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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

JUDAÍSMO E CRISTIANISMO - Por Michel Zaidan Filho


Existe uma disciplina chamada “Arqueologia literária”, no âmbito dos estudos   bíblicos, cujo objetivo é fazer um estudo comparado das escrituras sagradas, no hebraico, aramaico e latim. A ideia é através da comparação, estabelecer a autoria, a autenticidade e o sentido das narrativas bíblicas. Ela faz parte do que se convencionou chamar de ciências hermenêuticas. 

Há várias formas de interpretação desses textos. Temos uma hermenêutica liberal, uma ortodoxa e uma terceira que faz uma revalorização do profetismo como fonte de reflexão teológica. Isto porque se encontra justamente nos profetas do velho testamento os germes, os indícios do protesto social, da indignação humana contra todas as formas de injustiça social. 

É da voz (e da pregação de Isaias, Amós, João batista e outros que os neo-ortodoxos extraem hoje o material de sua exegese dos textos bíblicos. A interpretação ortodoxa das escrituras é a mais conservadora, mais fundamentalista e alheia aos problemas da vida profana.

É esse ramo da exegese bíblica que mantém mais afinidades com o judaísmo, entendendo-o como irmão mais velho do Cristianismo.

A interpretação ortodoxa ignora toda a complexidade hermenêutica do estudo e da compreensão desses textos, e tende a uma leitura literal, sem atentar para o fato de que o livro sagrado do judaísmo e que compõe parte da ortodoxia religiosa dos cristãos é um compósito de várias narrativas, de autores diferentes, de épocas diferentes e que contém narrativas extraordinárias, que se não forem lidas como alegorias edificantes, podem se tornar fonte de credulidade ou ignorância.

A reinterpretação dos textos vestutestametários foi feita de inúmeras formas e com objetivos muito diferentes. A mais problemática, com certeza é aquela feita por ramos ou denominações da igreja reformada, como por exemplo o pentecostalismo e o neopentecostalismo (que aliás não se reivindicam do legado de Cristo ou do cristianismo), em sua origem anglo-saxã. Não é segredo para ninguém que o primeiro a fazer isso foi Martinho Lutero, ao negar a importância da intermediação da Igreja romana na interpretação dos evangelhos e ressaltar o livre exame das escrituras por cada fiel ou crente. 

No entanto, quem iria extrair todas as consequências dessa nova exegese seriam os evangélicos norte-americanos e a sua ênfase no papel do indivíduo e suas ações na salvação da alma. Enquanto os cristãos romanos e ortodoxos se ativeram à ética das convicções, os evangélicos passaram direto para uma ética das consequências, afirmando que o crente se salva pelas obras e o resultado de suas ações, independentemente do contexto social. E a manifestação da graça divina está nos sinais de prosperidade material do fiel. 

Quanto mais rico, mais próspero e abonado, mais abençoado por Deus. Surgia aí uma nova moral, a moral puritana do trabalho. E uma nova teologia, a teologia da prosperidade.  Naturalmente que o pano de fundo de tal teologia era a sociedade norteamericana e o modelo de sucesso, “o american way life”.

A transposição dessa teologia da prosperidade para o Brasil enfrentou certas dificuldades em razão da forte e prolongada hegemonia da Igreja Católica e sua doutrina do “justo preço” e o desprezo pelo acúmulo dos bens materiais. Mas com a crise do catolicismo e a proliferação dos cultos evangélicos, sobretudo nas comunidades pobres e desassistidas das periferias, esse discurso caiu como uma luva no desespero e na orfandade religiosa das classes mais pobres.

Marx se referia à religião como o “ópio do povo” e Freud, como espécie de neurose ou infantilismo nas pessoas piedosas. Hoje, é preciso atualizar o sentido dessa crítica. O  discurso do enriquecimento fácil e do acesso ilimitado aos bens de consumo duráveis divulgado por essas igrejas evangélicas  tornou-se uma nova forma de alienação política e econômica, transformando-se num imenso obstáculo para a pregação socialista e republicana no Brasil.

*Michel Zaidan Filho é cientista político e professor da UFPE.

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