Os homens da cidadezinha, à noite, se reuniam no sinuca do Lau, que depois das 22 horas estava de portas fechadas, mas eles lá, num recanto, se escondendo do frio. Conversavam sobre futebol, mulheres, festas, política.
As esposas, namoradas, amantes, estavam em suas casas, encolhidas na cama, por baixo de cobertores, cansadas das tarefas do dia, do vai e vem, dos meninos brigando entre si, dos maridos ou companheiros, das novelas de sempre na TV.
Um cão ladra em algum quintal, o vento sopra, um carro passa, ligeiro, não se vê uma viva alma na rua, pouco iluminada.
Dias e dias assim, a monotonia alimentando o tédio, os mais jovens pensando em mudar pra cidade grande, metrópoles com edifícios de 30 ou mais andares, elevadores, escadas rolantes, shopping centers, praias por todo lado, cinemas, teatro, bares sofisticados, restaurantes, estádios de futebol, clubes, piscinas...
Não há porque temer a correria, às vezes ela é necessária e impede os pensamentos ruins. Ou qualquer tipo de reflexão.
Os homens no Sinuca do Lau não têm os mesmos anseios, já deixaram a adolescência para trás. Sonham apenas que estão nos braços das morenas, ou das loiras, ruivas, mulheres quentes que lhes aqueçam as noites e saibam dar prazer.
Ou pensam na partida de futebol no campinho da cidade, planejam a participação no campeonato de sinuca, imaginam como será a próxima partida de cartas, cada um mais esperto que o outro no jogo de pôquer.
Quando crianças, todos tinham medo da mulher que virava lobisomem, ela tinha cara de cachaça, de quem não dormia, não penteava os cabelos, não tomava banho.
Esse tempo tinha passado, Maria nem mais estava viva, e nunca voltou do outro lado para explicar porque virava bicho.
A conversa permanecia animada, embora alguns já estivessem com sono, dispostos a atravessar a rua, subir a ladeira; quando chegassem em casa iam se enfiar debaixo das cobertas e dormir tão bem que só acordariam com o sol alto.
Um deles decidiu se apressar, o dono do estabelecimento foi abrir a porta e o cara se mandou.
Quando voltou, mais de uma dezena ainda no bate papo, um deles perguntou:
- Vadinho quem foi que saiu há pouco?
O comerciante não lembrava. Nenhum deles.
Correu à porta, olhou pra rua e não viu mais ninguém.
Tinha se escafedido.
Curioso é que Vadinho, Ambrósio, Aluízio, Nena, Gaspar, Leno, Cícero, Aroldo, Beto, Pina, Zia, Rivelino, Zizi, Ivan, Luisinho, todos igualmente tinham esquecido quem estava na roda minutos atrás, papeando.
Quem tinha se levantado e ido embora? Sumido na noite, desaparecendo em meio à neblina, engolido pelas sombras do lugar adormecido?
Não lembraram logo nem depois.
Nem no dia seguinte, nem quando ficaram velhos e vieram os netos.
Nem quando foram à igreja e fizeram perguntas ao padre.
Nem quando caíram fortes chuvas que derrubaram casas; os trovões assustaram os cães e gatos, teve bichano se escondendo embaixo da cama.
Nem quando chegaram as ciganas, com roupas tão coloridas que brilhavam, ofuscando o sol; e começaram a adivinhar tudo, ler o presente, resgatar o passado, prever o futuro.
Não tinham dúvidas.
Sabiam que no grupo havia mais um. Um deles. Conversara, contara histórias, cansara e fora embora.
E tinha sido inexplicavelmente esquecido, como que abduzido e varrido da memória coletiva.
Ficara o mistério, nunca desvendado.
Mesmo se passassem séculos não conseguiriam lembrar.
O fato ocorreu muito antes da invenção do computador, do celular, do surgimento das redes sociais, que registram tudo.
Não se preocuparam muito, não era doloroso ou inquietante esquecer um fato dessa natureza.
Mas pelo menos um deles, mais dado a leituras, ficara a pensar numa frase de dramaturgo conhecido, lida tempos atrás, num almanaque que pegara na farmácia de Genilson.
Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe sua vã filosofia.
"Tudo é possível", disse consigo, quando saíram do bar e tomaram o rumo das casas de alvenaria, buscando a segurança de uma vida sem segredos ou perplexidades.
*Ilustração: Foto reproduzida do Blog do Sr. Cariri

Nenhum comentário:
Postar um comentário