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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

HÁ 30 ANOS MORRIA RAUL SEIXAS O REI DO ROCK


Por Altamir Pinheiro
Quem neste mundão de my god é cinquentão, curtiu adoidado o Mensageiro ou Profeta do Apocalipse,  no final de uma era nas saudosas décadas de 70/80 do século passado. Quem viajou no TREM DAS SETE sabe muito bem do que estou falando... Raul Seixas era um poeta, místico e filósofo catastrófico. Para ele o fundamento da verdadeira Sociedade Alternativa, consistia em jamais viver de acordo com a ideologia daqueles que venderam suas vidas para si mesmo ao pequeno preço de serem apenas eles pelo resto de suas vidas como está bem filosofada na música Ouro de Tolo. Segundo o seu próprio espírito caído, cego, surdo e perdido. Mas, nunca é tarde para começar tudo de novo!!! Raul Seixas deixou um vácuo gigantesco na música e na cultura moderna, especialmente no que diz respeito a sua mensagem que não foi completada  por ter morrido  com apenas 44 anos de                    idade,  lamentavelmente. Eis uma frase que ele repetia sempre: Ninguém tem o direito de me julgar, a não ser eu mesmo. Eu me pertenço e de mim faço o que bem entender.

O rei do rock brasileiro  tinha uma missão ímpar, sem igual, fantástica, com seu jeito rebelde aos velhos tabus, às regras e paradigmas impostos pelo caótico e anacrônico capitalismo selvagem, desumano e cruel da ditadura e das falsas religiões e agora, para completar a tampa do tabaqueiro, essa desastrada maneira ou safadeza que foi o modo  de governar tanto  do PT da  Dilma doida  quanto o de hoje  do maluco  Bolsonaro. Tudo isso ele tratou e dissertou com muita maestria, destreza e habilidade na fenomenal e escultural letra METAMORFOSE AMBULANTE.  Raul Seixas era quase imbatível. Ao lado de seu parceiro Paulo Coelho, “Raulzito” construiu um dos repertórios mais substanciosos e volumosos em termos poéticos filosóficos que se tem notícia na história da música brasileira. E tome filosofia: Meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar.
Foi isso que tornou o “cara” uma lenda e arregimentou uma comitiva  de fãs mais chatos da história da galáxia – como não lembrar dos caras pentelhos que ficam gritando até hoje “TOCA RAUL” até mesmo em show de heavy metal.  Apesar disso, a obra de Raul sempre permaneceu muito acima dessa idolatria cega e estúpida. Algo, inclusive, que ele sempre reprovou.  Raul foi o nome mais importante do rock brasileiro e teve forte influência para os roqueiros que surgiram depois dele. Natural de Salvador, passou a adolescência ouvindo muito rock'n'roll, particularmente Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis e Chuck Berry, e blues dos negros do sul dos Estados Unidos, sem deixar de lado o baião do Gonzagão e repentistas nordestinos. Não é à toa que ele gostava de afirmar que,  Luiz Gonzaga era o rei do rock e Elvis Presley o rei do baião.
Embalado por esse caldeirão rítmico e seduzido pelos ideais alternativos da geração do pós-guerra e pelo misticismo, deu asas a sua anárquica guitarra e tornou-se o ídolo de diversas gerações, que incluem desde jovens rebeldes da classe média e do subúrbio das grandes cidades, até empregadas domésticas, caminhoneiros, empresários e até padres. Alguns de seus maiores sucessos são Metamorfose Ambulante, Trem das Sete, Como Vovô Já Dizia, Medo da Chuva, Al Capone e Cowboy fora da lei. Quando jovem, começou, como ele mesmo disse, "a usar cabelo de James Dean, blusão de couro e beber cuba-libre, o que espantava meus pais burgueses de classe média". Trocou sua lambreta por dois velhos violões e um contrabaixo e formou seu primeiro grupo de rock, O Relâmpago do Rock, em 1962. O grupo passou a se chamar The Panthers, Raulzito e os Panteras e, por fim, Raulzito e Seus Panteras.
Tocou em vários clubes de Salvador e em programas de rádio. Em 1967, a convite de Jerry Adriani (falecido em 2017), o grupo partiu para o Rio de Janeiro. Depois do lançamento fracassado de um LP homônimo, se dissolveu. De volta a Salvador, em 1970, Raul foi convidado a trabalhar como produtor de discos da CBS. Participou em 1972 do VII Festival Internacional da Canção (FIC), da Rede Globo, com a música Let me Sing, Let me Sing, cantada por ele mesmo, e Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo, por Lena Rios. Depois de ter sido expulso da gravadora por ter participado do festival, lançou seu primeiro disco-solo, KRIG-HÁ BANDOLO! (1973). Foi perseguido e preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Exilou-se nos Estados Unidos. Retornou ao Brasil devido ao sucesso do LP Gita (1974), que vendeu mais de 600 mil cópias. Como também a composição Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás (1976), que alcançou um estrondoso sucesso.
Raul Seixas nasceu na manhã do dia 28 de junho de 1945, na cidade de Salvador. Autodeclarado filho do pós-guerra, ele cresceu sob a influência do modo de vida propagado pelo vindouro movimento contra cultural. Contra as atitudes combatentes do sistema, curtição e ações pacíficas. O novo comportamento, que no Brasil foi apelidado de desbunde, era praticado pela turma que escutava rock, lia os poetas universais, fazia filmes em Super-8, não cortava os cabelos e preferia fumar maconha a pegar em armas. A “anarquia”, longe de ser uma simples alienação nos anos de chumbo do regime militar, foi uma atitude intempestiva e marginal que transgredia as normas sociais e políticas então vigentes. Na procura de uma nova forma de pensar o mundo, o desbunde tornava-se uma perspectiva capaz de romper com a razão instrumental e o militarismo característicos tanto das direitas quanto das esquerdas.  Por isso era uma pessoa versátil e não estática:  Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
Pesquisando muito no Google  e relendo alguns livros de minha coleção sobre Raul, constata-se que ele era totalmente  avesso a qualquer tipo de autoridade, valorizou tanto o individualismo, quanto a heterogeneidade e a pluralidade. A ética universal impositiva foi substituída pelo pluralismo normativo, com o decorrente enaltecimento da Metamorfose Ambulante, isto é, do indivíduo fragmentado, descentrado, disposto a afirmar sua singularidade contra o rigor de todas as opressões. Na discografia do MALUCO BELEZA os irracionalismos, as antíteses e os antagonismos extremados ocupam o centro da cena. A sua música é um mosaico exemplar da contracultura. Ele mistura, em sua obra, diferentes ritmos e estilos musicais, poesia e música, filosofia e astrologia, ocultismo e religião, crítica social e outras cositas más, tudo regado ao uso de drogas lícitas e ilícitas. Em sua veia poética, alucinadamente conclamava: Basta ser sincero e desejar profundo, você será capaz de sacudir o mundo.
Com essas características, suas músicas muitas vezes são recusadas por intelectuais e ativistas engajados, enquanto nem sempre são compreensíveis para as massas incultas. Conforme reza em sua vasta biografia arquivada nas bibliotecas virtuais, ele era atento às tensões políticas e socioculturais de seu tempo, um esperançoso compositor oferecia ao público a promessa de superação do sofrimento imposto pela sociedade autoritária. Diante das dificuldades de mudar os pressupostos sociais e políticos que geram a barbárie, sua arte assumiu como principal meta a formação de indivíduos autônomos, autocríticos e com vínculos sociais, eliminando, no que têm de fundamental, as condições que geram a alienação e a violência. Incansável rebelde repetia sempre: Eu tenho uma porção de grandes coisas para conquistar, e eu não posso ficar aqui parado.
Todavia, uma proposta política concreta estava ausente. Não é à toa que ele NUNCA se ligou em usar boinas ou camisas do mito Che Guevara, o ídolo da juventude estudantil daquela época, como fazia o saudosista e apaixonado escriba que ora vos fala ou tecla em seu computador. Não podemos esquecer que Raul Seixas, autodeclarado “Mosca na Sopa” e “Carpinteiro do Universo”, primava pelo “banda voou” ou mesmo o “puta que pariu”, proposta estética e política que apresenta a arte como divertimento, gozo, celebração, paixão, sempre à margem dos valores dominantes: caretas, opressores, racionalistas e bélicos. Como ele mesmo dizia: Não diga que a vitória está perdida. Tenha fé em Deus, tenha fé na vida. Tente outra vez!!!
Sua limitada resistência política se dava por essa via. Para nos salvarmos da opressão, mantendo a fidelidade às utopias não realizadas, o RAULSEIXISMO nos ensina que não devemos esperar o messias ou um líder revolucionário, mas sim reparar as injustiças e buscar erguer uma SOCIEDADE ALTERNATIVA a partir da união coletiva de vontades individuais. Raul Seixas exortava insistentemente ao individualismo, instigando seus interlocutores a abraçarem sozinhos os próprios caminhos. Se assim procedia é porque sabia que, enquanto o venerassem, negariam a própria autonomia. Lúcido, ele não se identificava como um sábio, santo, profeta ou redentor do mundo. Ao mesmo tempo, convidava os fãs a questionarem-se a respeito de si mesmos e de suas vidas preservando a todo custo  a paixão e o amor ao próximo ao cantarolar:  Hoje eu sei que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez.
Opor-se a determinados vínculos viciosos de uma sociedade perversa e hipócrita era seu lema. Quase 75  anos após o seu nascimento e três décadas depois de sua morte, a obra de Raul  Seixas permanece com sua tamanha importância por sua força imaginativa, utópica, por sua expressão e percepção das (im)possibilidades que permeiam a vida contemporânea. A sua vida nos revela a necessidade de assumirmos a existência como tarefa, uma tarefa da liberdade, que consiste na entrega à descoberta de nossas próprias possibilidades de existência. Pelo fato de ser uma construção permanente, um caminho de realização (NASCIMENTO E CRIAÇÃO) e desrealização (MORTE E DESTRUIÇÃO), essa tarefa só é concluída com a morte. O imortal Raul viajava no tempo com frases cortantes,  magníficas e delirantes como esta: Eu nasci há dez mil anos atrás. E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais.
Em 21 de agosto de 1989, dois dias após o lançamento do LP "A PANELA DO DIABO" e cinco dias depois do maior eclipse lunar do século XX, Raul Seixas faleceu de PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA PROVOCADA POR PANCREATITE CRÔNICA E HIPOGLICEMIA. A governanta Dalva Borges foi a primeira a encontrá-lo em seu apartamento na Rua Frei Caneca, em São Paulo. O corpo do compositor foi velado no Palácio das Convenções do Anhembi, na capital paulista, para onde uma multidão convergiu a fim de lhe prestar as últimas homenagens, seu sepultamento foi realizado em Salvador. Os fãs tornaram-se órfãos da utopia, de sua ilusão, concepção e sonho,  além da extravagância e excentricidade do Maluco Beleza: Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual, eu do meu lado aprendendo a ser louco, um maluco total.

Hoje, o grande desafio de todos aqueles que, seguindo as ideias de RAUL SEIXAS, sonham e lutam por ideais utópicos que se mostraram inalcançáveis, será a dedicação a novos ideais, à descoberta de novos caminhos, pois sonho que se sonha junto é realidade, já dizia o compositor na canção “PRELÚDIO”, do LP “Gita”, de 1974. POIS É!!!  E lá se vão 30 anos... Lembro-me muito bem do local onde estava naquele exato momento na fatídica noite de segunda-feira quando através do apresentador Sérgio Chapelin, no Jornal Nacional, anunciava  a morte daquele que se dizia: Eu sou a vela que acende, eu sou a luz que se apaga, eu sou à beira do abismo, eu sou o tudo e o nada.

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