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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

SEM DESTINO - FILMES INESQUECÍVEIS - 79º

Hopper, Fonda e Nicholson num filme revolucionário

Sem Destino cai como uma luva nesta série de filmes considerados inesquecíveis. Sim, porque esta é uma das produções americanas que causou frisson entre os jovens da época em que foi lançada, revolucionou a indústria cinematográfica, possibilitando o surgimento e a consagração de novos diretores, como Francis Ford Coppola e Martins Scorsese.

“Easy Rider” custou uma quantia insignificante para os padrões americanos de fazer cinema, foi rodado em poucos dias e provocou um retorno financeiro capaz de deixar tontos os executivos de Hollywood.

Inicialmente os responsáveis pelo projeto – Peter Fonda e Dennis Hopper – contavam com 350 mil dólares para contar a história de dois motoqueiros atravessando parte do país. Há um consenso de que no final foram gastos 500 mil dólares, segundo um crítico uma quantia absolutamente ridícula para se fazer bons filmes nos Estados Unidos.

Quando estreou, num teatro de Nova Iorque, Sem Destino atraiu uma multidão de jovens que se amontoaram por todos os lugares e aplaudiram com entusiasmo muitas das cenas do longa.

Contam que o dinheiro investido em Easy Rider foi recuperado em um único cinema, com apenas uma semana de exibição da fita.

O autor desta resenha tinha apenas 12 anos de idade quando Sem Destino chegou aos cinemas, em 1969. É um filme, portanto, sobre o qual escuto falar desde criança e nunca tinha tido a oportunidade de assistir. Um clássico do cinema considerado “cult” e o escriba aqui ignorando a importância dessa obra, um marco dos produtos da contra-cultura americana e mundial.

O filme foi o meu “presente” de carnaval. Minha filha Daniela trouxe de Recife um pen drive com umas 20 produções escolhidas a partir de um livro intitulado “101 Filmes Cults para você ver antes de morrer”. Estão no computador, não deu ainda para passar para DVD. E foi no monitor do PC mesmo que pude conferir esse trabalho instigante, feito no final dos anos 60 e que mesmo assim tem um conteúdo explosivo e leva a diversas reflexões sobre a sociedade americana, o ser humano, o problema de ser diferente, os preconceitos arraigados que levam as pessoas a matar por motivos absolutamente fúteis.

O projeto de realização de Sem Destino foi concebido por Peter Fonda (filho do ator Henry Fonda e irmão da atriz Jane Fonda) e Dennis Hopper, que são os dois principais personagens do filme.

Ninguém acreditou muito na ideia, a não ser a produtora independente BBS. Os diretores desta empresa imaginaram que um filme sobre “motoqueiros” atrairia os jovens apaixonados pelos veículos de duas rodas e o dinheiro investido não seria jogado fora.

Dennis Hopper tinha um temperamento considerado difícil e parte da descrença na proposta vinha desse aspecto do ator. Mas ele e Fonda foram em frente e não importa se eles brigaram muito, se trabalharam o tempo todo “chapados” ou se depois se desentenderam sobre o verdadeiro autor do roteiro. Easy Rider entrou para a história e ainda hoje é um filme capaz de causar impacto entre os americanos, europeus ou sul-americanos.

Há uma corrente que acredita ter sido o roteirista Terry Southern o principal responsável pela “amarração” da história. Dennis Hopper garante ter sido ele mesmo, embora o companheiro tenha ironizado, alegando que o ator e diretor não era capaz de escrever ao menos uma carta.

Pelo menos quanto ao nome original do filme Easy Rider (traduzido no Brasil como Sem Destino), todos concordaram que o batismo foi dado mesmo por Terry Southem.

Mas afinal de contas o que tem esse trabalho dirigido por Hopper de tão especial?

Poderia ser um filme menor e não ter provocado tanta polêmica nem ter influenciado a história do cinema dos anos 70 para cá. Acontece que Hopper, Fonda e Southem bateram de frente com o conservadorismo e a caretice da sociedade americana da época.

Escancaram os preconceitos e mostraram que a liberdade, tão badalada na Terra de Tio Sam, assusta quando alguém resolve viver na prática esse conceito tão bonito e sempre presente na boca dos políticos liberais.

Em Easy Rider dois personagens, Billy e Wyatt vendem um carregamento de cocaína e conseguem uma boa grana. Com o dinheiro em mãos compram duas motos possantes e resolvem atravessar os EUA de Oeste para o Leste com objetivo de ver de perto o Mardi Gras (uma espécie de Carnaval americano) em Nova Orleans.

Durante a viagem eles passam por comunidades rurais, pequenas e médias cidades do país, além de acampamentos hippies, que estavam na moda.

O longa é embalado com o melhor do rock e do pop que se tinha na época. Bob Dylan, Jimi Hendrix e Steppenwolf (que compôs a música tema do filme, transformado depois no “hino dos motoqueiros”) são alguns dos nomes que contribuem com o sucesso de road movie. Aliás, esse foi outro trunfo de Sem Destino: jogar pela primeira vez na tela grande a música de artísticas desse porte, que depois se tornariam ícones mundiais.

Do começo ao fim do filme os nossos heróis (ou anti-heróis) falam abertamente de maconha e outras drogam, fumam um baseado e fazem “viagens deliciosas” provocadas pelo que consomem.

Chegam a uma cidade e involuntariamente entram dentro de um desfile que estava sendo realizado. Por conta disso, sem cometerem crime algum, são presos. Na cadeia conhecem o jovem advogado George Hanson, interpretado por Jack Nicholson (ver nesta série Estranho no Ninho) no primeiro papel relevante de sua carreira.

Hanson é filho de um homem rico, vive fora dos padrões ditos normais da sociedade e além do mais é alcoólatra. O advogado sai e tira os novos companheiros da cadeia e resolve seguir com eles na viagem. Mas na frente param em outra cidadezinha, entram numa lanchonete e lá vivem um dos bons momentos do filme.

Os três são vistos praticamente como aberrações humanas. Suas roupas, seus cabelos, seu modo de ser incomodam. São xingados por todos os homens que estão no local, inclusive pelo xerife, que devia ser a pessoa responsável por manter a ordem. Apenas umas mocinhas presentes ficam admirando os três sujeitos, acham que eles são bonitos e ficam sonhando em dar uma volta nas suas motos.

Por conta da hostilidade, o trio resolve sair sem fazer o lanche e vai se refugiar nas matas. Billy fica questionando o comportamento dos moradores daquele lugar, se perguntando “o que foi que nós fizemos”?

Hanson responde que os caras sentiram medo deles. "Por que"?, volta a questionar Billy. O advogado explica: “Eles têm medo do que vocês representam, a liberdade”. O personagem de Hopper ainda pergunta: “Mas esta não é legal”?, ao que George arremata: “Sim, mas uma coisa é falar de liberdade, outra diferente é praticá-la”.

Depois desse momento chave, com a grande “sacada” da história, o advogado vai ser a primeira vítima do medo, da intolerância e do preconceito, sem que os outros possam escapar também da brutalidade dos americanos interessados em manter o status quo.

O final choca, é como se tudo explodisse na nossa cabeça. A intenção de Peter Fonda e Dennis Hopper, acredito, foi exatamente essa. Chocar, provocar, tornar mais forte a denúncia.

Conseguiram tudo que queriam e muito mais. Embora não seja uma perfeição técnica, apesar de Hooper ter desobedecido a técnicas básicas de filmagem, mesmo com baixo orçamento, Sem Destino atraiu milhões de expectadores em todo o mundo, fez a cabeça de diferentes gerações e ainda hoje pode ser visto como um filme inovador, corajoso e revolucionário.

Todos deviam ver. Menos os que têm medo do diferente, do novo ou da liberdade excessiva (?).

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