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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

UM GUARDIÃO DA MEMÓRIA DE CANHOTINHO

Por Junior Almeida

Em pesquisas ou andanças em busca de novas notícias para informativos eletrônicos diários ou mesmo aqueles fatos antigos que nos ajudam a tanger a história, muitas vezes nos deparamos com situações para nós inéditas, outras curiosas e algumas vezes agradáveis. Como na maioria das vezes busco fatos relacionados ao cangaço, é bem comum encontrar histórias de dor, morte, vingança, sangue, suor e lágrimas, muitas lágrimas. Às vezes, porém, saímos de casa em busca de um fato relacionado a triste história do cangaço em nossa região e encontramos histórias de certa  forma na contramão do que procurávamos, como o caso relacionado ao fato que passo a narrar agora.

Início de dezembro de 2016. Estava eu em meu comércio a conversar com um rapaz de nome “Márcio Taba” que trabalha em Capoeiras, mas é filho e morador de Canhotinho, divisa do Agreste com a Zona da Mata de Pernambuco, terra natal do grande artista Zeto do Pajeú, que despontou no cenário musical ao fazer o repente da campanha de Arraes em 1986, "vai entrar pela porta que saiu". Curioso, perguntei-lhe o que sabia da história de sua terra. Como é bem comum nos dias de hoje, até mesmo nos meios acadêmicos, o rapaz disse que pouco sabia, mas que um locutor da rádio comunitária local, podia me fornecer às informações que eu queria. 

Solícito, Márcio me passou o contato de Zé de Mira, que apresenta um programa de variedades durante a semana de 8 às 10 da manhã, na Canhotinho FM. Entrei em contato então com o atencioso profissional de rádio, que disse que me ajudaria no que precisasse. Adiantou pelo telefone que me levaria a um senhor que sabia de tudo da história do lugar. Marcamos, e no outro dia estava eu na centenária Canhotinho.

O propósito da minha ida aquela cidade era tentar descobrir rastros do primeiro rei do cangaço, Antônio Silvino, o “Rifle de Ouro”, que se homiziou em Canhotinho em 1899, vindo da Paraíba fugindo da volante do capitão José Augusto,  que tinha cercado o bando pelo menos duas vezes: em Matinhas e depois no lugar denominado Fagundes, próximo a Campina Grande. Nesse último fogo, que durou um dia inteiro, Antônio Silvino perdeu cinco cabras, o que fez o bando recuar. 

Em Canhotinho, área ainda desconhecida para o célebre sicário, quem lhe deu guarida foi o senhor de engenho Epaminondas de Melo Barreto. 

Foi de Canhotinho que Antônio Silvino partiu com seu bando, em outubro daquele ano,  para o Engenho Santa Filonila (o nome é esse mesmo), município de Escada, na época Glória do Goitá, para cometer o único crime que revelou mais tarde ter se arrependido, na sua extensa lista de ações fora da lei: o assassinato da menina Feliciana, filha do poderoso usineiro Antônio dos Santos Dias. A jovem morreu vítima de bala perdida, assim como um empregado do engenho, quando na verdade o objetivo da empreitada era o sequestro da outra filha do coronel Santos Dias, essa casada com o doutor José Tavares de Melo, que contratou o cangaceiro para o sórdido serviço.

O GUARDIÃO - Pretendendo descobrir alguém que sabia de tais fatos ou mesmo da estadia de Silvino no lugar, Zé de Mira me levou a uma casa próxima à igreja matriz da cidade, residência de um agradável, simpático e lúcido senhor, José David da Silva, nascido em 12 de maio de 1926, portanto com mais de 90 anos de vida.  E foi aí que veio uma agradável surpresa: “Seu” Zé David me levou até um imóvel próximo de sua casa que mantém com recursos próprios em prol da memória do município. 

A Galeria de Arte, Música e Poesia de Canhotinho foi fundada em fevereiro de 2015, e é uma espécie de museu, onde se amontoam objetos antigos, como discos em vinil, vitrolas, dinheiro e móveis antigos, vários livros, muitos deles contando sobre a vida do município e até painéis com a galeria de todos os papas da igreja católica. Outros banners da galeria exibem letras de músicas compostas por José David, aliás, homem de muitas artes e ofícios.

José David, que é formado em relações públicas pela ESURP (Escola Superior de Relações Públicas de Pernambuco), trabalhou no antigo Detelpe (Departamento de Telecomunicações de Pernambuco), onde se aposentou em 1991, e até como alfaiate. Também já foi aproveitado em sua área (relações públicas) no Estado, mas sua paixão é mesmo a arte. Poeta, pintor, músico de formação (saxofonista), compositor e escritor, Zé David escreveu “Reminiscências de Canhotinho, Minha Terra – Minha Gente”, um tributo de amor ao município. 

Teve também textos aproveitados na Revista de História Municipal, publicação do Governo de Pernambuco, além de ter composto músicas gravadas por diversos artistas. Cuidadoso com a memória de Canhotinho e também a sua em particular, José David tem em seu mini museu, DVDs e CDs com suas músicas, que somam 33 já gravadas, sendo 23 frevos de rua, de bloco e canção, além de três valsas e nada mais nada menos do que o hino da cidade. José David é o compositor da música oficial de Canhotinho, aquela que teoricamente é cantada nas solenidades festivas do município. Além do hino de sua terra, o artista compôs também o de Lajedo, mas como essa cidade já havia oficializado o seu, ficou então como um segundo hino.

Mesmo com todo esse currículo, com tanto para ensinar as pessoas, José David envia convites as escolas do município para que alunos possam conhecer o seu trabalho, mas reclama da falta de interesse das pessoas de Canhotinho em conhecer a sua história. Ele diz que sua galeria tem pouca ou quase nenhuma visitação, e se queixa que mesmo estando de portas abertas,  em frente a uma escola, raramente aparece um aluno querendo aprender algo, mesmo sendo tudo de graça. O colecionador diz também que o poder público não tem nenhum tipo de projeto cultural ou educacional que mostre as raízes de Canhotinho aos seus filhos.

- Até o aluguel da galeria eu pago do meu bolso. Não tenho ajuda de ninguém nem de quem deveria zelar pela memória do lugar - desabafou o aposentado.

Como brasileiro que "não desiste nunca e acima de tudo é um forte", José David compôs recentemente um hino em homenagem ao centenário da festa de São Sebastião, que será comemorada em janeiro de 2017. Enquanto pessoas como José David estão no ostracismo, nossos filhos vão sendo educados pelas novelas, forrós de plástico e funks pornográficos da vida, esses muitas vezes patrocinados pelo dinheiro público de estados e prefeituras.

Fotos: José David e o interior de sua galeria.

Um comentário:

  1. Ótima matéria, parabéns ao blog por divulgar um pouco das coisas da nossa região. Concordo com o autor quando diz que as famílias estão perdendo espaço para a mídia. É muito comum nos dias presenciarmos crianças, adolescentes, jovens e adultos "repetirem" o que as redes sociais e Globo impõe em todos os aspectos. É uma pena o município dispor de uma pessoa de tanta conhecimento e desprezar, principalmente a escola que tem como dever cumprir com o seu papel de formar cidadãos.

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