domingo, 19 de novembro de 2017

WALDICK E O PRECONCEITO CONTRA O ARTISTA POBRE

Eurípides Waldick Soriano nasceu em Caitité, cidadezinha com pouco mais de 50 mil habitantes, no interior da Bahia.

Ainda criança foi abandonado pela mãe e este fato marcou toda sua vida.

Antes de se tornar um artista conhecido, Waldick trabalhou como lavrador, garimpeiro, motorista de caminhão engraxate e ajudante de feira.

Foi para São Paulo, tentar a vida como artista, quando já tinha 27 anos.

Emplacou seu primeiro sucesso no final dos anos 50, com a música “Quem És Tu?” e na década seguinte tornou-se muito popular com canções como A Carta, Tortura de Amor, A Dama de Vermelho e Paixão de Um Homem.

Waldick era fã do personagem Durango Kid, dos filmes de faroeste, e a partir dele adotou o jeito de se apresentar: sempre usando roupa e chapéu preto, além de óculos escuros.

Na época em que o cantor de Caitité era popular, ainda não era conhecida a expressão brega e Waldick Soriano era rotulado como um artista “cafona”.

Ele, como outros do mesmo estilo musical – Agnaldo Timóteo, Reginaldo Rossi, Odair José, Evaldo Braga, Paulo Sérgio e Nélson Ned – nunca foram levados a sério pela crítica especializada, não emplacaram músicas nas trilhas sonoras das novelas, nem foram reconhecidos pelo papel importante que exerceram junto às classes populares.

Coube ao jornalista e escritor Paulo César Araújo, autor de uma biografia de Roberto Carlos, censurada pelo “rei”, fazer justiça aos bregas, quando da publicação do livro “Eu Não Sou Cachorro Não”, cujo título é uma homenagem a Waldick e a uma de suas músicas mais conhecidas.

No livro de Paulo César, que se tornou um clássico sobre a MPB, os cantores românticos dos anos 60 e 70 são mostrados na sua real dimensão e é apontada uma forte carga de preconceito contra eles,  pela origem humilde e por não serem engajados em causas políticas.

Na época da ditadura militar, segundo o historiador, artistas como Waldick Soriano, Odair José e Paulo Sérgio estavam muito preocupados com a sobrevivência e não tinham como participar de movimentos políticos.

Waldick estudou apenas até o quarto ano primário (hoje 4ª série do ensino fundamental).

“Minha universidade foi a vida”, disse o cantor no documentário “Sempre no Meu Coração”, em que a atriz Patrícia Pillar fez um tributo ao artista, que já estava velho e doente.

Ele morreu em 2008, aos 75 anos, de câncer de próstata.

Teve ao longo da vida 14 mulheres.  Com a primeira viveu apenas dois meses, mas com outra, Marinês (não se trata da cantora de forró),  conviveu por por 17 anos, numa casinha simples no Piauí. “Mas nunca encontrei a tal felicidade”, desabafou numa emissora de TV.

Um dos seus filhos, Waldemar Soriano, numa entrevista ao apresentador Geraldo Luís, da Record,  revelou que o pai morreu pobre, sem deixar dinheiro, casa ou qualquer bem.

O enterro de Waldick Soriano, segundo Waldemar, foi pago pelo cantor Agnaldo Timóteo.

Waldick gravou 82 discos e compôs 700 músicas, segundo ele mesmo confessou.

Uma de suas canções mais conhecidas, “Tortura de Amor”, foi censurada pela ditadura militar, porque os gênios do regime imaginaram que a canção trazia uma “mensagem cifrada” sobre o que estava acontecendo nos porões, na época.

Esta música foi regravada, anos depois, por Maria Creuza, Altemar Dutra, Agnaldo Timóteo e Raimundo Fagner.

Além de suas próprias músicas, o cantor baiano gravou composições de outros artistas, inclusive um disco com canções de Roberto e Erasmo Carlos.

“Sempre no meu Coração”, o tocante documentário feito por Patrícia Pillar, termina com uma vigorosa interpretação de Waldick da música “Cavalgada”, uma das mais inspiradas do rei e seu parceiro.

*Foto de Waldick no filme dirigido por Patrícia Pillar. Reproduzida do site "Cinema 10".

*Paulo César Araújo revela que o cantor Odair José foi um dos mais censurados pelo regime militar. "Chico Buarque era censurado por motivos políticos e Odair por questões morais", explicou o jornalista e historiador num programa de TV.

**Além do livro de Paulo César, indispensável para saber mais sobre Waldick e a música brega, no YouTube encontramos vídeos preciosos sobre o artista, inclusive o citado documentário de Patrícia Pillar.

3 comentários:

  1. Vivi estes belos momentos vividos ouvindo a única rádio local,"A RÁDIO DIFUSORA DE GARANHUNS" e essas músicas faziam parte do repertório musical tocado na rádio DIFUSORA.

    Por favor leva essa carta e diga por favor....as minhas primeiras namoradas foram através de cartas.Eram paixões para mais de metro,e as velhas canções faziam a gente sentir na alma o quanto era bonita amar e gostar de alguém.

    Hoje o tempo mudou para pior.As músicas antigas ainda são as melhores para se ouvir cujas canções tem letra,conteúdo e melodia.

    Parabéns,pela bela reportagem.Reviver o passado nos faz recordar e aprender um pouco mais.

    ResponderExcluir
  2. Impressionante é ver que essas musicas que enalteciam a mulher e a elevavam quase ao patamar de divindade, são consideradas obras do machismo e da sociedade PATRIARCAL! Hoje com o "Feminismno Esquerdista raivoso" o que temos na musica moderna populista? Expressões como cachorra, rapariga, vagabunda. E quer saber eu acho é bem merecido!

    ResponderExcluir
  3. Pela reconhecida maldade, os generais cascas-grossas censuravam, torturavam e matavam só pra ver a queda! - E hoje vêm alguns debiloides defenderem candidaturas de indivíduos como Jair Bolsordinário! - É o que vemos, infelizmente!

    ResponderExcluir