quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

PORQUE PREFERIR O TERMO PRESIDENTA

O Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma “presidenta”, que assim seja chamada.

Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.

Somente no século 20 as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.

Agora que temos uma mulher na Presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.

Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na Presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?

Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples – e no lugar de um –a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.


Texto de Marcos Bagno,  professor de Linguística na Universidade de Brasília.

12 comentários:

  1. Se ela é presidenta por que a paciente não é a pacienta?

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  2. É uma questão ideológica. De puro esquerdismo. Igualmente ao uso de americano, norte-americano e estadunidense. Cada um usa o que lhe convém. Obviamente que a esquerda brasileira vai preferir a 3ª opção, por pura ideologia. Soa muito mal, no entanto, indo pelo precedente, usarmos gerenta, clienta, estudanta, comercianta, viajanta e ademais que podem ser formados pela mesma regra de presidenta. Discordo quanto ao Canadá ser ''país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França''. Isso não procede. A França, em qualquer aspecto que se analise, tem números compatíveis ou superiores ao Canadá. Outro aspecto diz respeito ao francês falado lá: é minoritário, muito presente apenas na província do Québec, separatista por sinal. A´rgumentos pífios do Marcos Bagno, usando mais o fígado do que a razão. Deve ser doutor igual ao Mercadante.
    Sou o Hadriel, moro em RO e tive contato com esse ótimo blog através do Prof. Rafael Brasil.
    Obrigado!!

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  3. Esse texto é mais partidário do que propriamente sobre a evolução da língua com adesão da forma "presidenta" aos dicionários. É o uso das palavras que torna o idioma vivo, se não há falantes, não há língua! A terminação NTE já é algo neutro e se diferencia o gênero através do artigo masculino/feminino.
    Ex.: o presidente/ a presidente
    A forma "presidenta" é desnecessária, pois a justificativa para sua existência é a de abandonar a forma masculina para se ter outra unicamente feminina. Assim seria justo existir também a palavra "presidento" e esta ainda não existe nos dicionários.

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  4. SÓ ESPERO que esse pessoal do contragolpe, do Partido da imprensa Golpista (PiG), NÃO venha dizer que o professor Marcos Bagno é terrorista e coisa e tal. - Porque ele é tão somente um estudioso das línguas em geral. E estudioso dos costumes dos povos. TEM DEZENAS DE LIVROS PUBLICADOS E SABE O QUE DIZ. - E TEM HORROR A QUALQUER PRECONCEITO. - E OS EXEMPLOS QUE ELE NOS TROUXE, NO TEXTO, SÃO CABAIS!
    De minha parte, eu tenho QUATRO NETAS e dois NETOS! E SEMPRE FIZ QUESTÃO DE DIZER DESSE MODO! NUNCA disse que tenho seis netos! Por quê? SÓ PORQUE TEM um homem ou dois no meio de DEZ MULHERES, VAMOS ANULAR A PERSONALIDADE DELAS? ELAS NÃO PODEM TER A PRÓPRIA IDENTIDADE? O ORA, POIS...
    De outro modo, entendo que NÃO precisava fazer um arrazoado desse para explicar coisa tão simples. MAS A IMPRENSA NAZIFASCISTA INSISTE EM DESPREZAR A PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF. - ENTÃO, O PROFESSOR FEZ!
    Bastaria dizer que o termo PRESIDENTA ESTÁ EM TODOS OS DICIONÁRIOS DA LÍNGUA PORTUGUESA! NOVOS E VELHOS! NÃO FOI CRIADO NADA!! - E SE ELA, A PRESIDENTA, PEDE PARA SER CHAMADA ASSIM, POR QUE FAZER ESSA PIRRAÇA, SÓ PRA DEBOCHAR, CONTRARIAR E TENTAR MENOSPREZAR./.

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  5. Mais uma vez o José Fernandes Costa dar uma demonstração que é um adepto ferrenho defensor do PIG(Partido da Imprensa Governista) ao bajular os petralhas mensaleiros.

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  6. Esta é a segunda vez que escrevo este comentário. Quando tentei enviar um primeiro veio uma mensagem daquelas que podem ter colocado a perder o meu esforço. Não sei nem se chegou lá no Roberto.

    O que tentei dizer antes era mais ou menos o seguinte: Eu dou razão a todos os comentaristas, pois já propus a fórmula mágica aqui. "Presidenta" deve ser usado só para a Dilma. Afinal, ela ainda não encontrou uma forma de aparecer com outra coisa. "Presidente" deve ficar sendo usado, como de costume, a não ser que se tenha alguma dúvida sobre o sexo.
    Aproveitando, foram precisos 500 mortos no Rio de Janeiro para a presidenta sair de casa, quantos serão necessários para os governos descobrirem que já chafurdamos muito com o planeta e que ele agora está cobrando a conta?

    Lucinha Peixoto (Blog da CIT)

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  7. Dilma está com 14 dias de governo e daqui a pouco pessoas como essa Lucinha Peixoto estarão insinuando que a presidenta é culpada pelas chuvas e mortes no Rio de Janeiro. Reacionários inteligentes e reacionários burros são igualmente perigosos. (João Paulo).

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  8. Esse João Paulo deve ser parceiro do Zé Fernandes e pertencer ao PIG(Partido da Imprensa Governista).

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  9. Esse tema NÃO comporta muita discussão. NEM é necessário insinuar preferências sexuais. Porque isso é mais uma forma de preconceito. – E NÃO é só no espanhol falado na América Latina que existe o verbete PRESIDENTA! Nos dicionários em castellano da Espanha, também existe o termo PRESIDENTA. Tanto que os periódicos El País e El Mundo, ambos de Madrid, assim se referem à Dilma: “... la presidenta Dilma Rousseff...” – IGUALMENTE, EM TODOS OS NOSSOS DICIONÁRIOS está a palavra presidenta! - O QUE TANTO SERVE PARA NOMINAR A MULHER QUE PRESIDE, QUANTO A ESPOSA DO HOMEM QUE EXERCE A PRESIDÊNCIA DE QUALQUER ENTIDADE! – Tanto aqui, como na Espanha e nos países hispano-americanos. – Mas, quem achar a forma afetada, NÃO a use! – Seja da direitona, seja nazifascista, seja lá quem for, vai ter de tratar a DILMA por presidente ou presidenta. Para isso, ELA FOI ELEITA. - Assim, o Marcos Bagno NÃO inventou a “perereca” ou a ROSA do meu poema. Disse só o óbvio. - ¡Y sanseacabó! – Quando houve a operação para retirar os bandidos da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, os antiDilma e antiLula queriam que ELA e ELE subissem os morros do Rio, juntamente com as forças policiais e parte das Forças Armadas que condiziam aquela intervenção. – Agora, essas mesmas pessoas vêm criticar a DILMA por ELA HAVER IDO OBSERVAR OS TREMENDOS PREJUÍZOS CAUSADOS PELAS CHUVAS, no Rio de Janeiro. E CAUSADOS TAMBÉM PELA FALTA DE AÇÃO DE TANTOS OUTROS GOVERNOS. - SE A DILMA NÃO houvesse ido lá, SERIA CRITICADA DA MESMA FORMA! – CONCORDO com o João Paulo em tudo. – Outra: as palavras “nascem” e “crescem” conforme o uso. E nós só sabemos como se escreve um vocábulo porque o vemos escrito. – É de tanto ver o termo hospital, escrito com “h”, que ficamos sabendo que hospital é com “h”. Se não, seria ospital. – E não escrevemos "pacienta", nem "viajanta", porque os dicionários ainda não as registraram. –Sobre o cidadão que diz ser a França, em tudo, igual ou superior ao Canadá, vejo um pouco de ignorância de parte dele. É preciso que ele aponte números. Mais: a língua francesa não é minoritária no Canadá. Inclusive, no parlamento canadense são línguas oficiais tanto o inglês, quanto o francês. É certo que Quebec quer separar-se do Canadá. Mas em todas as consultas populares, os quebequenses perderam. – Não é como o país basco, dentro da Espanha, em eterna briga./.

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  10. Finalmente, o que quiz dizer o Zé fernandes! Não entendi patavina nenhum. Parece pessoa que não tem o que fazer e escreve por escrever. Vote!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  11. Afonso: eu escrevo porque aprendi a ler e escrever. Tanto que escrevo QUIS, com S. - E você escreve com Z. E patavina já quer dizer coisa nenhuma. Assim, NÃO precisa você dizer patavina "nenhuma". É redundância. E toda redundância é desnecessária. Isto é, sobra. 2. E para entender o que o outro escreveu, também é necessário o poder de interpretação. Se você quiser (com S) saber o que eu quis (com S) dizer, leia o texto do Marcos Bagno e todos os comentários postos aí abaixo. - Todavia, é melhor você voltar aos bancos escolares. - É ISSO./.

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  12. Aconselho aos senhores escritores e leitores que lêem mais o emprego de por que, por quê, porque e porquê.Assim,aprenderemos mais um pouco. A crítica construtiva e produtiva tal qual a oposição é necessária para a correção da situação.Pois, vimos e vemos que todo santo dia existem pessoas ora no lugar do criador ora no lugar da criatura, o feitiço se virando contra o feiticeiro e quem com ferro fere com ferro acaba sendo ferido.Finalmente, se não houver o senso crítico não conseguiremos atingir o menor grau de desenvolvimento social, econômico e políto-administrativo de um povo.

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