A PARADA DA DIVERSIDADE E O NÃO ÀS PROPOSTAS IMORAIS DOS POLÍTICOS

Dani Portela e Kari Santos em Garanhuns

CRÔNICA - Quando eu era criança - até perto dos 10 anos - na cidade em que nasci e morei até a pré-adolescência não tinha luz elétrica.

Também não havia luz de Paulo Afonso.

A energia que chegava às casas, estabelecimentos comerciais e ruas era fornecida por um motor.

Funcionava das 18 ou 19 horas até às 22h.

Não era raro o motor quebrar, e aí todo mundo ficava dependendo de candeeiros, lampiões ou mesmo velas.

Nunca, até 12 ou 14 anos tínhamos ouvido falar em gays.

A cidade, parece, não tinha viado. Assim mesmo, com i.

O termo pode ser considerado pejorativo. Ou carinhoso. Tem gay que o usa com orgulho. Outros não gostam.

Mas o fato é que a vila, que no começo da minha adolescência já tinha virado cidade, se tinha algum homossexual era enrustido.

Lembro, quando criança, vazou a primeira informação de que um rapaz do vilarejo gostava de homens.

O assunto foi largamente comentado. Disseram gracinhas. Mas ninguém o atacou publicamente nem fez xingamentos.

Respeitaram sua condição, digamos assim.

Parece que apesar do atraso da época, éramos mais tolerantes.

Alguém que chegou até aqui, na leitura do texto,  pode perguntar: "Mas por que raios o Roberto Almeida resolveu,  neste domingo,  escrever uma crônica falando de gays?".

Fácil de explicar: É que em Garanhuns, neste sábado, foi realizada mais uma Parada da Diversidade.

Uma manifestação para celebrar a cultura, a identidade e os direitos da população lésbica, gay, bissexual, transgénero e intersexo.

Garanhuns, que é uma cidade maior do que aquela descrita no início da crônica, naturalmente teve direito de conhecer primeiro os homossexuais.

Quando na vila eles ainda eram desconhecidos, estavam no armário, na Suíça Pernambucana Rosinha e Matéria já desfilavam seu jeito especial de ser pelas ruas e avenidas.

A verdade é que desde que o mundo é mundo há homens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres.

Devia ser a coisa mais natural do mundo, pois faz parte da natureza das pessoas.

E como cantava (e ainda pode cantar) Milton Nascimento, numa conhecida canção, que ecoou também na voz de Gal Costa: "Qualquer maneira de amor vale a pena".

A Parada da Diversidade em Garanhuns antecipou o grito de hoje, nas ruas de todo o Brasil: "Não à PEC da Bandidagem! Anistia é o Caralho!".

Talvez o caro leitor ou leitora discorde do uso da palavra acima. Mas se até o Júnior, irmão da Sandy, usou a expressão num show, por que vou me autocensurar?

Sim, somos contrários a esta proposta imoral de blindar os deputados. 

Se são bandidos, se cometem crimes, têm de pagar, independente de usar paletó e gravata ou ter um mandato dado pela população.

Elegemos vereadores e deputados para lutar por melhorias, cobrar e propor ações junto ao Pode Executivo e não para legislar em causa própria, com direito a roubar, matar e estuprar.

Otimistas, achamos que o povo nas ruas vai sepultar de vez essa excrescência aprovada na Câmara Federal.

E anistia não é pacificação, no caso dos golpistas do 8 de janeiro.

Eles quiseram derrubar a democracia, implantar uma ditadura; planejaram mortes, usaram de violência contra o Legislativo, Executivo e Judiciário.

Merecem punição severa e não perdão.

Esse movimento todo é uma canalhice, precisamos dar um basta nos criminosos e seus cúmplices.

Enfim, é domingo. Missa,  e praia para quem está no litoral, sangue no jornal e bandeiras na Avenida Rui Barbosa.

Um beijo para os leitores e leitoras, para os que estiveram na Parada da Diversidade e aos que hoje, conscientemente, vão dizer NÃO ao Brasil do atraso e da luz do motor, do tempo em que não existiam gays porque eram proibidos de sair à luz do dia.

*Na foto que ilustra a crônica a Parada da Diversidade em Garanhuns, com a participação da deputada Dani Portela e da vereadora Kari Santos.

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