Governo do Estado

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O FIM DA HISTÓRIA?

Por Michel Zaidan Filho*

Quando o “muro do Berlim” ruiu, talvez apressadamente demais, houve uma onda de euforia neoliberal que pretendeu retificar a história contemporânea, extirpando dela as páginas dedicadas à experiência socialista. Numa leitura canhestra – influenciada por Alexandre Kojeve- da filosofia da História de Hegel, apareceu um profeta nissei  chamado Francis Fukuyama que prognosticou o fim da História, com isso querendo dizer que a democracia  liberal e a economia de mercado eram o ponto final da evolução política e social da humanidade. Como disse então Eric Hobsbawn, aquela era uma profecia de vida muita curta, logo depois veio a guerra do Golfo e a roda da História continuou a girar.

Agora, apareceu no Brasil um estadista de Belo Jardim cuja primeira medida é o fim da História, outra vez. 0 que tem certos políticos para  acertar logo a História, quando detém um pouco de poder nas mãos? – Numa leitura freudiana, o gesto poderia ser interpretado com o assassinato simbólico dos professores de História do atual ministro. Lembre-se que ele manteve uma polêmica azeda com seus mestres, na época da escola parque do  Recife, chamando-os de “subversivos”. É como se vingasse deles, agora, retirando a disciplina do currículo do ensino médio. Mas essa seria uma interpretação rasa, superficial.

A retirada da obrigatoriedade do ensino de História, no ensino médio, faz parte de um plano arquitetado pelo lobby dos empresários do ensino, interessados no aligeiramento do perfil do alunado. Para esses “educadores pragmáticos” a História não tem a menor serventia para a formação de uma força-de-trabalho barata e dócil, destinada a um mercado de locação de serviços desregulamentado. Como, aliás, a Filosofia, a Sociologia e as Artes. Para que tanta coisa (a formação humanística), quando se trata de produzir “massa de manobra” para a exploração desse capitalismo (rentista) selvagem? – Deixa para os filhos da burguesia, da alta classe média, dos herdeiros dos grandes impérios industriais, que precisam sim de uma formação integral, ampliada, de perfil crítico, inventivo. E que podem pagar – caro – por isso. É o reforço da divisão social entre que manda e quem obedece. Quem tem e quem não tem capital social, capital simbólico, capital intelectual.

A história já foi prisioneira de inúmeras práticas discursivas. A mais conhecida é a história genealógica, de Nietzsche e Foucault. A história, como mera racionalização de uma vontade de poder ou de potencia. Mas ela não só serve para isso. A história é vida e não um cadáver embalsamado para contemplação de eruditos. A história é o domínio dos possíveis, da virtualidade, daquilo que ainda não é, mas pode vir a ser. É essa a concepção de História que precisamos. Não a história antiquária, ou a da erudição balofa e vazia. Não a história como racionalização da epopeia do vencedor. A história que está viva é a história das nossas utopias, dos nossos sonhos, dos projetos de alteridade social.

Essa história nenhum avicultor poderá matar ou suprimir. Pode reescrever ao sabor de suas conveniências políticas. Mas ela sempre viverá, como ideia reguladora, a guiar o ideal de justiça, de beleza, de verdade dos homens e mulheres de boa vontade.

*O garanhuense Michel Zaidan Filho é escritor com diversas obras publicadas, cientista político e professor da UFPE na área de Ciências Humanas.

*Foto: Portal Controvérsia

              

Um comentário:

  1. Ótimo texto, dão extrema importância a matemática e ao português mas "esquecem" Da importancia de discutir e debater a sociedade no campo das ciências humanas, o passado é o presente meus amigos, mais do que nunca eu vejo o futuro repetir o passado! Não queremos uma escola que forma robôs!!!

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