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segunda-feira, 1 de maio de 2017

GREVE GERAL - A FESTA FOI BONITA PÁ

Por Homero Fonseca

Digo com Chico Buarque: a festa foi bonita, pá. Estive no Derby (bairro do Recife) na sexta-feira (28/4/17) e vi a manifestação gigantesca, colorida, vibrante contra os retrocessos das reformas trabalhista e previdenciária. Já era hora. Antes de fazer algumas considerações objetivas sobre a greve e o momento que vivemos, permitam-me uns toque subjetivos. Fazia muitos anos que eu não sentia essa vibração das massas, esse sopro de vida cívica varrendo as ruas e encontrei muitos camaradas, homens e mulheres, de lutas passadas. 

Com o mesmo brilho no olho e a disposição de não ficar parado diante da injustiça e da iniquidade. Somos todos uns dinossauros? Estávamos ali porque não aprendemos a criar juízo? Construímos um estilo de vida e dele não conseguimos mais nos desvencilhar? Ou simplesmente estávamos nas ruas porque o que conseguimos até agora foi muito pouco, e mesmo assim sob ameaça, e ainda há muito que conquistar? Escolham a opção. A luta dos humilhados e ofendidos é antiga, desigual e árdua — muito sangue, suor e lágrima ainda haverão de rolar, infelizmente.

Senti falta de velhos companheiros, alguns que na juventude foram mais generosos e mais corajosos do que eu e se meteram de corpo (literalmente) e alma no bom combate. Muitos mudaram de lado. Ou porque fizeram uma autocrítica tão feroz dos velhos erros da esquerda que terminaram por justificar a opressão da direita. Ou porque, pequenos burgueses apressados, ansiosos por fazer a revolução num passe de mágica, desiludiram-se e voltaram ao leito da classe paterna. Ou o que mais? O fato é que se tornaram neoliberais e aliaram-se aos velhos setores reacionários que continuam onde sempre estiveram, embora vocalizando o discurso demagógico da modernidade, da atualização, das transformações da sociedade. Não há nada de novo debaixo da sol, mas o capitalismo tem exercido sua incrível capacidade de adaptação e sobrevivência, cedendo os anéis e ficando com os dedos. E alguma coisa que cedeu, meus amigos, não foi por bondade, racionalidade ou o que seja: foi arrancado com porrada, sacrifício, distúrbios e mortes por doença ou violência.

Agora, os eternos arautos da ordem estabelecida, do golpe de 2016, da dominação dos pequenos pelos mais espertos, fazem a sua narrativa, nos poderosos canais da grande mídia, tentando minimizar o movimento, ridicularizar, desqualificar. É o jogo deles.

Aspectos importantes dos eventos da sexta, dia 28:

COBERTURA — Desde cedo, a TV Globo procurou mostrar que “a situação está normal” e focava pequenos grupos obstruindo vias. Com a evolução da greve, centrou o foco em “pessoas desejosas de ir trabalhar”, mas impedidas pela paralisação dos transportes coletivos. Para cada manifestante ouvido, dava voz a sete ou oito “prejudicados”. (Detalhe sociológico: a maioria comerciários, categoria que é o elo fraco da estrutura sindical pelo enorme exército de mão-de-obra disponível a rondar seus empregos e pela pressão direta dos patrões). Ao longo do dia, passou a mostrar ações dos “vândalos” e choques com a Polícia, especialmente no Rio e SP. (Vale salientar o papel desempenhado nos últimos tempos pela PM de Alckmin que, se nas passeatas perfumadas pelo impeachment se deixava fotografar em “selfies” pelos manifestantes, age com extrema truculência contra a esquerda em geral.) A Globo procurou a todo momento minimizar o alcance da greve, atribuindo-a única e exclusivamente à paralisação do transporte público, omitindo professores públicos e privados, bancários e outras categorias. Sem falar que parar ônibus e trens em todas as capitais brasileiras (exceto o Rio) e em algumas grandes cidades é uma façanha e tanto. Vi pessoalmente o Recife totalmente parado e uma grande passeata à tarde. A TV mostrou poucos segundos dessa realidade. Imagino por aí afora.

À noite, o JN fez uma matéria esquisita, na defensiva, demonstrando que desde cedo o canal dos Marinhos vinha cobrindo o movimento. O problema era: como cobriu, tentando sempre esvaziá-lo. Seguindo a estrela-guia, as outras TVs não fizeram por menos. A Band apelou para o terrorismo, enfatizando e amplificando os incidentes mais violentos e a tal “ação dos vândalos”.

Um dado mais abrangente a observar é que, durante todo o tempo de tramitação das reformas conservadoras a Globo, congêneres e a mídia impressa fecharam amplamente em favor das propostas do Governo, apresentando supostos aspectos positivos e suprimindo radicalmente o contraditório. Também receberam um derrame de verba publicitária governamental.Manipulação pura da opinião pública, escondendo os fatos e anestesiando reações mais enfáticas dos futuros esbulhados.

Os conservadores, nas redes sociais, vocalizaram os argumentos da mídia e travaram uma guerra de narrativas em que tentaram fazer prevalecer a tese de que a greve havia fracassado. Intoxicados pela propaganda ideológica, não argumentam muito, limitando-se a repetir xingamentos e destilar a ódio (petralhas, vagabundos, ladrões etc.).

GREVE E VANDALISMO

A classe média histérica, manipulada pela mídia, costuma demonizar os movimentos populares. No fundo, teme a perda de alguns privilégios recebidos da elite pela ascensão do povo. E cobra “ordem” e “direito de ir e vir”. Infelizmente, cidadãs e cidadãos de bem, a história mostra que sem desordem e violência não se conquista nada das classes dominantes. Todo pequeno avanço conseguido pelos oprimidos passou por uma longa, dura, por vezes sangrenta luta, de Spartacus aos movimentos dos sem-terra. Se a classe trabalhadora fosse bem comportada como quer a turma da tradição-família-e-propriedade, ainda estaríamos na 1ª Revolução Industrial e a jornada de trabalho continuaria de 16 horas.

A atuação violenta dos mascarados, conhecidos por black blocs, durante as mobilizações populares é assunto bastante explorado pela mídia, repercutido intensamente pelos conservadores e já razoavelmente estudado por pesquisadores. É um fenômeno complexo e que geralmente ocorre à margem das entidades organizadoras dos protestos. São jovens de baixa renda, sem futuro algum na sociedade competitiva e excludente que os oprime e asfixia. De certa maneira, eles atacam alvos seletivos: equipamentos públicos menores (lixeiras e orelhões), simbolizando o poder estatal que os abandona (já que é difícil demolir palácios governamentais e monumentos de granito); ônibus que não lhes oferecem transporte decente no dia a dia; vitrines de lojas de luxo e agências bancárias — símbolos maiores de sua exclusão do sistema. Existe sim, eventualmente, extravasamento de ódio cego e violência sem direção: o que se pode esperar de quem não tem nada a perder? Os bem nutridos, bem empregados, bem educados e bem estabelecidos que os condenam têm uma vaga ideia do que é não ter nada a perder? Ao contrário, espumam ódio pelo muito de privilégios de que temem ser privados…

Enfim, em minha avaliação, o movimento foi bem sucedido, mas um pouco tardio. Espero que influencie o parlamento, mas estamos a um passo do estupro dos direitos sociais pretendido pelo governo ilegítimo do Brasil. A luta é longa e árdua, camaradas. A reação pública foi basicamente obra do movimento sindical e popular. O povão mesmo está olhando, desconfiado. Mas apressam-se os arautos do golpe, na imprensa e fora dela, ao proclamarem que com isso o povo estaria passivo diante do descalabro. As pesquisas indicando Lula à frente de toda simulação eleitoral para 2018 não lhes dizem nada?


Homero Fonseca é jornalista, blogueiro e escritor. Foi editor da revista Continente (2000–2008). Autor do romance “Roliúde” (Record, 2007), entre outros livros.

Um comentário:

  1. A queima de pneus que eles chamam de greve se resumiu a parar o trânsito, exigindo na marra e na ameaça que a população aderisse mesmo que involuntariamente a um movimento sem pé nem cabeça. Sem adesão popular, só deu pelego!!! De resto, fica provado que não há futuro para Lula e seu partido. Até porque, Duque vem aí, Palocci também...

    P.S.: - O INTERESSANTE É QUE, O LULA SEMPRE TRATOU A CLT COMO O “AI-5 DOS TRABALHADORES”...

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