Andava pelos morros, corria nos telhados; no chão, se criou entre cães.
Os tutores estranhavam. Mas afinal quem ligava para animais sem dono, malandros?
Muitas vezes apanhou, passou fome. Os cães e os fardados não têm pena de bichos abandonados pelas ruas. Ainda mais de pele escura.
Um dia uma menina linda, branca como a neve, o recolheu.
Cuidou de suas feridas, deu remédios, teve longas conversas com o bichano.
Somente com a branquinha ele ficava menos esquivo.
Outros não se aproximassem, ele mordia ou feria com as unhas.
O sangue até desceu algumas vezes, dos desavisados.
Longe das ruas conviveu com outros felinos, de diferentes tamanhos e cores.
Mansos. Dóceis.
Ele não. Era um gato com alma de leão.
Rebelde, difícil.
Os anos passaram.
Ficou velho, perdeu a visão, entristeceu.
Nem o carinho da branquinha o tirava do silêncio permanente.
"Parece mau humorado", disse alguém da casa, intrigado com o comportamento do negro gato.
Assim, não se ouviam dele miados, nem na hora da ração, quando os outros faziam festa.
Começou a definhar. Mais de 11 anos de vida, o que é muito para um gato doente.
Essa história de sete vidas é balela. Gente, cão, rato ou gato, só se vive uma vez.
Um dia sumiu. Foi procurado no bairro inteiro.
Perguntaram por ele nos apartamentos, nos condomínios que surgiam a caminho das comunidades quilombolas.
Ninguém viu o gato preto.
Morreu?
Como estava não podia sobreviver tanto tempo fora, imaginou sua dona, entre lágrimas, de luto pelo animal de quem tinha cuidado com tanto carinho.
Passados mais de 30 dias, uma noite apareceu no quarto da irmã de branquinha. Entrou por uma janela.
No outro dia todo mundo acordou com aquela novidade.
Um espanto!
Magro, fraco, um mistério ter conseguido voltar, subir até a janela para entrar na casa. Como conseguiu?
Não comeu nada. Retornou mais silencioso do que antes.
Na manhã seguinte entrou no banheiro, se deitou no chão, com a respiração difícil.
O pai de branquinha entrou no reservado e sentiu que o animal estava nas últimas. "Veio só para morrer em casa", pensou.
Falou com o gato, recebeu de volta um olhar cansado, de despedida.
No outro dia branquinha o enterrou no quintal, com as roseiras em redor.
Triste por um lado, a menina se conformou por ele ter feito todo esforço do mundo para voltar.
Foi um final digno. Despediu-se dos que lhe tiveram alguma consideração. E vai ficar pra sempre no seu chão, até quando as estrelas pararem de brilhar, até quando toda vida desaparecer do planeta.
"Se existe um céu dos gatos ele está lá", disse a menina depois do sepultamento, e foi reler "Incidente em Antares", seu livro preferido.

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