Por Homero Fonseca
O abismo social brasileiro é tão
grande que mesmo pessoas progressistas têm imensa dificuldade de entender o
proletariado, o que ele pensa, como ele age. Isso é escancarado quando nas
redes se espinafra, num misto de desalento e raiva, o chamado “pobre de direita”.
Historicamente, na raiz da
escravidão e de uma cultura de privilégios, ao povo foi negada educação e
cidadania. A democracia formal, na monarquia e na república, sempre foi terreno
das elites e contra-elites. O voto era exclusivo dos “homens de bens”. Pobres,
mulheres e analfabetos somente lentamente e a muito custo foram se incorporando
ao sistema (analfabetos só em 1988!).
Independência, Abolição,
República, Revolução de 30 etc. tiveram escassa participação popular. Eleições
e golpes de estado, regimes políticos e taxa cambial, esquerda e direita são
assuntos de brancos, briga de cachorro grande. O povão, no dizer do historiador
José Murilo de Carvalho (Os bestializados), fica de espectador ou, no
máximo, figurante.
Diante da exclusão, a arraia miúda
tenta sobreviver de forma pragmática. Já que não tem direitos de cidadania
(participação nos partidos, nos poderes, nas instituições), resta agir
pragmaticamente, aproveitando as brechas, como as eleições, para conseguir um
emprego, uma cadeira de rodas, tijolos, telhas e dentaduras. Exigir um
calçamentozinho aqui, uma drenagezinha ali. Quando perdeu a paciência e partiu
pra briga — Palmares, Canudos, cabanada, greves selvagens, revolta da vacina —
foi massacrado pelo Exército, com apoio vociferante da mídia. No Caldeirão
(Ceará, anos 1930) aviões militares bombardearam populações civis (como em
Guernica, mas Picasso não estava lá; Canudos, em termos de memória e denúncia,
pelo menos teve Euclides da Cunha).
O discurso da classe média
esclarecida, progressista, seja liberal ou de esquerda, condenando o
“fisiologismo”, soa para a massa distante, incompreensível, como um concerto de
música dodecafônica. E é uma marca de incompreensão: mede a dor alheia por sua
régua.
Pobre não é patrimônio da
esquerda. Pobre é, por artes das elites, desorientado politicamente. Pode
pender pra esquerda ou pra direita. Esta, tem tarefa mais fácil: além de contar
com a mídia, navega a favor da maré dos preconceitos, desinformação e
ignorância em que a ralé vive afogada. Por isso (e outras coisitas), Bolsonaro
foi eleito e continua bem avaliado. Fala a língua do povo para tirar os
direitos do próprio povo. Quando nós dizemos “fiquem em casa” e o capitão diz
“vão trabalhar”, quem tem razão na visão dos que dependem da ajuda emergencial
para sobreviver?
A esquerda deve abandonar sua
mentalidade classe média e tentar entender o povo (e, tarefa de longo prazo,
convencê-lo). Trabalho duro, penoso, paciente. O resto é blá-blá-blá para
aplacar nossa consciência confusa.
*Homero Fonseca é jornalista, escritor e consultor literário. Foi editor da revista Continente. Autor do romance "Roliúde", entre outros livros.
*Ilustração: "Os Operários", de Tarsila do Amaral

Nenhum comentário:
Postar um comentário