domingo, 10 de fevereiro de 2019

SAUDADES DA ESCRAVIDÃO - Por Homero Fonseca



A elite brasileira não tem jeito. Até hoje sonha com a abolição da abolição da escravatura, com a volta ao tempo das sinhás e sinhôs, do chicote para os pretos e do ócio para os brancos, dos lucros com o tráfico de escravos. Não vou escrever um tratado sobre a permanência da mentalidade escravocrata e da persistência do racismo no Patropi amaldiçoado por Deus. Em muitos casos, uma imagem vale mesmo por mil palavras. Como mostram as imagens da cobertura da festa de aniversário da socialaite Donata Meirelles, diretora da revista para grã-finas Vogue, mulher do publicitário Nizan Guanaes, ontem, no Palácio da Aclamação, em Salvador[1].

Os convidados — brancos em sua esmagadora maioria — eram recepcionados por mucamas, com direito a foto num trono, ao lado das serviçais. Tudo num clima de glamour, luzes e esplendor. (Lamentavelmente, Caetano Veloso aceitou cantar nesse Último Baile da Ilha Fiscal que nunca acaba; dando-lhe o benefício da dúvida — presunção de inocência –, vai ver ele não sabia da temática da festa.)
Atitude tão sem noção, de puro escárnio e naturalização da desigualdade social não é rara por aí afora. Lembram da festinha de 15 anos de uma menina rica de Belém do Pará, em 15 de março do ano passado? Diante da repercussão negativa, a cerimonialista pediu perdão e a mãe da garota, Bianka Castilho, tentou justificar o injustificável, proclamando não ter preconceito racial (como sempre fazem os que têm preconceito racial) e criticando quem criticou a pândega[2].
Tais exibições de preconceito, superioridade e privilégio tenderão a proliferar no atual governo Bolsonaro-Mourão-Paulo Guedes, empenhado em eliminar um a um os direitos do povo brasileiro, em sua maioria pobre, preto ou pardo (sorry, hight society cheia de complexo de vira-lata porque não nasceu na Alemanha de Hitler).
Está chovendo protesto contra dona Donata nas redes sociais e, como não é mais surpreendente, manifestações de gente defensora dos privilégios, esgrimindo o caviloso argumento de que as negras assalariadas interpretando mucamas na festa estavam lá “porque queriam”. Ou seja, a lógica perversa e cruel de atribuir a culpa da opressão ao oprimido, como se os escravos trazidos à força da África fossem os responsáveis pela escravidão.
*Homero Fonseca é jornalista, blogueiro e escritor. Foi editor da revista Continente (2000–2008). Autor do romance "Roliúde" (Record, 2007), entre outros livros.
*Foto: Correio da Bahia

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