados ao MP. É
escritor brasileiro e ativista dos direitos humanos.
**Artigo reproduzido do site Brasil 247. Ilustração: Divina Comédia/Vitruvírus.

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