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domingo, 31 de março de 2019

OS CABOS ELEITORAIS


Por Junior Almeida

Se política hoje em dia é coisa acirrada, quase uma guerra, imagina antigamente, nos tempos dos votos de cabresto. Nos dias de hoje vemos pessoas se intrigarem de outras por política, deixar de comprar em determinado comércio ou mesmo partir para as vias de fato, tudo por conta que vota em um candidato diferente do outro. Para o eleitor, o candidato adversário é ladrão, fresco e corno, e quanto mais chance ele tem de ganhar, aí é tudo isso multiplicado várias vezes. Particularmente acho de certa forma engraçado o fanatismo e as arengas de alguns, mas dentro do limite da civilidade, se é que existe isso em política.


Até 1963 Capoeiras pertencia a São Bento do Una, e todas as decisões que afetavam a vila, vinha da sede distante trinta quilômetros. Nomeações para os mais diversos cargos eram feitos pelos que estavam no poder, no caso daquela época, os Valença que consideravam Capoeiras uma vila rebelde. Esse desalinhamento com a vontade dos mandatários de São Bento se dava pela força de Heronides Borrego, herdeiro político do seu pai, o Coronel João Borrego, então chefe da mais importante família de Capoeiras daqueles tempos. Quem sempre tinha mais voto na vila era quem “Seu” João e depois Heronides quisessem, e isso incomodava. Dispostos a mudar isso, três jovens idealistas da família Valença resolveram tomar à frente da política no distrito: Ilo, Clávio e Ênio. Depois de combinar tudo com os parentes mais velhos, em um sábado, ainda amanhecendo resolveram ir para Capoeiras angariar votos para os seus candidatos.


Quando ainda estavam para visitar a primeira casa, por volta das sete horas, receberam um recado que “Seu” Heronides estava os chamando para conversar. O trio se olhou, como se esperassem uma explicação para tal recado. Não entendiam como tinham acabado de chegar na vila, e o mandatário local já sabia das presenças deles. Um pouco receosos por não saber o que os aguardavam, de pronto foram com o portador do recado à casa do chefe político local.


No percurso um dos jovens cochichou que eles estavam desarmados, o que gerou certa tensão. Pensando melhor, não era para tanto um pensamento desses. Ao chegar à casa se “Seu” Heronides, todo clima tenso desapareceu, pois ele já aguardava os rapazes com um largo sorriso na frente da sua residência. Cumprimentou um por um, e os convidou pra entrar. Na sala de copa, uma farta mesa de café da manhã estava posta. Cuscuz, charque, carne de sol, café, leite, pães, bolachas, geleias, mungunzá, queijo de coalho e de manteiga e mais de cinco tipos de sucos, além de frutas. O trio se olhou sem entender nada. 


      -Sentem aí meninos. Vamos comer. Não fica bem sair por aí atrás de votos de barriga vazia. Disse o anfitrião.



Meio constrangidos o trio pensou em recusar, mas como ainda não tinham comido nada, os rapazes aceitaram o convite. Durante o café da manhã conversaram muito, com os três revelando suas ideias políticas e pessoais para as melhoras do planeta, a começar por sua terra. O velho político, com a experiência dos anos, ouvia tudo atentamente, e incentivava os rapazes a falar, sempre elogiando as suas ideias. Ao terminar o café, e alguns cigarros, continuaram a conversa na sala de entrada da casa. Pareciam que todos eram amigos de longa data, tal forma a conversa fluía.


Seu Heronides sempre fumando, acendia um cigarro na brasa do outro que estava acabando, era acompanhado do jovem Ênio, que também fumava muito. Sem notar o tempo passar, já passava um pouco de onze da manhã, quando uma empregada trouxe numa bandeja inox quatro copos com caldinho de feijoada, dois limões cortados ao meio, formando quatro bandinhas e mais uma garra de vidro com pimenta caseira. A moça serviu um a um os rapazes, que pegavam os copos com o caldo bastante quente e cheiravam, enchendo a boca d’água. Heronides Borrego percebeu que os rapazes gostaram.


-Uma delícia dessas só presta com o que? Quis saber o dono da casa.


Um dos jovens de pronto falou que um caldo daquele só combinava com uma caninha. Era o que “Seu” Heronides queria ouvir. Levantou-se e foi em um dos quartos da casa, voltando debaixo do braço com um pequeno barril de madeira com uma torneira de metal, e segurando quatro copinhos de vidro na mão. Ele falou para os rapazes que era cachaça com mel de uruçu, ou cachimbo, como também era chamada aquela mistura.


A bebida que já estava e guardada a um bom tempo, só iria ser aberta agora para celebrar os novos amigos. Os jovens se sentiram lisonjeados. Apressaram-se em pegar os copos, encher de cachaça e tomar, com o caldinho como tira gosto. A caninha estava tão curtida que parecia que tinha só o mel. Heronides tomou uma dose, pigarreou e tomou o caldinho em seguida.  O resto do pequeno barril ficou por conta dos três jovens.


Perto de acabar a bebida, o dono da casa levantou e trouxe mais, dessa vez numa garrafa de vidro transparente tampada com uma cortiça. Os rapazes que já estavam se sentindo em casa tomaram mais meia garrafa, quando Dona Nanú, esposa de Heronides veio avisar que o almoço estava servido. Os rapazes se levantaram sem cerimônias, pegaram a bebida e os copos e foram pra copa para comer novamente. Novamente na mesa, além de uma saborosa feijoada os rapazes tinham ao seu dispor galinha caipira, porco e bode guisado e assado, farofa d’água e xerém.


Os três agora só queriam entre um cigarro e outro, saber de beber e falar dos seus planos em Capoeiras, usufruindo do banquete apenas como tira gosto. Já passava de quatro da tarde, e já tinham tomado mais três garrafas da cachaça com mel além do barril, quando os três rapazes da família Valença bastante alterados, resolveram voltar para São Bento do Una, sem fazer uma única visita e sem pedir um voto sequer.


Heronides com um riso irônico no rosto agradeceu pela visita dos jovens, mandou lembrança aos seus pais e se despediu. Poucos dias depois a eleição confirmara o que sempre acontecia: em Capoeiras tinha voto quem a família Borrego queria. Os três jovens questionados por pessoas em São Bento, o que poderia ter acontecido em Capoeiras, já que os mesmos foram designados a mudar o quadro, ou pelo menos diminuir a diferença de votos, simplesmente desconversavam, e só depois de muito tempo é que se soube o que eles realmente fizeram em Capoeiras.


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